“A paz exige uma luta contínua.”
Após Lívia se acalmar, Helena terminou de contar o que havia acontecido. A voz soava controlada, mas havia um lado dela que estava quase aos berros de tanta frustração. Havia sido ingênua — achara que bastava ir embora, assinar papéis, fechar portas, para se ver livre de Cássio e da prisão que fora seu casamento. Mas finalmente teve que encarar o quão grande havia sido seu engano.
Consuelo acariciou-lhe as costas num gesto maternal. A palma quente contrastava com o frio que ainda vibrava sob a pele da filha.
— Filha... — começou, a voz mansa, hesitando entre firmeza e ternura. Pousou a outra mão sobre a de Helena, entrelaçando os dedos como quem tenta segurar o que ainda resta. — Você fez o que precisava ser feito. — Prosseguiu, encarando-a com aquele olhar que parecia atravessar as defesas. — E eu tenho orgulho de você, entendeu? Nenhuma mulher que escolhe recomeçar deve se envergonhar disso.
Helena assentiu, sem conseguir responder. A garganta apertada demais para palavras.
Consuelo então voltou o olhar para os dois homens que permaneciam de pé, discretos.
— E vocês... — disse, com um sorriso que misturava gratidão e ternura. — Eu nem sei como agradecer. Se não fosse por vocês, minha filha talvez nem tivesse conseguido chegar até aqui.
Pedro baixou os olhos, desconcertado.
Santiago, por outro lado, pareceu perder o ar. Aproveitou o momento e deu um passo à frente.
— Eu... na verdade, dona Consuelo, eu ainda não tinha me apresentado direito. — disse, tentando esconder o nervosismo. — Sou Santiago Villar, amigo de Helena.
Consuelo arqueou uma sobrancelha, um sorriso leve curvando os lábios.
— Ora, não precisa se apresentar, rapaz. — disse com uma doçura que escondia uma pontinha de malícia. — Sou muito amiga seus pais, e, embora você talvez não se lembre, te conheço desde pequeno.
Santiago piscou, surpreso, e abriu um sorriso tímido.
Consuelo continuou, inclinando levemente a cabeça, observando-o com atenção.
— E lembro perfeitamente de você defendendo minha filha também naquele evento. — Acrescentou, o tom agora mais afetuoso. — Fico feliz em ver que nos reencontramos... e ainda em circunstâncias tão nobres.
Ela sorriu, maliciosa. — Um rapaz assim... faria um ótimo genro.
Helena engasgou no próprio ar.
— Mãe! — protestou, corando.
Santiago riu, envergonhado, e passou a mão na nuca, tentando disfarçar.
O silêncio que se seguiu foi breve, mas denso o bastante para que Helena o encarasse com olhos semicerrados.
— Você ainda não me disse o que estava fazendo no parque. — lembrou, num tom que misturava curiosidade e desconfiança.
Ele hesitou. — Eu... — começou, mas as palavras tropeçaram.
Pedro, percebendo o embaraço, interveio depressa:
— Na verdade, ele ia me encontrar. A gente... costuma correr juntos quando dá tempo. — disse, lançando um olhar rápido para Santiago, como quem oferece uma saída.
Santiago assentiu de imediato. — Isso. Correr. — repetiu, um tanto sem jeito.
Helena o olhou por um segundo mais, o suficiente para perceber que havia algo não dito ali — mas deixou passar. O cansaço era maior que a desconfiança.
Enquanto isso, Lívia, que observava em silêncio, encarou Santiago.
— Será que podemos conversar um minuto? — perguntou, a voz polida, quase gentil, mas com uma tensão sutil por baixo.
Ele franziu o cenho, mas concordou, acompanhando-a até o quintal dos fundos.
Lívia cruzou os braços e virou-se de frente para ele, a expressão serena demais para ser confortável.
— O que está acontecendo, Santiago? — perguntou, direta, sem rodeios.
— A que se refere? — devolveu ele, tentando soar tranquilo, mas o tom neutro soou estudado demais.
Ela o observou em silêncio por um momento, o olhar firme, analítico, como quem desmonta uma testemunha. Ele manteve a compostura, mas seus olhos o traíram por um breve instante — desviaram-se sutilmente para o sobrado atrás dela.
Lívia não precisou se virar para entender.
— Por que você não chama o Marcelo pra se juntar a nós? — perguntou, com a voz calma, mas firme.
O nome atravessou o ar como uma faísca. Santiago se virou imediatamente, surpreso, o semblante em alerta.
— Marcelo? — repetiu, tropeçando nas palavras. — Desculpa, acho que não estou entendendo...
— Por favor. — interrompeu ela, erguendo uma das mãos. — Você é um péssimo mentiroso, Santiago. — Virou-se rapidamente, sem dar tempo de reação, e lançou o olhar certeiro para a janela do sobrado ao lado. — E é óbvio que estou falando daquele Marcelo.
Não deu tempo do detetive se esconder. Marcelo, pego em flagrante, congelou por um segundo — depois esboçou um sorriso constrangido e levantou a mão num aceno envergonhado.
Lívia arqueou uma sobrancelha, nada surpresa, e voltou-se para Santiago.
— Eu acredito que suas intenções com a minha amiga sejam boas... — disse, medindo cada palavra — mas tem algo que você não está contando.
Santiago respirou fundo, os ombros tensos.
— Como você descobriu? — perguntou, resignado.
Um meio sorriso se desenhou nos lábios dela.
— O bonitão lá dentro. — começou, com o tom analítico de quem descreve um caso em tribunal. — Primeiro o vi no evento da empresa — postura séria demais, olhar observador. Depois o vi entrando na casa ao lado... um sobrado caindo aos pedaços, praticamente inabitável. — cruzou os braços mais forte. — Quando cheguei aqui hoje vi o Marcelo na janela da frente.
Deu um passo à frente, inclinando levemente o corpo, como quem entrega o veredito.
— E logo em seguida vejo você e o “bonitão” ajudando Helena. — sorriu de canto. — Logo, um mais um... são dois.
Santiago passou a mão no cabelo, suspirando, a rendição impressa no gesto.
Lívia o observava, satisfeita com o próprio raciocínio.



VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quadros de um divórcio