“A loucura, às vezes, é apenas a insistência em corrigir o que já foi concluído.” Nietzsche
Cássio seguia rumo ao Grupo Ferreira, o volante firme entre as mãos, o corpo rígido, o olhar fixo em nada. O telefone vibrava sem parar no banco ao lado — a cada segundo um nome diferente piscava na tela: mãe, irmã, pai.
Ele apenas estendeu a mão e desligou o aparelho. Não queria falar. Não queria ouvir cobranças, nem sermões, nem a velha ladainha sobre imagem, reputação e controle.
Controle. A palavra soava quase como uma ironia agora.
Algum tempo depois, o prédio surgiu à frente, impassível, com suas linhas retas e vidros refletindo o entardecer — sólido e frio, como se o mundo lá dentro seguisse indiferente ao caos que se desenrolava dentro dele.
Quando empurrou a porta do escritório de Renato, o amigo estava sentado à mesa, o celular na mão, o rosto indecifrável. O som do vídeo escapava do aparelho — as vozes do parque, os gritos, o nome dele repetido por curiosos. Cada eco era uma punhalada.
Renato ficou parado por um instante, observando o amigo. O homem à sua frente não era o mesmo Cássio que ele conhecia — o executivo impecável, calculista, dono de si. Este parecia menor, o olhar perdido, os ombros curvados sob um peso invisível.
Renato pausou o vídeo e o colocou o aparelho sobre a mesa.
— O que aconteceu com você, Cássio? — perguntou enfim, com voz contida, sem julgar, mas também sem suavizar. — Você tem ideia da proporção disso?
Cássio riu baixo, uma risada seca, quase sem ar.
— A proporção? — repetiu, sarcástico. — A proporção é que a minha vida virou um espetáculo público. — Passou as mãos pelo cabelo, descompassado. — E tudo porque ela… — hesitou, o nome preso na garganta. — Porque ela me tirou o chão, Renato.
Renato respirou fundo.
— Helena não te tirou nada, Cássio. Você é quem vem cavando esse buraco há anos.
A frase pareceu atravessá-lo.
Ele girou o rosto devagar, encarando o amigo.
— Você também vai me dar sermão agora?
— Alguém precisa. — respondeu, firme. — Porque o resto do mundo está te filmando enquanto você se destrói.
Cássio desviou o olhar, andando até a janela. A cidade refletia nos vidros — o trânsito, as luzes, o eco distante das buzinas. Tudo seguia. Ele, não.
— Eu só quero o que é meu. — Murmurou, quase para si mesmo. — Ela não pode simplesmente me apagar. Não depois de tudo que vivemos.
Renato o observou, com um misto de pena e receio.
— “O que é meu”? Cássio, você fala dela como se fosse uma propriedade. Isso… não é amor. É controle.
Cássio se virou, o olhar inflamado.
— Controle é o que eu perdi! — gritou, a voz reverberando nas paredes frias. — Eu construí tudo, Renato! A empresa, o nome, a vida que ela viveu comigo! E agora todo mundo me trata como um monstro porque eu quero minha esposa de volta?
Renato manteve-se firme.
— Ex-esposa.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Cássio o sustentou por um instante, depois desviou, andando de um lado a outro da sala.
— Eu falei com o Riviera. — disse, num tom seco. — Ele vai cuidar de tudo.
— Cuidar de quê? — perguntou Renato, embora já temesse a resposta.
— Da anulação desse divórcio. — Cássio parou diante da mesa, apoiando as mãos sobre o tampo de vidro. — Eu fui enganado quando assinei aqueles papéis, e vou provar isso.
Renato soltou um suspiro incrédulo.
— Cássio, isso é loucura.
— Loucura? — ele riu, o som oco. — Loucura é ela achar que pode sair por aí, se refazendo, enquanto o meu nome é jogado na lama! — O rosto ficou vermelho, os olhos marejados de raiva e humilhação. — Eu não vou deixar!
