“Há momentos em que não saber é a única forma de continuar pintando a vida em tons claros.” Autor desconhecido
O sol da manhã começava a tocar o quintal com uma claridade branda. Helena ainda estava de pijama, os cabelos presos de qualquer jeito, e um echarpe de tricô caía preguiçosamente sobre os ombros. Sentada num toquinho de madeira, segurava uma xícara de café ainda fumegante, observando o jardim que começava a despertar.
As poucas árvores do fundo da casa formavam copas generosas que balançavam ao vento, e ela imaginava o que poderia fazer com aquele espaço — talvez pendurar uma rede entre dois troncos para ler ao fim da tarde, colocar uma mesinha com cadeiras de ferro, ou quem sabe construir um pequeno pergolado coberto de flores trepadeiras. Era bom poder sonhar com o futuro.
Mabe, já satisfeita depois de esvaziar o pote de ração, corria livre entre as folhas secas, farejando o chão e perseguindo uma borboleta teimosa. A cadela pulava, errava o alvo, voltava, tentava de novo — e Helena ria, encantada com a cena.
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Do sobrado vizinho, Santiago a observava por uma fresta da janela, entre duas ripas soltas. Havia algo na simplicidade daquele momento que o desarmava: o modo como ela segurava a xícara com as duas mãos, o riso leve que deixava escapar sem perceber. Mesmo de longe, Helena parecia em paz.
Sabia que invadia algo íntimo, mas aquilo era para a segurança dela. Enquanto Pedro e Marcelo trabalhavam no quintal da frente instalando câmeras e ajustando fios, ele ficara responsável por monitorar os arredores. Haviam combinado que Pedro se passaria por novo dono da casa, para não levantar suspeitas, e que aos poucos fariam pequenas reformas. O lugar estava caindo aos pedaços, mas já havia um pouco de vida ali — e isso, por algum motivo, confortava Santiago.
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O som da campainha quebrou a tranquilidade. Mabe parou no meio do gramado, as orelhas em pé, e correu em direção à porta. Helena deixou a xícara sobre o tronco e foi atender.
Do outro lado estavam sua mãe e Aurora. Helena sorriu, surpresa, mas o sorriso da mãe desapareceu assim que viu a cadela enorme abanando o rabo atrás da filha.
— Onde você arrumou esse cachorro? — perguntou, dando um passo para trás.
Helena conteve o riso.
— Não é “ele”, mãe. Essa é a Mabe. Ela é de um amigo, e estou cuidando dela por uns dias. Mas não se preocupe, ela só tem tamanho.
A pastora se aproximou com delicadeza e encostou o focinho na perna de Helena, choramingando por carinho. Consuelo hesitou, mas logo amoleceu o olhar.
— Você é igualzinha ao seu pai, com esse amor por animais — disse, sorrindo enfim, enquanto afagava o topo da cabeça da cadela.
— Entrem! — convidou Helena, abraçando as duas. — Que surpresa boa ver vocês duas juntas aqui tão cedo.
— Ora, se alguém ajuda minha menina, passa a ser minha amiga imediatamente — disse Consuelo, lançando um olhar carinhoso a Aurora.
Aurora riu. — E quem resiste à sua filha? Desde o primeiro dia percebi que Helena tinha algo diferente. Essa casa estava esperando por alguém como ela pra ganhar vida de novo.
Helena corou e as abraçou novamente.
— Mas o que estão tramando as duas juntas? Tá parecendo um complô.
Consuelo apertou-lhe o rosto entre as mãos.
— Eu te disse que vinha te ajudar a terminar de arrumar a casa, lembra? Pois bem… conversando com a Aurora ontem, ela se ofereceu para vir comigo. Disse que conhece um antiquário ótimo aqui no bairro. — O entusiasmo na voz da mãe era contagiante.
Helena sorriu. Havia tempo que não a via tão animada.
— Estava até me esquecendo! — disse Consuelo, entregando um pequeno pacote embrulhado em pano florido. — Seu padrinho mandou geleia, e eu trouxe torradas fresquinhas. Tenho certeza de que você tem tomado café puro nessas manhãs.
— Adivinhona! — brincou Helena, recebendo o presente. — E no que eu posso ajudar?
— Você, mocinha, vai pintar. — A mãe cruzou os braços, satisfeita. — Já sei que te convidaram pra uma exposição. Pra isso, precisa de quadros novos.
Helena arqueou a sobrancelha, rindo.
— Não é possível… a Lívia já te contou? Só falei isso pra ela ontem!
Aurora gargalhou.
— Aquela garota tem a língua mais rápida que o pensamento. Mas o coração dela é enorme.
Consuelo segurou as mãos da filha, os olhos marejando.
— Você não imagina o quanto estou feliz por te ver assim. Feliz e orgulhosa. Por te ver retomando a vida e seus sonhos.
Helena sentiu a garganta apertar, o sorriso tremendo nos lábios.
— Obrigada, mãe.
As três ficaram algum tempo ali, conversando entre risadas, comendo torradas e passando geleia enquanto o cheiro de café ainda preenchia o ar. Depois, Consuelo e Aurora praticamente expulsaram Helena e Mabe para o quintal, carregando o cavalete e os pincéis.
— Vai, menina, o dia tá lindo! — disse a mãe, abrindo a porta pra ela como quem abria uma nova chance.
Helena se virou, rindo, e foi.
Sentou-se sob a sombra suave do angico, ainda ouvindo, ao longe, o som das vozes e risadas das duas mulheres dentro de casa. O vento fazia o echarpe balançar de leve sobre os ombros.
Apoiou uma tela grande em branco no cavalete. Mordeu a ponta do pincel, pensativa. Por um instante, apenas olhou — o quintal, a luz atravessando as folhas, a cadela deitada perto dela. Então sorriu. Pegou o godê, espalhou tintas com movimentos delicados e começou a pintar.
...............
Santiago mantinha o olhar sobre ela.
Havia algo de sagrado naquele instante — a forma como ela inclinava o rosto, o modo como a luz da manhã acariciava o contorno de seu pescoço e fazia brilhar os fios soltos do cabelo. Era um quadro vivo. E ele se deu conta de que nunca tinha visto beleza tão pura… tão desarmada.
Um som atrás dele o fez despertar.


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