Lívia se levantou da cadeira, esticando as costas com as mãos apoiadas na lombar, tentando aliviar a tensão de ficar tanto tempo sentada. Mantivera-se ocupada desde cedo atendendo a clientes sem nem mesmo parar para almoçar.
A mesa à sua frente estava coberta de pastas, contratos e canetas abertas — um retrato perfeito de quase um dia inteiro de trabalho.
Suspirou, caminhando até a janela. A vista verde agraciava-lhe — o extremo oposto do parque, em direção à casa de Helena. E foi o bastante para o nome dela atravessar-lhe o pensamento como uma brisa morna.
Helena.
Um sorriso pequeno e nostálgico se formou em seus lábios. Um aperto suave no peito acompanhou a lembrança. Devia muito àquela mulher.
Quando a conheceu, anos atrás, Lívia era apenas uma advogada júnior dividindo uma sala abafada com vários colegas em uma firma barulhenta.
Trabalhara como uma louca, movida por ambição e justiça em igual medida, mas o reconhecimento parecia sempre reservado aos homens — os “promissores”, os “de postura firme”.
Ela se esforçava, entregava mais do que pediam, mas seu nome nunca era lembrado nas promoções.
Uma noite, depois de um dia especialmente humilhante, ela e Helena se encontraram em um pub. Era difícil convencer a amiga a acompanha-la para aquele tipo de lugar, mas talvez, percebendo seu estado, naquele dia ela acabou aceitando.
Conversaram por horas. Lívia havia bebido mais do que o habitual e acabou desabafando — não buscando piedade, apenas um alívio. Falou demais. Quando se deu conta, já tinha contado à amiga sobre a sensação de ser invisível dentro da própria carreira.
Sorriu agora, lembrando-se da cena e de como Helena a escutara em silêncio, os olhos atentos, sem interromper uma única vez.
No dia seguinte, quando saía da firma, viu o carro de Helena estacionado na esquina. O vidro abaixou devagar, revelando o sorriso travesso de sempre.
— Entra aí, tamanduá. Tenho uma surpresa pra você.
Tamanduá. Helena sempre a chamava assim, zombando de seu hábito de falar demais. Lívia riu sozinha, revendo tudo na memória.
Naquele dia, Helena a levou pelas ruas da cidade, sem revelar nada. E quando o carro parou diante de um prédio comercial recém-construído, Lívia achou que fosse uma brincadeira.
— O que estamos fazendo aqui? — perguntou, confusa.
Helena apenas sorriu e apontou para o edifício.
— Aqui será o seu escritório.
Lívia arregalou os olhos.
— Você ficou louca? Eu não tenho como pagar por isso!
Helena deu de ombros, com aquela leveza insolente que sempre a acompanhava.
— Calma, tamanduá. Eu sei que você é orgulhosa demais pra aceitar um presente desses. Então… digamos que eu só dei a entrada. As prestações são suas.
As lágrimas vieram antes das palavras. Lívia mal conseguia respirar entre o susto e a emoção.
— Como eu vou te pagar isso, Helena? E não me venha com aquele papo de “não precisa”.
A amiga riu, encostando-se ao carro.
— Bem... já que você é uma advogada excelente, acho que podemos fazer um acordo. Você será minha advogada pra qualquer coisa que eu precisar na vida. Assim quem sai no lucro sou eu. _ E riu alto, satisfeita consigo mesma.
Lívia lembrou de cada detalhe, e o coração se encheu de calor. Anos depois, aquele acordo ainda valia — não no papel, mas na alma. Agora tinha um escritório próprio, uma equipe, uma carreira consolidada. Mas sabia, com toda a certeza do mundo, que nada daquilo teria acontecido se Helena não tivesse acreditado nela quando ninguém mais acreditou.
Olhando a cidade lá fora, entre luzes e janelas acesas, Lívia sorriu.
Ainda existiam pessoas boas no mundo. Pessoas que pintavam o cinza da vida com gestos tão generosos que pareciam luz.
E ela, diante daquela lembrança, sentiu sua fé se renovar — mesmo depois de tantos casos, tantas injustiças, tantos dias em que a alma quase endurecia.
Helena era a prova viva de que ainda valia a pena acreditar no que é bonito.
Lívia voltou à mesa e começou a guardar os papéis em pilhas organizadas. Os olhos já estavam cansados, o corpo pedia pausa, mas a mente teimosa ainda girava em torno de prazos e processos.
Pegou o celular para verificar o horário — e viu, no topo das notificações, uma manchete piscando em letras vermelhas.
“Empresário Cássio Amaral reencontra ex-esposa em parque público — tumulto e confusão.”
Por um instante, ela piscou, sem acreditar no que lia. O dedo tocou a tela quase por reflexo.
A transmissão ao vivo começou com o som confuso de vozes e flashes. Bastaram poucos segundos para reconhecer o rosto de Helena — pálida, confusa, cercada de gente — e o de Cássio, alterado, tentando se aproximar.
Lívia levou a mão à boca, os olhos marejando entre raiva e incredulidade.
— Meu Deus... Helena...
Nem pensou duas vezes. Jogou o blazer sobre os ombros, pegou a bolsa e saiu apressada, o salto dos sapatos ressoando pelo corredor chamando a atenção dos funcionários.
O trajeto até o bairro de Helena pareceu mais longo do que nunca. O vídeo ainda rodava na tela do celular, agora preso ao painel. A cada repetição, o estômago dela se apertava mais.
“O que Cássio tinha feito?”
“Como Helena fora parar naquela situação?”
Quando finalmente parou em frente à casa de Helena, algo chamou sua atenção.
No sobrado ao lado da casa, uma silhueta familiar estava parada junto à janela, observando a rua na direção do parque — Marcelo.
Por um segundo, achou que a mente lhe pregava uma peça.
Mas não podia estar enganada.
Marcelo estava ali. No mesmo sobrado onde, dias antes, ela havia visto aquele homem suspeito e extremamente delicioso entrar, o mesmo que vira no evento com porte observador.
Franziu o cenho, o pensamento se embaralhando.
Marcelo era o detetive particular que ela mesma contratara para ajudar Helena. O que ele e o outro homem estavam fazendo ali, exatamente ao lado da casa da amiga?
...............
Helena ainda puxava o ar com força, tentando desesperadamente encher os pulmões e esvaziar-se da frustração. Tudo que queria era sua liberdade e poder desfrutá-la em paz. Mas parecia que o mundo insistia em negá-la.
Santiago segurou o rosto dela com as duas mãos, o olhar percorrendo-lhe o corpo em busca de qualquer ferimento.


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