Helena continuava diante da tela, o pincel firme, o olhar concentrado.
O som da porta da frente se abrindo e fechando várias vezes já era um eco distante; até o vento parecia conter a respiração.
Mabe estava deitada ao lado, o focinho apoiado sobre as patas, observando-a em silêncio — como se também compreendesse o que nascia ali.
A primeira forma surgiu devagar, como se Helena a arrancasse de dentro de si.
Tons azulados dominavam o fundo — não o azul sereno do céu, mas o frio e profundo da água.
No centro, começava a se formar o contorno de uma mulher.
Indefinida.
O rosto ainda oculto, como se emergisse de um outro mundo.
Helena mergulhou o pincel em um tom prateado e o deslizou sobre a tela, fazendo a luz nascer em pinceladas marcadas propositalmente.
A figura ascendia — depois de muito tempo submersa, rompia a superfície e respirava.
Cada pincelada era um fôlego novo.
Um recomeço.
A tradução exata da mulher que, por tanto tempo, tentara não se afogar dentro de um amor que a mantinha presa ao fundo.
O pincel se deteve.
Helena olhou o quadro e sentiu algo vibrar no peito.
A mulher ainda não tinha rosto — talvez nunca tivesse.
Ou talvez tivesse tantos rostos que seria impossível escolher apenas um.
Ela suspirou, afastando um fio de cabelo do rosto.
— Helena! — gritou Aurora da cozinha. — Venha comer alguma coisa, menina. Saco vazio não para em pé.
— E nem pinta! — completou Consuelo, rindo.
Helena sorriu, limpando o pincel num pano manchado antes de deixá-lo de molho.
— Está com fome, garota? — perguntou a Mabe.
A pastora latiu animada, abanando o rabo, e Helena riu.
— Então vamos.
Na cozinha, o cheiro de tempero fresco a envolveu. Consuelo estava empolgada, abrindo sacolas e embalagens metálicas sobre o balcão.
— Hoje eu não cozinhei pra você — disse, gesticulando com as mãos. — Mas a Aurora garantiu que a comida da cantina da rua de baixo é divina. Então comprei para experimentarmos.
Helena riu ao ver as embalagens abertas e os pratos sobre a mesa.
Mas o que mais chamou sua atenção foram as caixas empilhadas pela sala — de todos os tamanhos, algumas ainda lacradas, outras meio abertas, revelando peças de madeira, vasos, tecidos e objetos antigos.
— Ei… — disse, olhando em volta, surpresa. — Há quanto tempo estou pintando? E de onde vocês tiraram tudo isso tão rápido?
Helena olhou para seu antigo relógio e se assustou ao perceber que já eram quase 14h00.
Consuelo e Aurora se entreolharam, cúmplices.
— Ah, você se desligou do mundo, menina! — respondeu a mãe, com aquele brilho travesso nos olhos. — A gente aproveitou pra visitar algumas lojas e o antiquário do bairro. Quase me perdi lá dentro.
Aurora, rindo, completou:
— E ela queria comprar o antiquário inteiro. Tive que arrastar sua mãe de lá antes que colocasse as prateleiras no carro.
Helena gargalhou, levando as mãos ao rosto. — Eu devia ter ido com vocês.
— Ainda bem que não foi — retrucou Consuelo, fingindo ofensa. — Assim a gente pôde encher a casa de surpresas. E olha só esse aparador! — apontou para uma peça de madeira pintada de amarelo, com puxadores em bronze envelhecido. — Perfeito pra guardar seus materiais de pintura na sala.
Helena se aproximou, tocando o móvel. O cheiro da madeira antiga misturava-se ao perfume de comida.
Aurora observava a cena, sorrindo. — Essa casa já está diferente, sabia? Antes parecia só um abrigo. Agora tem alma.
Helena a olhou, emocionada. — Talvez esteja ganhando a minha.
Sentaram-se à mesa, diante de uma grande forma descartável de espaguete com molho rústico de tomates e um pote generoso de queijo ralado ao centro. O cheiro encheu a cozinha com aquele aroma caseiro que mistura simplicidade e conforto.
