“Toda paz exige uma mão firme, um traço decidido e a recusa em ser apagada.”
Ao voltarem para dentro da casa, encontraram o ambiente mais silencioso. Pedro já havia se retirado, voltando discretamente ao sobrado vizinho. Queria dar privacidade à família — e também verificar se não havia mais movimentação na rua.
Na cozinha, Aurora terminava de guardar algumas louças e panelas novas, enquanto, na sala, Helena estava encolhida no sofá, a cabeça apoiada no ombro da mãe.
Os olhos dela estavam distantes, frios, como Lívia nunca tinha visto — e aquilo a preocupou imediatamente. Santiago também percebeu; o peito dele apertou, uma sensação de alguém torcendo o próprio coração entre os dedos.
Lívia se aproximou, ajoelhando-se à frente da amiga. Segurou-lhe as mãos com firmeza, como quem ancora um barco prestes a ser arrastado pela correnteza.
— Não se preocupe — disse com suavidade. — Nós vamos dar um jeito em tudo isso.
Helena assentiu, mas o rosto continuou inexpressivo, quase uma máscara.
— Ele já me tirou tudo uma vez. — A voz dela saiu baixa, mas cortante. — Eu não vou deixar que tire mais nada… nem a minha paz. Ele tem pouco mais de vinte e quatro horas. Quando esse prazo acabar, independente da decisão dele… será o fim da paz dele, não da minha.
O olhar de Helena finalmente encontrou o de Lívia — firme, aceso.
— Isso! — Livia vibrou, erguendo os punhos. — É assim que se fala. Vamos esfregar a cara desse cretino no chapisco.
A risada inesperada que escapou de Helena quebrou, mesmo que por um segundo, o peso daquela tarde.
Consuelo acariciou o cabelo da filha e falou com suavidade:
— Quer que eu fique com você hoje, meu amor? Ou, se preferir, pode vir para o hotel comigo e com seu pai.
— Não, mãe… — Helena respondeu, com um sorriso pequeno. — Eu não quero incomodar vocês.
Santiago abriu a boca, prestes a se oferecer — mas Lívia, mais rápida que uma flecha, interceptou:
— Não se preocupe, tia Lelo. — disse, dando um tapinha no sofá. — Eu não vou a lugar nenhum. Hoje teremos nossa noite das meninas, com filme, pipoca… e, quem sabe, uma guerra de travesseiros.
Consuelo riu, revirando os olhos.
— Está bem, mas não estraguem os travesseiros que eu acabei de comprar, mocinhas. — Depois olhou ao redor, analisando as caixas ainda espalhadas. — Amanhã volto para terminar de organizar tudo, pode ser?
Helena concordou, abraçando a mãe antes que ela e Aurora fossem embora.
Quando a porta se fechou, restaram apenas Helena, Lívia e Santiago. O ar pareceu mudar, ficando mais denso, mais íntimo. Lívia lançou ao rapaz um olhar afiado — o tipo de olhar que dizia “seja honesto com ela”. Santiago não disse nada, mas devolveu um aceno quase imperceptível, reconhecendo o pedido silencioso.
— Bem… — murmurou Lívia, levantando-se. — Eu vou jogar uma água no rosto e já volto.
Saiu, deixando os dois em uma bolha que parecia suspensa no tempo.
Helena virou-se lentamente para Santiago, as mãos unidas à frente do corpo, como se tentasse se reorganizar por dentro.
— Eu acho que você já deve estar cansado de ouvir isso… — disse, sem conseguir encará-lo por muito tempo — mas obrigada. De novo.
— Não precisa me agradecer. — respondeu ele, baixinho. — Só fico feliz que você esteja bem.
O silêncio que se seguiu era quase palpável.
Até que Santiago respirou fundo.
— Nosso encontro amanhã… está de pé?
Helena piscou, surpresa. Com toda a confusão, havia esquecido completamente do compromisso.
— Ah… isso. — murmurou. — Eu não sei se é uma boa ideia.
O olhar dele se entristeceu por um instante, mas ela apressou-se em completar:



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