“Pior do que perder alguém, é perder a si mesmo.” Jerley Soares
Cássio piscou algumas vezes, tentando afastar o peso do sono. A visão estava turva, a cabeça latejava — como se tivesse acordado dentro de um corpo que não reconhecia.
Levantou o olhar, ainda confuso, e deu de cara com o quadro de Helena encostado na parede, exatamente onde o deixara na noite anterior.
A respiração dele travou.
O coração deu um salto breve — um reflexo, um eco, um engano cruel.
Sentiu o peso de um braço envolvendo sua cintura, quente e frouxo em torno dele, como tantas vezes havia sentido antes… quando era Helena quem dormia enroscada em suas costas, buscando-o mesmo nos dias em que mal se falavam.
Virou-se rápido, o nome escapando num sussurro desorientado:
— Helena?
Mas a imagem que encontrou não foi a que sua mente desesperada ainda tentava chamar de volta.
Era Silvia.
Dormindo tranquila ao lado dele.
No lugar dela.
Na cama que ele dividira por anos com a mulher que jurava amar.
Um suspiro baixo escapou dele, uma miscelânea amarga de frustração, choque e uma decepção que o corroeu por dentro.
Com cuidado, retirou o braço dela de sua cintura, evitando acordá-la. Não queria ser cruel. Não queria gritar. Não queria encarar aquilo.
Mas tudo parecia profundamente errado.
Sentou-se à beira da cama, as mãos cobrindo o rosto. Tentou puxar da memória qualquer fragmento que explicasse como e quando havia dormido.
Lembrava apenas dela aparecendo no corredor… trazendo um chá… dizendo algo sobre ele precisar descansar…
Depois, nada.
Um buraco negro.
Olhou para o próprio corpo — estava apenas de cueca.
— Mas que porra… — murmurou, o estômago se contorcendo.
Não lembrava de ter tirado a roupa.
Não lembrava de tê-la deixado entrar ali.
E isso o enojava.
Levantou rápido, quase num impulso, e foi até o banheiro. Precisava de água. Precisava arrancar aquela sensação da pele. Precisava respirar.
Assim que a porta se fechou, os olhos de Silvia se abriram.
Não havia sono ali.
Não havia doçura.
Só um brilho escuro que se acendeu ao pousar no quadro em chamas.
Os olhos pintados pareciam queimar — mas nada se comparava ao que ardia dentro dela.
…
Quando Cássio saiu do banheiro, ainda secando o cabelo, envolto apenas em uma toalha, Silvia estava acordada — sentada na cama, encostada na cabeceira, esperando por ele.
O sorriso doce veio rápido.
— Por que não me acordou? — perguntou, a voz demasiadamente suave.
Cássio abriu a boca, procurando uma resposta educada, mas nada que dissesse seria verdadeiro — e qualquer verdade a machucaria.
E ela estava grávida.
Ele não queria feri-la.
Mas também não a queria ali.
Respirou fundo, prestes a explicar que precisavam conversar sobre limites, sobre espaço, sobre o que não aconteceria entre eles.
Mas Silvia foi mais rápida.
Mais estratégica.
— Você vai para o escritório? — perguntou ela, inclinando a cabeça, estudando cada expressão dele. — Eu sei que hoje é domingo, e como qualquer mulher, parte de mim adoraria pedir pra você ficar aqui comigo…
Ela sorriu, tímida.
— …mas eu entendo que a empresa precisa de você. Ainda mais com tudo que está acontecendo.
Cássio ergueu uma sobrancelha, surpreso com a compreensão.
Aquilo contrastava tanto com Helena… que sempre queria ele ali, que pedia presença, que implorava por tempo — e que ele quase nunca soube dar.
Silvia continuou, levantando-se da cama com leveza calculada.
A camisola branca de renda caía delicadamente sobre o corpo dela, criando uma aura quase angelical.
Quase.
Ela se inclinou, deu-lhe um selinho rápido, tão rápido que ele não teve tempo de recuar, e virou-se para a porta como se tudo fosse perfeitamente natural.
— Vou descer e preparar um café pra você. — disse enquanto caminhava. — Que tal um suco e ovos mexidos?
Cássio demorou alguns segundos para processar.
— Parece ótimo. — respondeu, ainda confuso, sem saber exatamente o que estava acontecendo ou o que deveria estar sentindo.
Silvia sorriu, satisfeita, e saiu do quarto.
Na cozinha silenciosa, Silvia apoiou as mãos na bancada fria e puxou o celular. Discou o número que sabia de cor, mas não ousava deixar salvo no aparelho. Márcio.
Levou o aparelho ao ouvido, a voz saindo em um sussurro quase imperceptível quando ele atendeu:
— Como foi o carregamento essa madrugada?
Do outro lado, a resposta veio imediata — e ácida:
— Bom dia pra você também.
Silvia fechou os olhos por um segundo, respirando fundo. Claro que ele tinha que fazer drama.
— Deu tudo certo. — respondeu Márcio, antes que ela pudesse retrucar. Ele a conhecia o bastante para prever seu humor matutino. — Falta muito pouco pra despachar. Mas… — a voz dele mudou, carregada de suspeita — por que você tá sussurrando?
Uma pausa.
— Não me diga que está com aquele babaca logo pela manhã.
Silvia apertou os dedos contra a bancada.
— Você sabe que isso é preciso. — disse, seca.
— Ah, claro. — Ironizou ele. — E você fala como se fosse um sacrifício… mas, pra mim, parece que está gostando disso mais do que demonstra.
— Não vamos ter essa conversa de novo. — Cortou ela, fria. — Não posso falar agora. Te ligo depois.
Encerrando a ligação, apagou o registro e largou o celular sobre a mesa com força controlada. Ajustou a camisola branca nos ombros, respirou fundo e ensaiou no reflexo da porta de vidro o sorriso perfeito — aquele que sempre funcionava.
…
Quando Cássio desceu, estava impecável.
Terno alinhado, cabelo penteado para trás, aquele ar de executivo que tentava, inutilmente, esconder que estava despedaçado por dentro.
Silvia abriu um sorriso cuidadosamente doce.
— Espero que não se importe com um café tão simples… — disse, indicando a mesa. — Não tive muito tempo, mas prometo que os próximos serão melhores.

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