“Existem casas impecáveis e corações inabitáveis.” Autor desconhecido
Cássio acordou com o corpo pesado e a mente turva no quartinho do escritório. Embora não tivesse bebido novamente, a ressaca do dia anterior ainda latejava por dentro. Levantou-se, tomou um banho rápido e vestiu o primeiro terno limpo que encontrou.
Por ser sábado, a empresa estava praticamente vazia. Já estava há quase três horas com a equipe de criação, acompanhando esboços, ouvindo ideias e tentando manter o controle da própria ansiedade, quando o celular vibrou sobre a mesa. Na tela: "Mãe".
Atendeu.
— Oi, mãe.
— Meu filho… você vem almoçar com a gente hoje, não vem?
Ele hesitou, massageando a testa.
— Não sei se consigo. Estou bem ocupado aqui.
— Mas você vai ter que parar pra comer de qualquer jeito — insistiu ela, com aquela doçura que não admitia recusas. —Venha. Estamos te esperando.
Cássio suspirou.
— Está bem.
Desligou.
Cerca de uma hora depois, estacionava em frente à casa dos pais. O portão estava entreaberto, o cheiro de comida caseira escapava pela janela, e por um instante ele sentiu vontade de recuar — não aguentava mais aquele drama que ele mesmo criara.
Na sala, Carlos estava sentado na poltrona de couro, lendo. Ao vê-lo, baixou o jornal devagar.
— E então, filho… como estão as coisas?
— Caminhando. — Cássio aproximou-se, cansado. — Acho que vai dar certo.
O pai assentiu, sem mais perguntas.
A mãe apareceu logo depois, os braços já abertos antes mesmo de chegar perto dele.
— Que bom que você veio — disse, abraçando-o com a ternura de sempre.
— Mas eu não vou poder ficar muito — respondeu, tentando sorrir.
Viviane estava no sofá, pernas dobradas ao lado do corpo, celular em mãos. Não disse nada, apenas levantou os olhos e deu um aceno breve. Parecia cansada — não fisicamente, mas de tudo que vinha lendo. As manchetes ainda falavam do evento, das críticas ao comportamento dela, das declarações infelizes. Alguns cortes de vídeo a mostravam como uma mulher arrogante — e a internet não perdoava.
Cássio sentou-se no canto oposto do sofá.
Foi então que Viviane arregalou os olhos.
— Não… não acredito! — exclamou, quase derrubando o celular.
— O que foi? — perguntou a mãe, assustada.
— Olha isso.
Ela entregou o celular para a mãe. O vídeo começou a rodar. A expressão materna mudou — surpresa, incredulidade. Então ela virou o aparelho para o filho.
— Cássio… essa é a Helena?
Ele pegou o celular. O pai se levantou da poltrona e se aproximou, sentando-se entre os dois filhos.
Na tela, uma gravação amadora: Helena correndo por um parque. O vídeo tremia, como se feito por alguém que mal conseguia focar. Ela corre, j**a-se dentro de um lago e emerge com uma garotinha agarrada aos braços. Puxa-a para cima, mantêm-na firme. Depois, nada com a criança até a margem, sendo rodeada por pessoas que começam a correr em direção às duas.
Silêncio.
O mundo pareceu ficar suspenso por um segundo.
Cássio não conseguia tirar os olhos da tela. O peito apertou. Surpresa. Admiração. Medo. Alívio. Orgulho. Raiva de si mesmo por sentir orgulho.
Viviane resfolegou, cruzando os braços.
— Ah, por favor… isso tem cara de armação. — Revirou os olhos. — Ela sabia que ia viralizar. Agora vai posar de heroína.
A mãe concordou com um aceno leve.
— Também achei… estranhamente conveniente.
Mas Carlos, o pai, balançou a cabeça devagar.
— Não. — A voz dele saiu firme. — Ninguém se j**a num lago gelado com roupa e tudo… pensando em like.
Viviane franziu o cenho.
— Você está defendendo-a?
— Estou defendendo a lógica — respondeu ele. — O resto, vocês que decidam.
Cássio ainda olhava o vídeo. Não piscava.
As imagens pareciam presas em sua mente, repetindo-se em loop, como uma pintura viva que ele não conseguia parar de contemplar.
Lembrou-se de como Helena amava estar ao ar livre — as manhãs em que insistia para que ele corresse com ela no parque, o cabelo preso de qualquer jeito, o rosto iluminado pela luz natural. Ela dizia que ali respirava de verdade. E, vendo-a naquela tela, mesmo à distância, ele percebeu o quanto aquilo ainda era verdade: ela estava linda. Linda e viva.
Mas algo não fazia sentido.
Por que naquele parque?
Franziu o cenho, recuando um pouco o vídeo, observando os detalhes do entorno — as árvores altas, o quiosque de madeira, a ponte de ferro sobre o lago. Conhecia aquele lugar. Era o parque municipal da cidade.
E quando olhou a data da publicação — três dias atrás — sentiu o coração disparar.
Ele imaginava que Helena havia saído de casa 2 dias antes, no dia do evento, e o parque era longe. Ela não dirigiria até lá apenas para correr. A não ser que...
O peito apertou. Um fio de esperança, tênue, mas real, começou a se desenhar.
Cássio se recostou no sofá, os pensamentos embaralhados. As vozes dos pais e de Viviane se tornaram ruído distante.
O vídeo ainda rodava na tela, mas ele já não via mais — via caminhos, ruas, possibilidades.
Aquela poderia ser sua chance.
Um ponto de partida.
Um traço novo no quadro inacabado em que a vida dele havia se transformado.
Aquele parque seria o primeiro lugar onde procuraria por ela.
A campainha soou, trazendo-o de volta dios próprios pensamentos.
— Ela chegou! — exclamou Esther, já se levantando animada.
“Ela quem?”, pensou, franzindo o cenho, mas não teve tempo de perguntar.
A mãe abriu a porta e revelou Silvia, parada no batente com um sorriso doce e calculado. O vestido leve bordo realçava os contornos do corpo e o brilho frio de seus olhos. Por um instante, Cássio foi tomado por uma sensação estranha — aquele tom de vermelho o fez lembrar de Helena, e o contraste o atingiu como um soco silencioso.
— Cunhada! — disse Viviane, saltando do sofá para abraçá-la com entusiasmo ensaiado.
Cássio se levantou devagar, a mandíbula tensa.
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