Renato se aproximou, a voz agora mais baixa, quase paternal.
— Você precisa parar. Agora. Antes que destrua o que ainda resta.
Mas o outro não ouvia. O olhar de Cássio estava longe, fixo num ponto que só ele enxergava.
— Eu vou resolver tudo. — murmurou, quase num transe. — Vou colocar as coisas de volta no lugar. Ela vai entender…
Renato suspirou, recuando um passo.
Sabia que, a partir dali, qualquer palavra seria inútil.
Cássio não queria conselhos. Queria justificativas.
O homem diante dele não era mais o amigo que conhecia, e sim uma sombra — uma mistura de orgulho ferido e desespero. E toda sombra, cedo ou tarde, busca algo para engolir.
Conversaram por mais de hora.
Cássio contou tudo ao amigo. Sem pausas, sem filtros — como se, finalmente, abrir a boca fosse uma forma de aliviar a pressão dentro do peito. Renato ouviu em silêncio, de braços cruzados, a expressão tensa de quem tenta acompanhar uma história que escorrega entre o racional e o absurdo.
Falou do almoço na casa dos pais, da insistência deles em forçar um casamento com Silvia, da encenação de uma vida perfeita que já não existia.
Contou sobre o vídeo de Helena pulando no lago para salvar uma criança — o que aquilo havia despertado nele. E depois, com uma frieza quase confessional, mencionou a busca por ela nos cantos obscuros da internet, admitindo que havia recorrido a fóruns e perfis apagados, tentando rastrear cada sombra, cada pista.
— Eu só queria entender... — disse, num fio de voz, encarando o chão. — Saber porque ela decidiu acabar com tudo.
Renato o observava, imóvel.
Não era mais o tom de um homem apaixonado, mas o de alguém tomado por uma necessidade compulsiva, e isso o assustava.
— E foi assim que acabou no parque? — perguntou, por fim, com calma ensaiada.
Cássio assentiu.
— Eu não planejei nada. — respondeu, a voz rouca. — Só... precisava vê-la. Não imaginei que tudo sairia do controle.
Ele passou a mão pelo cabelo, como quem tenta apagar o próprio gesto.
— Mas quando a vi... quando vi ela ali, rindo, como se o mundo estivesse em paz... — riu baixo, sem humor. — Eu não consegui ir embora.
Renato respirou fundo, pesando as palavras antes de falar.
— Você percebe o que está dizendo? — perguntou, pausado. — Isso não é “buscar entendimento”, Cássio. É perseguir.
O outro levantou o olhar, ferido pela palavra.
— Não fala assim. Você não entende o que é amar uma pessoa e vê-la ir embora da sua vida.
— Amar não é prender, Cássio. — respondeu o amigo, firme, mas com voz serena. — É saber ir embora quando o outro já foi.
Por um instante, o silêncio se instalou entre eles — denso, cortante.
Do lado de fora, o barulho da cidade parecia distante, irrelevante.
Foi então que Cássio riu outra vez, dessa vez amargo.
— Eu não sei mais como ir embora, Renato. Acho que... nem saberia quem eu sou, se ela não existisse.
Aos poucos, Cássio parecia recuperar o controle, mas não a coerência. Virou-se para a janela, encarando o próprio reflexo. O vidro lhe devolveu um homem diferente: os olhos vazios, a blusa amarrotada, o semblante de quem havia perdido o eixo. Por um segundo, pareceu se enxergar — de verdade. E odiou o que viu.
Renato quebrou o silêncio com voz calma, porém firme.
— Vá pra casa, Cássio. — disse, cruzando os braços. — Você precisa descansar um pouco.
O outro riu baixo, sem humor, o som seco.
— Descansar é um luxo que eu não posso me dar agora.
Virou-se, pegando o celular desligado sobre a mesa.
— Ainda preciso passar na empresa. Ver o andamento da coleção com a equipe criativa.
Renato ergueu uma sobrancelha, descrente.
— Depois de tudo o que aconteceu hoje?
