Cássio chegou ao apartamento de Silvia com o peito ainda queimando de frustração. Nunca imaginou que Helena um dia tivesse a ousadia de confrontá-lo daquela forma, e muito menos de usar a amiga para fazer insinuações.
Ele sabia exatamente como seria.
Helena não suportava ficar sozinha — nunca suportou.
Quando brigavam, bastava desaparecer por alguns dias e deixá-la remoendo o vazio. No começo, ela fingia força, mas era só questão de tempo até o orgulho ceder. As ligações vinham em sequência, as mensagens cheias de arrependimento... e no fim, ela sempre cedia — mesmo quando ele era o único culpado.
Cássio sorriu com um canto da boca com o pensamento.
Silvia abriu a porta com aquele sorriso ensaiado. O corpo dela exalava feminilidade e confiança, a blusa de seda com os botões do colo abertos mostrando propositalmente as curvas do seio e a saia lápis marcando seus quadris. Ela sabia exatamente o efeito que tinha sobre ele.
Ele a ignorou por um momento, mas a proximidade já fazia o sangue acelerar. A raiva que sentia de Helena agora misturava-se com a excitação que a mulher a sua frente despertava nele.
— Eu só preciso... esquecer de tudo por algumas horas. — murmurou, a voz grave, cansada, o olhar já incendiado.
Ela deslizou a mão pelo peito dele, o toque leve, quase dolorosamente calculado.
— Eu sei, querido — disse, os lábios roçando a orelha dele — você está aqui agora, comigo.
Ele a puxou pela cintura com força, a outra mão firmando-lhe a nuca. O beijo veio carregado de urgência. O mundo ao redor pareceu se dissolver, restando apenas o som ofegante das respirações que se misturavam e o calor crescente entre os corpos. As mãos começando a explorar o corpo um do outro de uma forma faminta.
Cássio a conduziu até o sofá, sem romper o beijo. Quando os corpos tombaram juntos, Sílvia arqueou a cabeça, soltando uma risada baixa, quase triunfante. Passou as unhas afiadas pelo peito dele, o olhar ardente, e mordeu-lhe o lábio inferior num gesto provocante, entre o desafio e o convite.
Ele tinha pressa — uma urgência quase febril de calar os próprios pensamentos. A saia dela subiu até a cintura quando ele se posicionou entre suas pernas. Abriu o botão de sua calça, já pulsando rígido de desejo. Afastou a calcinha dela para o lado sem gentilezas e a possuiu.
Em poucos segundos, já não pensava. Só restava o instinto, o ritmo descompassado da respiração e o desejo cego de esquecer.
Ele queria acreditar que o que sentia era simples — só desejo, nada mais. Mas, enquanto ela o envolvia, percebeu que havia algo de amargo naquela entrega.
O prazer vinha, mas agora não trazia mais alívio; vinha como um disfarce, como um silêncio momentâneo para os pensamentos que o atormentavam.
Quando, enfim, o corpo dele cedeu e o silêncio preencheu a sala. Cássio permaneceu imóvel por um tempo. O peito subia e descia, pesado, e um vazio quase físico se espalhava dentro dele.
Sílvia se ajeitou sob ele, um sorriso satisfeito desenhando-se em seus lábios.
Quando estendeu os braços para envolver-lhe o pescoço, Cássio já se afastava.
— Preciso de um banho — murmurou, a voz rouca, sem encará-la.
Seguiu para o banheiro, deixando para trás o perfume adocicado e o som abafado da respiração dela.
Sílvia observou-o desaparecer pelo corredor, os olhos semicerrados num brilho calculado.
— Me junto a você em alguns minutos — respondeu, num tom suave, quase melódico, como quem já saboreia o poder do próprio controle.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, Helena ajeitava-se na cama, observando que o silêncio da casa já não lhe pesava tanto.
O celular vibrou sobre o criado-mudo. Uma nova mensagem.
Ao abrir, seus olhos se fixaram na tela — era um vídeo, a gravação da câmera de segurança da sala de Sílvia.
...............
Na manhã seguinte, ele acordou com a luz que atravessava a janela ferindo seus olhos. Demorou para conseguir ver com clareza, sentindo seu corpo pesado e a mente enevoada.
Quando finalmente despertou, sentiu o calor de um corpo junto ao seu. Silvia estava deitada com a cabeça apoiada em seu peito, um braço envolvendo sua cintura.
Ao perceber que ele acordará, um sorriso quase inocente desenhou-se em seus lábios.
