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Quadros de um divórcio romance Capítulo 74

“Entre uma pincelada e outra, o destino adora meter um pincelzão no meio.”

Helena acordou com um sopro quente batendo em seu rosto. Piscou algumas vezes, tentando entender de onde vinha aquele bafo morno, e quando virou a cabeça, quase levou um susto: o rosto de Lívia estava colado ao dela, a amiga esparramada sobre sua cama como um polvo emotivo — um braço e uma perna jogados por cima do seu corpo. Mabe, por sua vez, ocupava seu outro lado, olhando-a curiosa.

Helena empurrou Livia com o cotovelo, rindo.

— Ei! Vai babar pra lá!

Lívia resmungou, ainda mergulhada no sono, e — como uma criança teimosa — voltou a abraçá-la, se enroscando toda de novo.

— O que agora? Tá carente? — provocou Helena.

— Não posso abraçar minha melhor amiga? — choramingou, a voz abafada pelo travesseiro.

— Pode… mas você precisa urgentemente arrumar um namorado. Quem sabe assim me deixa respirar um pouco.

— Ah, por favor. Eu estou te protegendo, esqueceu? — retrucou, dramática. — Sou oficialmente sua protetora emocional e física.

— Babando desse jeito?

Lívia ignorou o comentário e só abraçou mais forte.

Helena revirou os olhos, pegando o celular no criado-mudo — um dos móveis novos que a mãe tinha comprado no dia anterior. Em cima dele, um jarro de vidro com margaridas brancas refletia a luz suave da manhã. Ela encarou as flores por um instante, sentindo um calor familiar no peito ao pensar na mãe.

O visor marcava 7:20.

— Você deveria valorizar mais sua amiga, sabia? — Lívia resmungou. — O que é uma babinha diante da minha lealdade?

— Tá bom, tá bom… — Helena deu tapinhas no braço dela. — Agora me deixa levantar. Preciso me arrumar. Santiago deve chegar a qualquer momento.

A frase mal saiu de sua boca e Lívia despertou como se alguém tivesse acionado um alarme interno. Levantou num salto, já de pé, os cabelos desgrenhados apontando para todas as direções.

— Beleza! Vou me arrumar também.

Helena arregalou os olhos, genuinamente preocupada com a sanidade da amiga.

— Se arrumar pra quê? — perguntou, com a voz travada entre curiosidade e medo.

Lívia virou-se com naturalidade ofendida.

— Como assim pra quê? Eu vou também, ué!

Helena ficou boquiaberta.

— Lívia… eu te falei ontem que era um encontro.

— Eu sei. — Ela deu de ombros. — Vocês nem vão notar minha presença. Serei discreta como uma sombra. Mas eu não vou sair do seu lado agora, não depois de tudo. Ainda mais com aquele idiota solto por aí, disposto a te perturbar. Eu já falei: sou sua protetora, e não vou te perder de vista.

Helena a encarou por longos segundos, sem saber se ria, chorava ou expulsava a amiga a vassouradas.

— Meu Deus… por que isso agora? Ontem, quando te contei que iria sair com Santiago, você não falou nada.

— Queria que você surtasse antes da hora? — devolveu, prática. — Agora anda! Não queremos nos atrasar.

E, sem dar chance para resposta, Lívia desapareceu dentro do banheiro, fechando a porta atrás de si com um estrondo triunfante.

Helena ficou parada no meio do quarto, completamente pasma, tentando entender como, exatamente, tinha perdido o controle da própria vida logo ao acordar.

Respirou fundo.

— Isso só pode ser pegadinha do destino… — murmurou.

...

Do outro lado do muro, no sobrado vizinho, Santiago encarava o próprio reflexo no espelho velho do banheiro. A imagem embaçada parecia combinar perfeitamente com o que ele sentia por dentro — uma mistura de euforia contida, preocupação latejante e um medo irracional de estragar tudo.

Diferente do dia anterior, já havia um chuveiro ali, embora a fiação ainda não tivesse sido concertada. Mas o banho frio foi bom para espantar um pouco dos tantos sentimentos que o povoava.

Respirou fundo pela quinta vez.

— Relaxa, é só um encontro. — disse a si mesmo tentando manter um olhar confiante.

Seria o primeiro encontro de verdade.

