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Quadros de um divórcio romance Capítulo 67

“Toda pincelada que sobrevive ao caos torna-se traço de força — é na desordem que o artista encontra a própria essência.”

Pedro observava de longe, à sombra de uma amendoeira.

Usava um boné surrado e óculos escuros que o deixavam com o ar de mais um frequentador qualquer do parque. O celular vibrava discretamente em sua mão — ele já o segurava antes mesmo da tela acender.

Santiago: “Está tudo bem?”

A mesma mensagem, pela terceira vez.

Pedro respirou fundo antes de digitar.

Pedro: “Acho que ela foi reconhecida. Ainda não tenho certeza, mas alguns começaram a filmar.”

Segundos depois, a resposta.

Santiago: “Estão se aproximando?”

Estreitou os olhos, observando a distância.

Pedro: “Ainda não. Mas o movimento está aumentando. Estou de olho.”

Ela, alheia a tudo, atirava pedrinhas no lago, rindo de Mabe que parecia tentada a pular na água para pegá-las. A cena era serena demais — e justamente por isso, perigosa.

Pedro respirou fundo.

O som do vento nas árvores abafava o murmúrio da multidão. Alguns minutos depois sentiu que algo ali havia mudado — o ar parecia mais denso, mais atento.

Então o viu, um pouco adiante, sentado num banco de madeira próximo à ponte de ferro. Pedro reconheceu o rosto que não esperava ver ali. Cássio.

Endireitou a postura, o coração acelerando.

Tirou o celular do bolso e digitou com os polegares, rápido, mas discreto.

PEDRO: “Santiago, temos um problema. Ele está aqui.”

Alguns segundos depois, o aparelho vibrou.

SANTIAGO: “Quem?”

Pedro olhou de novo em direção ao banco.

PEDRO: “Cássio. Está observando-a. Sozinho, até onde eu vi.”

Outra pausa.

O som ambiente do parque — risadas, passos, o coaxar distante dos patos — parecia amortecer o peso da conversa.

SANTIAGO: “Tem certeza?”

Pedro ampliou a lente do celular fingindo fotografar o lago. A imagem capturou o perfil nítido do homem: apenas de camisa, o cabelo desalinhado, o olhar fixo no outro lado da margem.

PEDRO: “Certeza. Ele não tira os olhos dela.”

O sangue de Santiago gelou.

Levantou-se tão bruscamente que a cadeira arrastou pelo chão, rangendo.

SANTIAGO: “Estou indo.”

Pedro assentiu instintivamente, mesmo sabendo que Santiago não o via. Guardou o celular e continuou observando.

...............

No sobrado, Santiago já pegava um boné deixado sobre a mesa de ferro. Marcelo olhou o rosto do amigo e soube imediatamente que algo estava prestes a desandar.

— Santiago, calma. — Levantou-se também. — Se o Pedro está lá, ele vai cuidar.

Santiago pegou o celular, lendo a última mensagem de novo, como se o texto pudesse mudar.

— Ele não devia estar perto dela… não devia nem saber onde ela está! — disse, os olhos faiscando. — Como ele a encontrou?

— Isso a gente vai descobrir depois — respondeu Marcelo, mantendo a voz firme, tentando conter a escalada. — Agora você precisa pensar com a cabeça. Se for pra lá, vai chamar a atenção dela para o que estamos fazendo aqui.

Santiago já caminhava para porta, ignorando o argumento.

— Eu não vou ficar sentado enquanto ele se aproxima dela.

— Pedro pode controlar a situação! — insistiu Marcelo, bloqueando a passagem. — É o trabalho dele!

Santiago o encarou.

— Eu preciso ir. — disse baixo, com uma convicção que não pedia permissão.

Marcelo continuou tentando convencê-lo, mas ele já passava pela porta, o coração acelerado demais para ouvir qualquer razão. Cada passo era uma batida surda de urgência — a mistura perigosa de medo e amor que faz o sangue esquecer da lógica.

No caminho, a voz de Marcelo ainda ecoava atrás dele:

— Santiago, pensa! Você vai explodir a cobertura!

Mas ele não respondeu.

Se pôs a correr, desesperado, em direção ao parque.

...............

A voz de Cássio rasgou a bolha de paz que envolvia Helena. Ela recuou um passo, as costas já procurando distância.

— O que você faz aqui? — saiu seco, o corpo em alerta. Mabe, percebendo a tensão dela, rosnou baixo e se pôs em postura de guarda, as orelhas em pé.

Cássio vacilou, a voz trêmula quando falou de novo.

— Helena… por favor. Eu só quero conversar.

Ela sacudiu a cabeça com veemência.

— Nós não temos nada para conversar.

Ele avançou mais um passo, implorando:

— Por favor. Você não sabe o quanto fiquei desesperado sem saber onde você estava.

O primeiro flash veio como um raio. Depois outro. E outro. Em segundos, o parque inteiro parecia um mar de telas erguidas — celulares captando cada gesto, cada expressão, cada palavra.

O nome “Helena Duarte” começou a ser sussurrado como um eco que se espalhava rápido demais.

— É ela mesmo! — gritou alguém.

— A mulher do lago! — confirmou outro, já filmando.

Helena recuou mais. O barulho dos cliques e o zunido da atenção cresceram como um enxame. Mabe latiu alto, tentando afastar a aproximação da multidão; Helena agarrou a guia com a mão tão forte que os nós no pulso se marcaram.

— É o ex-marido dela! — alguém gritou.

— Meu Deus, é o Cássio Amaral!

O nome dele explodiu entre as vozes curiosas.

Cássio olhou em volta, o pânico tomando forma no rosto. Não era o reencontro que imaginara; era um circo.

Tentou recuperar alguma compostura.

— Por favor, venha comigo. Podemos conversar num lugar mais calmo.

Capítulo 67 - Rasgo na superfície 1

Capítulo 67 - Rasgo na superfície 2

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