“Toda pincelada que sobrevive ao caos torna-se traço de força — é na desordem que o artista encontra a própria essência.”
Pedro observava de longe, à sombra de uma amendoeira.
Usava um boné surrado e óculos escuros que o deixavam com o ar de mais um frequentador qualquer do parque. O celular vibrava discretamente em sua mão — ele já o segurava antes mesmo da tela acender.
Santiago: “Está tudo bem?”
A mesma mensagem, pela terceira vez.
Pedro respirou fundo antes de digitar.
Pedro: “Acho que ela foi reconhecida. Ainda não tenho certeza, mas alguns começaram a filmar.”
Segundos depois, a resposta.
Santiago: “Estão se aproximando?”
Estreitou os olhos, observando a distância.
Pedro: “Ainda não. Mas o movimento está aumentando. Estou de olho.”
Ela, alheia a tudo, atirava pedrinhas no lago, rindo de Mabe que parecia tentada a pular na água para pegá-las. A cena era serena demais — e justamente por isso, perigosa.
Pedro respirou fundo.
O som do vento nas árvores abafava o murmúrio da multidão. Alguns minutos depois sentiu que algo ali havia mudado — o ar parecia mais denso, mais atento.
Então o viu, um pouco adiante, sentado num banco de madeira próximo à ponte de ferro. Pedro reconheceu o rosto que não esperava ver ali. Cássio.
Endireitou a postura, o coração acelerando.
Tirou o celular do bolso e digitou com os polegares, rápido, mas discreto.
PEDRO: “Santiago, temos um problema. Ele está aqui.”
Alguns segundos depois, o aparelho vibrou.
SANTIAGO: “Quem?”
Pedro olhou de novo em direção ao banco.
PEDRO: “Cássio. Está observando-a. Sozinho, até onde eu vi.”
Outra pausa.
O som ambiente do parque — risadas, passos, o coaxar distante dos patos — parecia amortecer o peso da conversa.
SANTIAGO: “Tem certeza?”
Pedro ampliou a lente do celular fingindo fotografar o lago. A imagem capturou o perfil nítido do homem: apenas de camisa, o cabelo desalinhado, o olhar fixo no outro lado da margem.
PEDRO: “Certeza. Ele não tira os olhos dela.”
O sangue de Santiago gelou.
Levantou-se tão bruscamente que a cadeira arrastou pelo chão, rangendo.
SANTIAGO: “Estou indo.”
Pedro assentiu instintivamente, mesmo sabendo que Santiago não o via. Guardou o celular e continuou observando.
...............
No sobrado, Santiago já pegava um boné deixado sobre a mesa de ferro. Marcelo olhou o rosto do amigo e soube imediatamente que algo estava prestes a desandar.
— Santiago, calma. — Levantou-se também. — Se o Pedro está lá, ele vai cuidar.
Santiago pegou o celular, lendo a última mensagem de novo, como se o texto pudesse mudar.
— Ele não devia estar perto dela… não devia nem saber onde ela está! — disse, os olhos faiscando. — Como ele a encontrou?
— Isso a gente vai descobrir depois — respondeu Marcelo, mantendo a voz firme, tentando conter a escalada. — Agora você precisa pensar com a cabeça. Se for pra lá, vai chamar a atenção dela para o que estamos fazendo aqui.
Santiago já caminhava para porta, ignorando o argumento.
— Eu não vou ficar sentado enquanto ele se aproxima dela.
— Pedro pode controlar a situação! — insistiu Marcelo, bloqueando a passagem. — É o trabalho dele!
Santiago o encarou.
— Eu preciso ir. — disse baixo, com uma convicção que não pedia permissão.
Marcelo continuou tentando convencê-lo, mas ele já passava pela porta, o coração acelerado demais para ouvir qualquer razão. Cada passo era uma batida surda de urgência — a mistura perigosa de medo e amor que faz o sangue esquecer da lógica.
No caminho, a voz de Marcelo ainda ecoava atrás dele:
— Santiago, pensa! Você vai explodir a cobertura!
Mas ele não respondeu.
Se pôs a correr, desesperado, em direção ao parque.
...............
A voz de Cássio rasgou a bolha de paz que envolvia Helena. Ela recuou um passo, as costas já procurando distância.
— O que você faz aqui? — saiu seco, o corpo em alerta. Mabe, percebendo a tensão dela, rosnou baixo e se pôs em postura de guarda, as orelhas em pé.
Cássio vacilou, a voz trêmula quando falou de novo.
— Helena… por favor. Eu só quero conversar.
Ela sacudiu a cabeça com veemência.
— Nós não temos nada para conversar.
Ele avançou mais um passo, implorando:
— Por favor. Você não sabe o quanto fiquei desesperado sem saber onde você estava.
O primeiro flash veio como um raio. Depois outro. E outro. Em segundos, o parque inteiro parecia um mar de telas erguidas — celulares captando cada gesto, cada expressão, cada palavra.
O nome “Helena Duarte” começou a ser sussurrado como um eco que se espalhava rápido demais.
— É ela mesmo! — gritou alguém.
— A mulher do lago! — confirmou outro, já filmando.
Helena recuou mais. O barulho dos cliques e o zunido da atenção cresceram como um enxame. Mabe latiu alto, tentando afastar a aproximação da multidão; Helena agarrou a guia com a mão tão forte que os nós no pulso se marcaram.
— É o ex-marido dela! — alguém gritou.
— Meu Deus, é o Cássio Amaral!
O nome dele explodiu entre as vozes curiosas.
Cássio olhou em volta, o pânico tomando forma no rosto. Não era o reencontro que imaginara; era um circo.
Tentou recuperar alguma compostura.
— Por favor, venha comigo. Podemos conversar num lugar mais calmo.


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