Uma chance de mostrar a Helena que tudo o que ele sentia não era um impulso, nem uma fantasia sobre alguém frágil que precisava ser salva.

Era ela. Sempre ela.

Forte, doce, corajosa.

E ele queria ficar ao lado dessa mulher — não da vítima, não da sobrevivente, não da sombra de um casamento destruído. Da mulher.

Mas junto desse desejo vinha a culpa.

A mentira por omissão. A proteção silenciosa. A presença dele nas sombras.

E tudo isso pesava nas costas.

Santiago passou a toalha no rosto. Tinha sido um erro esconder dela. Lívia deixara claro — e a culpa tinha feito sentido quando ele escutou.

Mas era tarde para voltar ao início. Agora só restava seguir em frente… e falar a verdade.

Buscou uma blusa branca limpa na pequena mala aberta no chão do quarto. Pegou uma calça jeans surrada, confortável como memória antiga, depois um casaco de flanela que misturava tons de azul e preto. Calçou uma bota de couro simples, já moldada ao formato do pé, marcada por trilhas, lama e muitas histórias. Quando ele olhou no espelho novamente, ele se sentiu… ele mesmo.

Fazia tempo que não ia até a fazenda da família, tempo demais.

Apesar da vida que construíra na cidade, havia algo naquele lugar que continuava puxando-o para trás, não como regressão, mas como raiz.

A fazenda era seu refúgio desde a infância. Seu eixo durante as férias, fins de semana e feriados. O único lugar onde o silêncio era completo, mas nunca solitário.

Foi ali que crescera correndo atrás de cavalos, sujando os joelhos e ouvindo risadas despreocupadas ecoando pelos campos. Foi ali que aprendera a respirar fundo, a desacelerar, a ouvir mais do que falava.

E fazia tanto tempo que não tinha uma razão para voltar. Agora tinha.

Um pensamento se formou dentro dele com uma doçura inesperada.

Helena.

Ela precisava daquele lugar.

De um horizonte que não a esmagasse, mas a abraçasse.

E ele queria — mais do que tudo — oferecer isso a ela.

Paz. Alegria. Um pouco de mundo longe do caos.

A fazenda seria perfeita.

Pegou o boné preto que estava sobre a cama e o encaixou na cabeça, empurrando os fios rebeldes para trás com um gesto automático. Depois atravessou o corredor estreito até o quarto da frente.

Pedro estava estirado no sofá-cama, um braço cobrindo os olhos. Já Marcelo ocupava a poltrona velha no canto, as pernas esticadas por cima de uma lata de tinta vazia feita de apoio improvisado. Ele embaralhava um baralho gasto com a destreza de quem parece sempre estar esperando uma jogada do destino. Mas os olhos, atentos, não estavam nas cartas — e sim na janela, observando a rua como um predador tranquilo.

Percebendo Santiago se aproximar, ele ergueu os olhos e abriu um sorriso enviesado.

— Aowww, se não é nosso cowboy. — Ele cantarolou, inclinando a cabeça.

Santiago apenas devolveu um sorriso torto, ajeitando o boné.

— Então vai mesmo fazer isso? — perguntou Marcelo, embaralhando as cartas com indiferença calculada. — Vai levar a garota pra fazenda?

— Acho que vai ser bom pra ela. — respondeu Santiago, firme, concordando com a cabeça. — Ela precisa respirar um pouco.

Marcelo assentiu, finalmente deixando o baralho descansar na beira da janela.

— Ela vai gostar… — disse, mas o tom mudou antes que Santiago pudesse relaxar. — Mas é melhor levar o Pedro com vocês.

Santiago abriu a boca para protestar, mas o amigo o cortou com um gesto:

— Não começa. — Continuou Marcelo, o olhar voltando rapidamente para a janela. — Ela tá no foco agora. A rua parece tranquila, mas basta um passo errado e aparece repórter, paparazzi… ou pior. — Fez uma pausa breve. — Sem contar um imbecil rico, ciumento e mentalmente instável circulando por aí.

Santiago fechou os olhos por um instante, respirando de frustração.

— Você tem razão. — Admitiu, mesmo contrariado.

— Ele vai se manter distante, será como se ele não estivesse lá. Não se preocupe com isso. — Marcelo tentou tranquilizá-lo.

Virou-se para o homem deitado no sofá-cama.

— Tudo bem pra você? — perguntou.

