“A coisa nenhuma deveria ser dado um nome, pois há perigo de que esse nome a transforme.” Virginia Woolf
Na madrugada, de repente, Mabe ergueu a cabeça que estava apoiada nas pernas de Helena. As orelhas atentas, como se tivesse escutado algo.
A mudança sutil de postura foi suficiente para despertar a mulher.
— O que foi, menina? — murmurou, a voz arrastada de sono.
A cadela não latiu. Apenas pulou da cama e caminhou devagar até a sala.
Helena jogou, relutante, as pernas para fora da cama, se obrigou a levantar e segui-la. A pastora foi até a janela fechada e sentou-se, firme como uma sentinela. Olhava-a com os olhos concentrados, atentos a algo que Helena não conseguia ver.
— Não tem nada lá, bobinha — tentou brincar, embora um arrepio frio lhe subiu pela espinha.
A rua estava em silêncio, mas havia algo diferente nele. Não era barulho — era ausência. Ausência de som, de vento, de vida. Como se a noite inteira estivesse… ouvindo.
Mabe continuava alerta, mas não em posição de ataque — e sim de guarda.
Helena se agachou ao lado dela, passou a mão pela cabeça da cadela, buscando se tranquilizar com aquele toque quente e vivo, e espiou pela vidraça. Nada. Só a varanda, o jardim, a rua e a luz pálida da lua. Nem as árvores se moviam.
— Vem, volte para cama. Vamos dormir.
Chamou-a com um leve tapinha nas costas. Mabe hesitou, mas voltou com ela. Deitou-se perto de Helena, porém com as orelhas ainda em alerta.
Helena apagou a luz do abajur, fechou os olhos. Mas o silêncio permaneceu.
Ela adormeceu outra vez, mas o sono não foi tranquilo. Caiu devagar — como quem afunda na água — e, quando percebeu, já estava em outro lugar. Sonhava.
Estava descalça, num ateliê vazio. O chão era de madeira escura, e no centro havia uma tela enorme apoiada num cavalete. Ao fundo, janelas altas deixavam entrar uma luz cinzenta, sem origem. A casa estava silenciosa demais. Não havia pincéis, nem cheiro de tinta, nem risadas, nem vozes — só o eco do próprio coração batendo.
Sobre a tela branca, havia um único traço. Fino. Escuro. Incompleto. Ela sentia que aquele traço era o começo de algo… mas nunca avançava. Não tinha coragem de tocar o pincel.
— Termina. — Uma voz masculina sussurrou atrás dela.
Ela se virou. Não havia ninguém. De novo, a voz:
— Helena.
Ela quis responder. A boca se abriu, mas nenhum som saiu. De repente, uma porta começou a se abrir lentamente, sozinha. Uma luz fria escapava pela fresta, e com ela… passos. Fortes. Compassados. Mas não havia corpo. Só o som.
O traço na tela começou a escorrer. Como tinta misturada à água. Como sangue diluído.
Helena recuou, tentando se afastar, mas os pés pareciam presos ao chão. Olhou para as mãos — estavam manchadas de vermelho.
— Onde você está? — a voz perguntou de novo. Agora, mais perto. Mais triste.
Ela sentiu algo encostar em sua perna — quente, real.
Abriu os olhos.
Mabe estava sentada ao lado da cama, focinho encostado em sua mão, olhos atentos. Guardando-a. Como se a tivesse puxado de volta antes que atravessasse alguma porta da qual não voltaria.
Helena respirou fundo, tentando separar sonho de realidade. A madrugada já se dissipava dando lugar as primeiras luzes do dia.
Ela passou a mão nos pelos de Mabe que choramingou.
— Tá tudo bem — sussurrou. Mas nem ela acreditou completamente.
Havia um peso no peito, acompanhado por uma sensação constante — ainda que sutil — de sufocamento.
……………
No sobrado ao lado, Santiago também dormia — mas não em paz. Ele virou para o lado, tentando encontrar posição, até ser puxado por um sonho.
Estava em sua galeria.
Mas estava diferente: silenciosa, escura, sem luzes de exposição, sem vozes comentando obras. Apenas ele. E quadros. Quadros cobertos por lençóis brancos, como se todas as obras tivessem sido esquecidas ou escondidas.
O chão brilhava como mármore molhado. As luzes do teto piscavam, num tom frio, quase hospitalar.
No centro da galeria havia uma única pintura descoberta.
Era o retrato de Helena. Mas o rosto estava incompleto — os olhos faltavam. O lugar dos olhos era apenas vazio branco, puro. Sem cor, sem expressão. Uma tela interrompida.
Ele se aproximou, devagar, o coração apertando no peito.
Ao lado da pintura, Mabe estava sentada. Não latia, não rosnava — só observava o quadro, quieta, como quem também sentia falta.
De repente, as luzes da galeria se apagaram. Todas.
Só o quadro permaneceu iluminado.
E a voz dele saiu, baixa, como confissão:
— Helena?
Nada respondeu.
Um vento percorreu o salão — não frio, mas vazio. As coberturas dos quadros começaram a se mover sozinhas, como se algo… ou alguém… passasse por entre elas.
Santiago deu um passo à frente, querendo tocar a pintura. Mas quando sua mão encostou na tela — ela estava gelada. Fria como pedra.
E, então, o quadro começou a rachar. Como pintura antiga perdendo a alma.
A rachadura atravessou o pescoço, alcançou o peito da figura retratada… e ele acordou.
Sentou-se na cama num sobressalto. O coração disparado, a respiração curta, a testa úmida de suor. Levou as mãos ao rosto, como quem tenta arrancar o sonho da pele e voltar à realidade. Só então seus olhos percorreram o quarto: o papel de parede desbotado, a lâmpada pendurada por um fio torto, o ar úmido e silencioso. E lembrou onde estava, e por que estava ali.
Levantou-se devagar e empurrou a porta à esquerda, aquela que na noite anterior mal notara. Do outro lado, um banheiro pequeno e frio. Azulejos hidráulicos gastos cobriam o chão, um cano nu saía da parede onde antes deveria haver um chuveiro, e a pia de coluna sustentava um espelho manchado pela oxidação do tempo.
Aproximou-se. As olheiras profundas denunciavam a insônia e o peso do sonho que ainda latejava dentro do peito. Inspirou fundo, abriu a torneira e deixou a água gelada correr pelas mãos antes de levá-las ao rosto numa tentativa quase desesperada de despertar — ou de esquecer.


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