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Quadros de um divórcio romance Capítulo 61

"O silêncio da noite só é tranquilo para quem não sabe o que se esconde atrás dele."

Santiago estacionou duas quadras adiante. Vestiu um casaco de moletom escuro, colocou um boné até quase cobrir os olhos e pegou uma mochila no banco de trás. Não queria chamar atenção. Voltou a pé, atento ao movimento da rua — poucos carros, janelas fechadas, luzes acesas atrás de cortinas antigas. Quando parou diante do sobrado, respirou fundo.

Empurrou o portão de ferro com cuidado, mas o metal respondeu com um rangido agudo, como se protestasse por ser acordado depois de anos. A dobradiça cedeu, fazendo a parte inferior do portão descer torta e quase se soltar.

— Merda… — resmungou, levantando o portão com as duas mãos para conseguir fechá-lo outra vez.

O jardim da frente mal podia ser chamado de jardim. Pequenos canteiros, antes delimitados por pedras brancas, agora estavam cobertos por mato alto, terra rachada e umas três margaridas teimosas sobrevivendo entre o descuido. A garagem, logo ao lado, estava abarrotada de velhos móveis quebrados, pedaços de azulejo, caixas mofadas e uma bicicleta sem rodas presa à parede.

Subir os três degraus até a porta de madeira que já tinha perdido o verniz, exibia marcas de chuva, sol e esquecimento. As ferragens estavam enferrujadas, a campainha pendia por um fio de cobre exposto e os vidros da janela ao lado estavam tão empoeirados que nem refletiam a luz da rua.

Girou a maçaneta com cuidado. A porta cedeu.

O ar lá dentro era frio, denso, cheirava a madeira úmida e abandono. Os pisos de taco se moviam sob seus pés, soltos. O hall de entrada tinha um papel de parede antigo — flores amarelas desbotadas, descascando nos cantos — e um espelho rachado que devolveu a ele uma versão deformada de si mesmo.

Um lustre de cristal sujo pendia do teto. Apenas uma lâmpada funcionava, lançando uma luz fraca que mal vencia a escuridão. Havia marcas no rodapé das paredes, como se móveis tivessem sido arrastados às pressas, e poeira suficiente para denunciar que ninguém morava ali há muito tempo.

Ele inspirou devagar.

— Excelente, Santiago… ótima ideia. — murmurou para si mesmo, irônico. — Mas por ela... vale a pena.

E entrou de vez, fechando a porta atrás de si como quem aceita um destino inevitável.

Já tinha aberto a boca para chamar por Marcelo, mas engoliu o nome no último instante. Helena poderia escutar. Se não ela… Mabe certamente ouviria — e a cadela não era de deixar passar nada.

Ao chegar à escada, apoiou a mão no corrimão por instinto — e imediatamente sentiu a madeira ceder, frouxa, quase solta da parede. Retirou a mão devagar, como se o próprio gesto pudesse derrubar tudo.

Começou a subir, cada degrau protestava sob seu peso. No alto da escada, parou. Uma luz fraca escapava da porta do cômodo da frente — tremulando, como vela ou lâmpada antiga. Avançou pelo corredor estreito, desviando de uma pilha de jornais velhos e de um guarda-chuva torto encostado à parede. A porta estava apenas encostada.

Santiago empurrou a porta com cuidado. A luz fraca de um abajur revelou o interior do cômodo. Marcelo estava sentado em um conjunto antigo de mesa e cadeira de ferro — do tipo que se vê em calçadas de bar. Diante dele, um notebook aberto. Mais ao fundo, próximo à janela que dava para a rua, Pedro se acomodava em uma poltrona velha, o corpo inclinado para frente, observando o lado de fora como quem vigia mais do que apenas o movimento.

Ambos se viraram quando ele entrou.

Marcelo se levantou com um meio sorriso e o cumprimentou com o toque de mão que só os dois sabiam reproduzir. Pedro levantou-se logo depois e apertou a mão de Santiago com firmeza.

— Obrigado por ter aceitado o trabalho — disse Santiago, sincero. — Marcelo falou muito bem de você. É um prazer finalmente te conhecer.

— O prazer é meu — respondeu Pedro com a voz calma. — E sim, ele falou bastante de você também. Quase demais.

Marcelo sorriu de canto. Santiago não perdeu tempo.

— E então? — perguntou, descansando a mochila sobre a mesa. — O que era tão urgente?

Pedro foi quem respondeu primeiro.

— Alguém esteve aqui antes de nós — disse, apontando com o queixo para a janela. — Encontrei bitucas de cigarro recentes. Não têm mais que uma semana… o que significa que outra pessoa também usou esse lugar para observar a rua.

Santiago sentiu o estômago apertar.

— Você acha que pode ser a mesma pessoa que tentou atropelar a Helena? — perguntou, olhando agora para Marcelo.

Marcelo soltou um suspiro, pensativo.

— Não tem como sabermos. Esse é um bairro antigo, todo mundo conhece todo mundo… e não há câmeras de segurança. Isso facilita para qualquer um passar despercebido.

Santiago assentiu devagar, pensando nas possibilidades.

— Se instalarmos câmeras… vai chamar atenção?

— As profissionais sim — respondeu Marcelo. — Mas Pedro já espalhou algumas pequenas, provisórias. — Virou a tela do notebook para Santiago. — A qualidade não é a ideal, mas elas estão camufladas em árvores e postes nos pontos que consideramos estratégicos. Pouca gente notaria.

— E dentro da propriedade? — perguntou Santiago.

— Aqui é mais seguro instalar. — Já pedi para trazerem o equipamento. Podemos instalar de manhã.

Santiago olhou ao redor do quarto improvisado. Em um canto, um sofá-cama aberto, travesseiro e uma manta verde cuidadosamente esticada. Ao lado, um frigobar antigo com uma garrafa de café em cima. O ar ainda tinha um leve cheiro de mofo, mas o espaço claramente havia sido limpo e adaptado.

— E como tem sido ficar aqui? — perguntou a Pedro.

— Já dormi em lugares bem piores — respondeu dando de ombros. — Quanto à sua garota… — um meio sorriso surgiu no canto dos lábios — está bem tranquila. Passou o dia em casa. Teve algumas visitas. A última foi a amiga morena, dos olhos azuis.

Santiago arqueou uma sobrancelha.

— A advogada?

— A própria. — Pedro cruzou os braços, divertido. — Bonita e com cara de tinhosa.

Marcelo bufou uma risada curta. Santiago também.

Capítulo 61 - Vigília Sobre a Moldura 1

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