“A escuridão não chega de repente. Ela se acumula, camada por camada, até que nada mais seja visível.”
Cássio dirigia como quem despenca em uma montanha-russa sem freios.
As ruas passavam em borrões disformes, os semáforos se misturavam a fachadas e reflexos, e o som do motor era o único fio que o prendia à realidade. Quando se deu conta, uma fileira de carros parados surgiu diante dele. Pisou no freio com força — os pneus gritaram contra o asfalto. O carro parou a centímetros do para-choque à frente.
Arfou, o coração em desordem, as mãos suadas coladas ao volante.
Por um instante, olhou ao redor sem reconhecer o próprio trajeto.
Havia se desligado de si — não sabia por quanto tempo, nem para onde o instinto o guiara. Só sabia de que não perderia Helena. Ela não podia simplesmente sair de sua vida como se ele não significasse mais nada.
Pegou o celular com mãos trêmulas e procurou um nome na lista de contatos, Gustavo Riviera, advogado e chefe do setor jurídico da empresa. E, mais do que isso, alguém que devia obediência a ele.
Tocou a tela. O som de chamada ecoou pelo alto-falante.
— Cássio? — a voz veio alerta. — Aconteceu alguma coisa?
— O que é preciso para pedir a anulação de um divórcio? — perguntou direto, sem rodeios.
Houve uma pausa curta do outro lado da linha.
Riviera respirou fundo antes de responder.
— Bem... até onde eu sei, a anulação de um divórcio não é possível após a finalização.
Cássio apertou o volante com tanta força que parecia deformar o material emborrachado.
— Mas eu não sabia o que estava assinando. — A voz dele saiu tensa, cortante. — Não é possível que nada possa ser feito pra consertar isso.
— Nesse caso pode existir uma brecha... — murmurou Riviera, buscando as palavras certas. — Em tese, poderíamos alegar vício de consentimento, caso você tenha sido coagido ou enganado ao assinar. Mas... — fez uma pausa desconfortável. — Diante da situação atual, não acredito que haja provas sólidas o bastante.
O semáforo abriu. Cássio colocou o carro em movimento, o olhar fixo na linha do horizonte.
— Situação atual? — perguntou com desconfiança.
— Eu me refiro à senhorita Silvia — respondeu o advogado, cauteloso. — O relacionamento de vocês foi exposto. E... bem, a gravidez dela não ajuda.
O nome dela pareceu cortar o ar dentro do carro.
Silvia. A lembrança do rosto dela — e do caos que vinha junto — ferveu em sua mente.
— Eu posso negar — disse, convicto. — Posso negar tudo.
— E o vídeo de vocês? — questionou Riviera. — Aquele em que aparecem se beijando no bar do hotel? Não há como negar isso.
— Eu posso dizer que estava bêbado, que não sabia o que estava fazendo.
O advogado fez silêncio, cético.
— E você acredita que a senhorita Silvia aceitaria sustentar essa versão?
— Claro que sim! — respondeu rápido demais, quase como um reflexo.
Do outro lado da linha, o silêncio se alongou. Riviera pensava o que não ousava dizer. Sabia que nenhuma mulher — muito menos Silvia, com o orgulho que exalava por cada poro — aceitaria tamanho constrangimento. Mas preferiu não contrariar o chefe.
— E como provaríamos que você foi enganado a assinar? — perguntou, enfim.
Cássio respirou fundo.
A lembrança do dia em que Helena surgiu em seu escritório o golpeou como um flash. Ela parada à porta, ele com Silvia em seu colo. O silêncio cortante. A vergonha travestida de arrogância. E depois... o som seco do tapa que deu nela.
Fechou os olhos por um instante, o gosto amargo da memória na boca. Quando falou novamente, a voz já vinha mais controlada.
— Tem a gravação do escritório. — disse. — Pode servir?
— Talvez... — respondeu Riviera, medindo o tom. — Depende do que aparece.
— Então faça. — Ordenou.
A ligação se encerrou. Cássio permaneceu com o olhar fixo na estrada sem realmente enxergá-la. A aflição não passava — crescia. O peito ardia como se algo o empurrasse por dentro, um peso que nem o ar conseguia aliviar. Não sabia para onde ir, nem o que fazer. Por um instante, pensou em beber. Sentiu o gosto familiar da tentação, a promessa de entorpecer o caos. Mas não podia. Não agora. Havia coisas demais em jogo — e ele precisava estar sóbrio.
A cidade seguia em ritmo acelerado, carros cruzando as avenidas, buzinas, faróis piscando — e ele, no meio de tudo, se sentia um passageiro dentro da própria vida.
Girou o volante com força e mudou a rota.
Renato. Ele sempre o ouvia, mesmo quando ninguém mais o fazia.
No fundo, sabia que o amigo seria a única pessoa capaz de compreender o tamanho do buraco em que estava se afundando — ou ao menos, fingir que compreendia.
...............
Silvia continuava na casa dos Amaral. Mesmo sem conseguir se aproximar de Cássio como antes, sabia que aquelas duas mulheres — a mãe e a irmã dele — poderiam ser aliadas valiosas. E, naquele momento, jogava o jogo com perfeição.
Sentadas no sofá, conversavam sobre roupinhas de bebê, enxovais, papéis de parede e possíveis nomes. Silvia sorria, parecendo confortável, até o celular vibrar.
O som fez o corpo dela enrijecer por um segundo — pequeno, mas perceptível. Pegou o aparelho, tentando manter a naturalidade, e o nome que surgiu na tela fez o sangue gelar. Dante.
Uma vertigem breve a fez perder o chão. Ele raramente ligava e quando o fazia, nunca era por bons motivos.
— Me desculpem, é coisa do trabalho. — disse com um sorriso leve, levantando-se.
Caminhou até o pequeno quintal lateral, onde o ar fresco parecia não chegar. As mãos tremiam levemente enquanto atendia.
— Alô? — A voz saiu mais baixa do que queria, e carregada daquela insegurança que sempre sentia ao falar com ele.
A resposta veio com o tom frio e calculado de quem já começava irritado.
— Silvia, Silvia, Silvia... — ele disse, pausadamente, saboreando cada sílaba como uma ameaça. — Eu realmente pensei que você estava no controle da situação.
Ela tentou soar firme.
— Mas eu estou. Está tudo correndo bem. Uma grande parte da mercadoria já foi despachada de madrugada, e hoje...
— Não estou falando da mercadoria. — Dante a interrompeu, a voz cortante.
Silêncio.
Silvia engoliu seco. O estômago pareceu girar dentro dela.
— Você não me disse que Cássio estava comendo na sua mão? — continuou ele, num tom irônico.
— E... e está. — respondeu, gaguejando.



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