Pedro levantou-se como se alguém tivesse apertado um botão invisível. Vestia jeans preto, camiseta preta, pegou os óculos escuros da mesa e os colocou com precisão militar. Endireitou os ombros, assumindo aquela postura de “pronto para missão” que ele parecia carregar naturalmente.

— Vamos lá. — disse, simples, direto.

Santiago ergueu uma sobrancelha.

— Isso não me parece nada discreto.

Pedro abriu um sorriso leve — raro e rápido.

— Ei… esse é o meu discreto, cowboy.

Marcelo riu baixo, balançando a cabeça como quem observa dois idiotas funcionais prestes a sair para salvar o dia.

— Agora vão. Eu vou ficar de olho aqui.

...

Enquanto isso, Helena vestia uma baby look verde oliva e tentava prender o cabelo com um lenço diante do espelho, quando Lívia saiu do banheiro em um salto teatral — rímel impecável, blush rosado e um brilho labial que poderia sinalizar aviões.

Os olhos, por pura rebeldia, percorreram todo o corpo dele — dos ombros largos ao peito definido sob a camiseta preta, descendo pelos braços fortes e terminando onde não devia.

Misericórdia.

Mordeu o lábio inferior sem notar.

Era ridículo. Ela mal tinha trocado meia dúzia de palavras com ele, no máximo, olhares furtivos. E agora teria que passar horas confinada dentro de um carro com a personificação humana de uma barra de chocolate Diamante Negro, seu chocolate favorito — só que maior, mais musculosa e perigosamente deliciosa.

O problema? Ele era sério demais.

Sério de um jeito que desmontava qualquer tentativa dela de bancar a descolada.

E aquilo… ah, aquilo mexia com ela de um jeito indecente.

Lívia apertou as pernas automaticamente, tentando domar a onda quente que subiu sem permissão. Era só olhar pra ele e o corpo dela reagia como se tivesse sido treinado pra isso.

Maravilhoso.

Delicioso.

Completamente impróprio.

Pedro manteve a postura firme, quase militar, mas algo nos olhos dele — um brilho rápido, discreto — denunciou que ele também estava ciente daquela atração. Muito ciente. E que não estava tão confortável quanto fingia estar.

A encarou com a calma de quem está acostumado a missões impossíveis.

— Algum problema irmos juntos, senhorita Macedo? — perguntou, educado demais para ser verdade.

A vergonha atingiu Lívia como um tapa.

— Não, de forma alguma. Eu só… bem…

— Por favor, fale. — Incentivou ele, impassível.

— É que eu costumo falar bastante, e você parece um pouco… como posso dizer? Introspectivo? Tenho medo de te aborrecer com minha tagarelice.

— Eu não sou introspectivo. — Rebateu Pedro, sério.

— Não é? — ela ergue a sobrancelha, quase como um desafio. — Mas parece que vai matar alguém só de olhar.

Santiago arregalou um sorriso contido.

— Ela tem um ponto. — comentou, levantando uma das sobrancelhas.

Pedro fechou a cara.

Helena disfarçou a risada.

Santiago se divertia como se fosse um show particular.

Prestes a entrar no carro, ele anunciou:

— Bom… estamos combinados então. Vamos?

Helena o acompanhou, e Mabe trotou animada, como se tivesse sido promovida a copilota.

Lívia ficou ali, parada, fixando Pedro, entendendo que aquela seria uma lonnnga viagem.

Ele abriu a porta do passageiro.

— Vamos logo. — disse, num tom neutro.

— Pode ir dirigindo. — Ela replicou rápido, para manter uma distância segura.

— Eu só ia abrir a porta pra você. — explicou ele, levemente ríspido.

Lívia piscou, desconcertada.

— Ah. Tá. Obrigada, então.

Ela entrou — e imediatamente percebeu que o carro tinha cheiro de couro e hortelã. Extremamente organizado. Impecável. Meticuloso. Nada de garrafas vazias, casacos jogados ou recibos perdidos. Um universo oposto ao dela.

Pedro fechou sua porta, deu a volta, entrou, colocou o cinto.

E então…

Silêncio.

Silêncio absoluto.

Silêncio tão sólido que dava pra pegar com a mão.

O tipo de silêncio que só duas pessoas completamente incompatíveis — e perigosamente atraídas — conseguem construir juntas.

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