— Bom dia — disse ela, com a voz doce e lenta — dormiu bem, meu amor?
Cássio piscou, tentando reunir os pensamentos ainda confusos.
— Sim... — murmurou, a voz rouca, ciente de que qualquer palavra poderia ser interpretada de forma errada. — Bem, suponho.
Ela inclinou a cabeça, com um olhar que mesclava charme e provocação, enquanto os dedos desenhavam redemoinhos nos pelos do peito dele.
— Sabe... — começou devagar, escolhendo cada palavra — você tem uma esposa tão complicada. Alguém como ela... deve ser difícil de se conviver.
Cássio fitou o teto, o rosto de Helena brilhando nítido em sua memória.
— Não me leve a mal, claro, mas... se um dia você decidisse, sabe... — deslizou a mão pela pele dele de forma insinuante — bem, eu sempre estaria aqui pra você.
Ele respirou fundo, sentindo o calor subir-lhe às bochechas.
— Não crie esperanças além do que temos, Silvia. — O tom era ríspido, quase sufocante — E seja discreta. Não quero que Helena saiba de nada disso.
Ela congelou por um instante, mas a máscara de suavidade permaneceu intacta.
Murmurou com uma suavidade calculada:
— Não se preocupe, querido. Discrição é meu sobrenome. Eu só... gosto de estar perto de você, você sabe disso.
Ele se esquivou do corpo dela, levantando-se apressado.
— Ela é — Cássio respondeu, a voz carregada de sinceridade contida. — E definitivamente sabe como aliviar a tensão. Tem me ajudado a manter a cabeça no lugar.
Renato sorriu maliciosamente.
— Então, se é assim, por que você não se separa da Helena? Nada te prende a ela, não é? Seria uma dor de cabeça a menos.
Cássio fechou as mãos com força, os nós dos dedos ficando brancos. Era a segunda vez no mesmo dia que alguém lhe sugeria aquilo. Mas ninguém sabia que ele não podia se separar dela. Não podia e não queria.
— De jeito nenhum — respondeu, a voz carregada de possessividade. — A Helena é minha esposa, e nada vai mudar isso. A Silvia é apenas uma distração… bem-vinda, mas nada mais.
Renato arqueou as sobrancelhas, divertido, mas não perdeu a cautela.
— Ok, ok… sem estresse. Só pensei que talvez fosse melhor pra você, diante de tudo que você fala sobre ela. — Fez uma pausa estratégica, medindo as palavras. — Mas já pensou no que ela faria se descobrisse sobre você e Silvia?
Cássio se recostou na cadeira, o olhar firme, a confiança quase emanando de cada gesto.
— Ela não vai descobrir. Não sou idiota. E mesmo que descubra, eu sei lidar com ela. Ela me ama demais.
Renato concordou com a cabeça, mas recordava do olhar frio que Helena lançava ultimamente para Cássio. Não conseguiu deixar de pensar que o amigo poderia estar se enganando.
— Amor é complicado — comentou, cruzando os braços. — Não se baseia só em sentimentos. Helena é inteligente, Cássio. Se alguma coisa escapar, mesmo que mínima, ela vai perceber.
Cássio bufou, tentando se convencer da própria racionalidade.
— Então me diga, Renato… você quer que eu largue minha esposa por uma aventura? Silvia pode até estar me ajudando muito aqui na empresa, mas fora isso é apenas prazer momentâneo. Não é a mesma coisa.
— Talvez não… — Renato deu de ombros, sorrindo, mas os olhos carregavam dúvida. — Mas você já pensou que talvez ela não aceite ser apenas isso? Que ela possa querer mais, algum dia?
Cássio se levantou abruptamente, dando alguns passos pelo escritório, tentando sacudir a inquietação que Renato acabara de plantar.
— Silvia sabe o que é. E sabe que o que temos é limitado. Não tem espaço para ilusões.
— Limite é relativo, meu amigo — Renato respondeu, inclinado para frente, curioso e desafiador. — A linha entre o que ela acha que é e o que você quer que seja… pode ser mais tênue do que imagina.
Cássio parou, encarando o amigo com intensidade.
— E você acha que estou preocupado? — perguntou, ríspido, mas com o coração acelerado. — A Helena não vai descobrir. Não enquanto eu estiver no comando.
Renato sorriu, mas agora sem malícia, só reflexão.
— Pode ser, Cássio… mas cuidado. Às vezes o que você acha que controla...

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