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Quadros de um divórcio romance Capítulo 68

“A escuridão não chega de repente. Ela se acumula, camada por camada, até que nada mais seja visível.”

Cássio dirigia como quem despenca em uma montanha-russa sem freios.

As ruas passavam em borrões disformes, os semáforos se misturavam a fachadas e reflexos, e o som do motor era o único fio que o prendia à realidade. Quando se deu conta, uma fileira de carros parados surgiu diante dele. Pisou no freio com força — os pneus gritaram contra o asfalto. O carro parou a centímetros do para-choque à frente.

Arfou, o coração em desordem, as mãos suadas coladas ao volante.

Por um instante, olhou ao redor sem reconhecer o próprio trajeto.

Havia se desligado de si — não sabia por quanto tempo, nem para onde o instinto o guiara. Só sabia de que não perderia Helena. Ela não podia simplesmente sair de sua vida como se ele não significasse mais nada.

Pegou o celular com mãos trêmulas e procurou um nome na lista de contatos, Gustavo Riviera, advogado e chefe do setor jurídico da empresa. E, mais do que isso, alguém que devia obediência a ele.

Tocou a tela. O som de chamada ecoou pelo alto-falante.

— Cássio? — a voz veio alerta. — Aconteceu alguma coisa?

— O que é preciso para pedir a anulação de um divórcio? — perguntou direto, sem rodeios.

Houve uma pausa curta do outro lado da linha.

Riviera respirou fundo antes de responder.

— Bem... até onde eu sei, a anulação de um divórcio não é possível após a finalização.

Cássio apertou o volante com tanta força que parecia deformar o material emborrachado.

— Mas eu não sabia o que estava assinando. — A voz dele saiu tensa, cortante. — Não é possível que nada possa ser feito pra consertar isso.

— Nesse caso pode existir uma brecha... — murmurou Riviera, buscando as palavras certas. — Em tese, poderíamos alegar vício de consentimento, caso você tenha sido coagido ou enganado ao assinar. Mas... — fez uma pausa desconfortável. — Diante da situação atual, não acredito que haja provas sólidas o bastante.

O semáforo abriu. Cássio colocou o carro em movimento, o olhar fixo na linha do horizonte.

— Situação atual? — perguntou com desconfiança.

— Eu me refiro à senhorita Silvia — respondeu o advogado, cauteloso. — O relacionamento de vocês foi exposto. E... bem, a gravidez dela não ajuda.

O nome dela pareceu cortar o ar dentro do carro.

Silvia. A lembrança do rosto dela — e do caos que vinha junto — ferveu em sua mente.

— Eu posso negar — disse, convicto. — Posso negar tudo.

— E o vídeo de vocês? — questionou Riviera. — Aquele em que aparecem se beijando no bar do hotel? Não há como negar isso.

— Eu posso dizer que estava bêbado, que não sabia o que estava fazendo.

O advogado fez silêncio, cético.

— E você acredita que a senhorita Silvia aceitaria sustentar essa versão?

— Claro que sim! — respondeu rápido demais, quase como um reflexo.

Do outro lado da linha, o silêncio se alongou. Riviera pensava o que não ousava dizer. Sabia que nenhuma mulher — muito menos Silvia, com o orgulho que exalava por cada poro — aceitaria tamanho constrangimento. Mas preferiu não contrariar o chefe.

— E como provaríamos que você foi enganado a assinar? — perguntou, enfim.

Cássio respirou fundo.

A lembrança do dia em que Helena surgiu em seu escritório o golpeou como um flash. Ela parada à porta, ele com Silvia em seu colo. O silêncio cortante. A vergonha travestida de arrogância. E depois... o som seco do tapa que deu nela.

Fechou os olhos por um instante, o gosto amargo da memória na boca. Quando falou novamente, a voz já vinha mais controlada.

— Tem a gravação do escritório. — disse. — Pode servir?

— Talvez... — respondeu Riviera, medindo o tom. — Depende do que aparece.

— Então faça. — Ordenou.

A ligação se encerrou. Cássio permaneceu com o olhar fixo na estrada sem realmente enxergá-la. A aflição não passava — crescia. O peito ardia como se algo o empurrasse por dentro, um peso que nem o ar conseguia aliviar. Não sabia para onde ir, nem o que fazer. Por um instante, pensou em beber. Sentiu o gosto familiar da tentação, a promessa de entorpecer o caos. Mas não podia. Não agora. Havia coisas demais em jogo — e ele precisava estar sóbrio.

A cidade seguia em ritmo acelerado, carros cruzando as avenidas, buzinas, faróis piscando — e ele, no meio de tudo, se sentia um passageiro dentro da própria vida.

Girou o volante com força e mudou a rota.

Renato. Ele sempre o ouvia, mesmo quando ninguém mais o fazia.

No fundo, sabia que o amigo seria a única pessoa capaz de compreender o tamanho do buraco em que estava se afundando — ou ao menos, fingir que compreendia.

...............

Silvia continuava na casa dos Amaral. Mesmo sem conseguir se aproximar de Cássio como antes, sabia que aquelas duas mulheres — a mãe e a irmã dele — poderiam ser aliadas valiosas. E, naquele momento, jogava o jogo com perfeição.

Sentadas no sofá, conversavam sobre roupinhas de bebê, enxovais, papéis de parede e possíveis nomes. Silvia sorria, parecendo confortável, até o celular vibrar.

O som fez o corpo dela enrijecer por um segundo — pequeno, mas perceptível. Pegou o aparelho, tentando manter a naturalidade, e o nome que surgiu na tela fez o sangue gelar. Dante.

Uma vertigem breve a fez perder o chão. Ele raramente ligava e quando o fazia, nunca era por bons motivos.

— Me desculpem, é coisa do trabalho. — disse com um sorriso leve, levantando-se.

Caminhou até o pequeno quintal lateral, onde o ar fresco parecia não chegar. As mãos tremiam levemente enquanto atendia.

— Alô? — A voz saiu mais baixa do que queria, e carregada daquela insegurança que sempre sentia ao falar com ele.

A resposta veio com o tom frio e calculado de quem já começava irritado.

— Silvia, Silvia, Silvia... — ele disse, pausadamente, saboreando cada sílaba como uma ameaça. — Eu realmente pensei que você estava no controle da situação.

Ela tentou soar firme.

— Mas eu estou. Está tudo correndo bem. Uma grande parte da mercadoria já foi despachada de madrugada, e hoje...

— Não estou falando da mercadoria. — Dante a interrompeu, a voz cortante.

Silêncio.

Silvia engoliu seco. O estômago pareceu girar dentro dela.

— Você não me disse que Cássio estava comendo na sua mão? — continuou ele, num tom irônico.

— E... e está. — respondeu, gaguejando.

Capítulo 68 - Pigmentos sombrios 1

Capítulo 68 - Pigmentos sombrios 2

Capítulo 68 - Pigmentos sombrios 3

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