O estômago de Helena roncou alto, arrancando risadas das duas mulheres.
Ela sorriu, e — sem querer — pensou em Santiago.
— Eu estou apaixonada por este lugar — comentou Consuelo, servindo-se de massa. — Seria bom termos um cantinho aqui também… assim poderíamos vir e ficar pertinho de você.
Helena riu, pegando o garfo.
— Vocês podem vir quando quiserem, mãe. Fiquem aqui comigo, a casa tem espaço de sobra.
— Não, minha querida. — A mãe fez um gesto leve, quase teatral. — Você precisa da sua privacidade.
Pausa.
— Quem sabe até arrumar um namorado… mas um cara bom de verdade.
Helena sentiu o rosto aquecer. O garfo parou no ar.
Será que já podia contar a ela sobre Santiago? Ou seria cedo demais — até pra ela mesma admitir o que sentia?
Afinal, acabaram de se reencontrar e ainda não haviam definido o que tinham.
Sorriu, disfarçando.
— Você poderia procurar uma casa pra nós, Aurora? — perguntou Consuelo, mudando de assunto.
Aurora limpou a boca com o guardanapo e respondeu:
— Não sei se ainda há casas disponíveis no bairro, mas vou me informar. O sobrado ao lado estava à venda, mas foi comprado recentemente. Nem sei como o antigo dono conseguiu negociar — está precisando de muito, mas muito reparo mesmo.
O comentário despertou a curiosidade de Helena.
— E quem o comprou?
Pedro, que estava no sofá, com o notebook no colo, levantou-se em silêncio.
— Pode deixar comigo. — disse, já guardando o aparelho.
Marcelo se afastou da janela e o observou sair pela porta dos fundos, discreto, como uma sombra.
................
Na rua, Helena ajustou o fone no ouvido e puxou levemente a guia.
— Vamos, Mabe.
A pastora caminhava animada, o rabo erguido, o focinho farejando o ar. Quando passaram em frente ao sobrado vizinho, Mabe parou de repente. Ficou imóvel, as orelhas em pé, o nariz captando algo invisível.
— Ei, garota… o que foi? — Helena se agachou, tocando-lhe o pescoço. — Vamos!
A cadela a olhou por um instante, os olhos atentos e expressivos, antes de ceder e continuar a caminhada.
Seguiram pela trilha do final do bairro, que se abria entre árvores altas. O parque estava mais movimentado do que no outro dia — famílias, corredores, bicicletas, crianças correndo com balões nas mãos.
Mabe, eufórica, começou a acelerar o passo, puxando Helena pela guia.
— Calma, moça… — riu Helena, tentando acompanhá-la. — Você está com pressa de ir pra onde?
Mas acabou cedendo, e as duas correram juntas. Por um instante, o riso de Helena se misturou ao latido da cadela e ao rumor da tarde — leve, vivo, libertador.
Quando finalmente pararam à beira do lago, Helena se apoiou nos joelhos, ofegante, rindo entre o cansaço e a alegria. Mabe sentou-se ao lado, a língua para fora, olhando-a com aquele ar de quem julga e protege ao mesmo tempo.
— Ei, nada de me julgar. — brincou Helena. — Eu tô enferrujada.
A cadela latiu uma vez, como se confirmasse.
Algumas pessoas por perto começaram a observá-las. Helena achou que fosse por causa de Mabe — uma pastora-alemã tão bonita e bem treinada chamava atenção por onde passava.
Mas não era só isso.
Ela havia esquecido que seu rosto estava estampado em portais de notícias, jornais e redes sociais.
A heroína do lago.
A mulher que expôs corajosamente os abusos do ex-marido.
E aquele era o primeiro dia que saía de casa desde o evento.
Enquanto sorria, distraída, sem desconfiar do burburinho crescente ao redor, algumas pessoas começaram a se aproximar, celulares nas mãos.
Sussurros, sorrisos de admiração, olhares.
Helena franziu o cenho, incerta.
— O que foi? — murmurou, mais para si do que para elas.
Mas já era tarde.
O anonimato, que até ali fora seu abrigo, começava a se desfazer como tinta diluída na água.

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