“Algumas cores continuam a brilhar mesmo quando o pintor abandona o quadro.” Autor desconhecido
Assim que o almoço terminou, Cássio se levantou com a urgência de quem precisa escapar — ou talvez apenas respirar longe de tudo aquilo.
Olhou para o Rolex no pulso, um gesto automático, e disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça:
— Eu preciso voltar.
Silvia levantou-se quase no mesmo instante, ajeitando o vestido.
— Eu vou com você. Quem sabe posso ajudar em alguma coisa.
Ele parou por um breve segundo, antes de responder com uma calma cortante:
— É melhor não. Você não entende de design… e, sinceramente, seria mais uma distração do que uma ajuda.
O sorriso dela não se desfez, mas o brilho nos olhos mudou.
— Você tem razão — respondeu, doce e controlada.
Mas, por dentro, o ressentimento se transformava em chama. Cada migalha de frieza que recebia dele era mais um galão de combustível sobre o rancor que ela cultivava em silêncio.
Helena já era carta fora do baralho, então o que ainda o detinha?
Cássio pegou a chave do carro e saiu apressado, o nó da gravata apertando-lhe o pescoço como se fosse uma corda. O ar dentro do veículo parecia mais leve, mas o alívio durou pouco.
No fundo, sabia que não estava fugindo dela — estava fugindo de tudo que plantou e agora estava colhendo.
Chegou à empresa em tempo recorde. O silêncio do prédio vazio ecoava, apenas o zumbido distante dos aparelhos ligados preenchendo o espaço.
No escritório, jogou o paletó sobre a poltrona e sentou-se à mesa.
O vídeo ainda girava na cabeça como uma fita presa.
Ligou o MacBook e ficou alguns segundos imóvel, o cursor piscando na barra de pesquisa como um convite. Digitou: “Mulher salva criança no parque.”
Em menos de um segundo, dezenas de links preencheram a tela.
Clicou no primeiro. O vídeo começou sem som.
Helena corria. O sol atravessava as árvores, o reflexo da água tremulava ao fundo. A cena se repetiu diversas vezes.
O punho se fechou sobre a mesa — não de raiva, mas de algo mais profundo — talvez... saudade?
Saudade dela ou de quem ele ainda era quando a conheceu.
Fechou o vídeo, mas as imagens permaneceram queimando em sua mente.
Tentou voltar ao trabalho — revisar esboços, responder e-mails, analisar planilhas — mas o olhar voltava sempre à tela.
Até que, sem perceber, abriu uma aba anônima.
Hesitou por um instante, os dedos pairando sobre o teclado.
Depois, digitou o endereço que há muito tempo prometera nunca mais acessar.
Uma sequência longa, quase indecifrável — o tipo de link que não aparecia em buscadores, que se espalhava por mensagens criptografadas e cantos esquecidos da internet. A dark web.
Cássio respirou fundo.
Sabia o que estava fazendo.
Sabia o risco que corria.
Mas a necessidade de encontrá-la falava mais alto do que a prudência.
Já ouvira jornalistas e investigadores mencionarem fóruns subterrâneos usados para rastrear pessoas, expor segredos e vender informações. E agora ele estava ali, mergulhando naquele mesmo labirinto digital.
A tela piscou. Um site tosco, de fundo preto e linhas em cinza, se abriu diante dele — um fórum anônimo sem logotipo, sem regras, sem rosto.
Apenas um campo de busca.
Ele engoliu seco e digitou o que o coração mandou:
“Helena Duarte.”
As letras apareceram devagar, como se cada uma custasse um pedaço de coragem. Apertou Enter.
Por alguns segundos, nada aconteceu.
Depois, uma lista de resultados apareceu — fragmentos de conversas, links quebrados, manchetes antigas misturadas a postagens recentes.
Mas um título em especial chamou sua atenção, destacado em vermelho como uma cicatriz no escuro:
[Fórum – Pessoas Desaparecidas / Região Sudeste] “Mulher do Lago — Identificação Confirmada?”
Cássio sentiu o peito apertar.
Moveu o cursor e clicou.
A página se abriu lentamente, revelando uma sequência de mensagens anônimas.
Comentários curtos. Códigos. Horários.
Outros falavam em “localização cruzada”, “registros de câmeras de segurança”, “última movimentação conhecida”.Fotos de Helena, uma do evento ao lado de outra dela no parque, ampliada e pixelada.
As mãos dele começaram a suar.
Não sabia quem eram aquelas pessoas — jornalistas, curiosos, caçadores de manchetes...
Mas todas falavam dela.
User_19K: “Confirmado. Mesmo rosto do evento Cassiani.”
Watcher45: “Fontes dizem que está naquele bairro antigo, próximo ao parque.”
Cássio ficou paralisado por um instante.
Sem pensar, clicou no campo de resposta.
Os dedos tremiam, mas ele digitou:
C35: “Alguém tem a localização atual dela?”


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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quadros de um divórcio