A mãe trocou um olhar rápido com Silvia antes de responder.
— Estávamos apenas ajudando a Silvia a se instalar.
A frase caiu como uma pedrada. Ele piscou, sem acreditar no que ouvira.
— A se... instalar? — repetiu, a voz subindo um tom. — Aqui?
— Claro, querido. — respondeu a mãe, como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Ela está grávida. Precisa de apoio, de um lar estável... e você é o pai da criança, afinal.
Cássio riu, um riso nervoso, quase um soluço.
— Um lar estável? — repetiu, encarando as três com incredulidade. — Isso aqui é o quê então? Uma substituição oficial?
Silvia se levantou, o olhar duro, calculado.
— Ninguém está substituindo ninguém, Cássio. — disse com suavidade ensaiada. — Sua mãe só está tentando fazer o que é melhor para o bebê.
O bebê.
A palavra ecoou dentro dele como um soco.
Por um instante, pensou em Helena — e a imagem dela, no parque, o encarando com desprezo, voltou com força.
— Melhor pra quem, Silvia? — perguntou, a voz mais baixa agora, mas carregada de veneno. — Pra você? Pra minha mãe? Porque pra mim, isso aqui é um circo.
A mãe interveio, tentando manter o controle.
— Cássio, por favor. Já chega de escândalos. A imprensa já está falando demais sobre vocês. Essa situação toda com aquela mulher... — hesitou, evitando dizer o nome de Helena. — ...precisa acabar.
Ele se voltou para ela, o olhar faiscando.
— Aquela mulher? — repetiu, num tom que a fez recuar um passo. — Aquela mulher é a razão de vocês terem um nome pra defender!
Silêncio.
O ar pareceu rarefeito.
Silvia o observava com atenção, os olhos estreitados — não havia doçura ali, apenas cálculo disfarçado de ternura. Cada microexpressão dele era medida como um teste. Ela buscava o ponto exato onde o orgulho se quebrava e o homem voltava a ser manipulável.
— Talvez seja hora de você aceitar, Cássio. — disse por fim, com a voz mansa, o tom cuidadosamente calibrado. — Helena não vai voltar.
Fez uma pausa breve, o silêncio entre eles pesado o bastante para ser quase audível. Deu um passo à frente, a expressão se suavizando.
— Eu amo você, Cássio... — continuou, o olhar marejado, a voz trêmula na medida certa. — Vamos ter um filho juntos. Você não pode... — hesitou, mordendo o lábio inferior — usar isso pra recomeçar?
Por um instante, ele não respondeu.
Apenas ficou ali, observando-a — e o contraste entre o rosto sereno dela e o caos dentro dele. Havia algo estranho naquela cena, um desalinhamento sutil entre o que via e o que sentia.
Ela parecia frágil, quase etérea, e ainda assim… havia algo que o incomodava, um desconforto sem nome que não sabia de onde vinha. Talvez fosse culpa. Ou o pressentimento de que tudo aquilo era apenas uma nova forma de prisão.
Cássio respirou fundo, tentando dissipar o peso que crescia no peito. O ar entrou com dificuldade, o corpo inteiro pedindo pausa.
O quadro ainda estava em suas mãos, ele olhou para a imagem por um segundo, aquele mesmo olhar frio da mulher o queimou novamente fazendo tudo perder o sentido.
O cansaço tomou o lugar da raiva, a exaustão substituiu a lucidez.
E algo dentro dele simplesmente... cedeu.
Ele se virou, lentamente, a voz rouca, quase um murmúrio:
— Tudo bem... fique. Eu só preciso descansar um pouco.
E saiu da sala. As costas arqueadas pelo peso invisível de tudo o que perdeu.
Silvia permaneceu imóvel por um momento, as lágrimas ainda nos olhos — mas agora, frias. Limpou-as com um gesto rápido e prático, deixando o sorriso retornar, pequeno e satisfeito.
O primeiro passo estava dado.

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