"O ciúme é um monstro que se gera e se alimenta de si mesmo." William Shakespeare
Como prometido, assim que Cássio saiu, Silvia tornou a ligar para Márcio. Ele atendeu com o humor curto de quem já previa o tom da conversa.
— Está ligando pra desligar na minha cara de novo? — resmungou, seco.
Silvia inspirou fundo, tentando domar a impaciência.
— Eu preciso que você cuide dela.
Ela não mencionou o nome. Não precisava. Márcio já sabia. Tinha visto a cena ridícula de Cássio no parque — o espetáculo patético transmitido para a cidade inteira. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, Silvia tocaria no assunto.
— Pensei que tivéssemos combinado de esquecer isso. — disse ele, agora num tom mais denso, desconfiado.
— Eu até estava disposta a deixar pra lá… — Silvia respondeu, apertando o celular entre os dedos. — Mas parece que ela está disposta a morrer.
Silêncio momentâneo.
Depois, a voz de Márcio veio carregada de ironia amarga:
— Você sabe que foi ele quem foi atrás dela, não sabe?
A mandíbula de Silvia tensionou, o maxilar saltando.
…
Na noite anterior, ela já não suportava mais a presença constante de Esther e Viviane. O entusiasmo das duas, os planos, os risos… tudo aquilo era ruído. Mas não podia simplesmente expulsá-las; precisava manter a imagem, o papel perfeito que vinha encenando.
Quando finalmente se foram, ela subiu até o quarto de Cássio. Parou ao lado da porta semiaberta. A visão do interior a golpeou como uma agressão.
Ele estava sentado na beira da cama, os ombros curvados, o corpo entregue, as mãos pendendo entre os joelhos… e os olhos presos no quadro de Helena encostado na parede. Olhava para a imagem como se respirasse através dela. Como se ainda estivesse queimando por dentro — exatamente como as chamas pintadas ao redor da mulher retratada.
Silvia sentiu algo escuro e viscoso se espalhar pelo peito, preenchendo cada canto. Rancor. Um rancor quente, corrosivo, que a inflamava inteira.
Ela o havia seduzido. O havia bajulado. Havia alimentado seu ego. Havia se moldado a cada expectativa dele, havia se colocado à disposição dele de todas as formas — emocionalmente, fisicamente. Tinha feito de tudo.
E ainda assim…
Ali estava ele, definhando por outra mulher. Por alguém que não estava ali, que não queria estar, que só lhe entregava desprezo. Uma mulher que, na boca dele, era sempre “chata demais”, “difícil demais”, “chorosa”, “cantativa”, “dependente demais”.
Ele dizia que Helena era incompatível, problemática, desinteressante para uma vida séria. E, no entanto…
O que era aquilo diante dos olhos dela agora?
Por que essa fixação absurda?
Por que esse amor torto?
Por que aquela mulher o dominava, mesmo ausente?
Por que ela, Silvia — que lhe dava tudo — não era o suficiente?
…
Desceu até a cozinha. Preparou um chá — mas não era apenas chá. Era um gesto calculado, uma intenção disfarçada em vapor quente. Subiu novamente, segurando a xícara com tanta força que o líquido quase transbordava, assim como a raiva dentro dela.
Empurrou a porta lentamente.
— Cássio?
Ele se levantou depressa, num movimento nervoso, como se quisesse impedir que ela cruzasse aquela fronteira. Como se aquele quarto fosse um altar proibido… um santuário da mulher que não o queria. Silvia viu a sombra de irritação atravessar o rosto dele — e viu também o esforço para apagá-la com um sorriso forçado.
— O que você quer? — perguntou, bloqueando a entrada com o corpo.
— Eu não queria incomodar… — respondeu ela, suavizando a voz, como quem aceita uma culpa que não é sua. — Me desculpe por tudo isso. Sua mãe insistiu para que eu viesse. Disse que seria o melhor para o nosso bebê. — A voz dela tremeu, calculada. — Eu fiquei sem graça de recusar tanta preocupação.
Cássio inspirou fundo, como quem tenta segurar um mundo inteiro prestes a desabar.
— Não é uma boa hora pra conversarmos sobre isso… — murmurou, cansado. — Estou exausto. Amanhã resolvemos.
A compreensão doce veio na hora, vestindo-se na máscara que ela sabia usar tão bem.
— Claro. Você parece mesmo esgotado. — Ela ergueu a mão, oferecendo a xícara. — Aqui… trouxe um chá pra você.
Ele olhou para o líquido, depois para ela tentando decifrá-la. Doce demais para ser real? Cuidadosa demais para ser inocente? Paciente demais para não ser estratégia? Ele não sabia. Só se sentia estranhamente desconfortável diante dela. Talvez fosse apenas ele.
Pegou a xícara das mãos dela, o líquido estava morno. Bebeu.
— Obrigado. — disse, devolvendo o recipiente vazio para ela.
— Vou te deixar descansar. — murmurou ela, com um tom que era metade resignação, metade tristeza feita sob medida.
Saiu do quarto com passos lentos. Só quando chegou à cozinha deixou o rosto desabar em uma expressão fria, sem vida. Sentou-se na bancada, girando a xícara vazia entre os dedos como quem decifra augúrios na borra de café.
A bile subia na garganta.
O rancor, de novo, se reavivava.
Pegou o celular, digitou “Cássio Amaral” e a tela foi tomada por manchetes, vídeos, atualizações, fotos. Cada uma mais irritante que a outra. Cenas do parque se repetiam em miniaturas luminosas — como gargalhadas digitais zombando dela.
Clicou em uma delas.
O vídeo começou a tocar, a voz dele ecoando baixo do aparelho:
“Eu só quero conversar…”
“Você não sabe o quanto fiquei desesperado sem saber onde você estava…”
“Você é minha mulher…”
“Eu vou pedir a anulação desse divórcio…”
E então, a frase que atravessou o peito dela como um tiro:
“Ela não significa nada.”
Ela.
Ela era ela.
Silvia.
Silvia era quem não significava nada.
O mundo pareceu se estreitar em um único ponto dentro dela — um ponto afiado, venenoso, perfeitamente disposto a ferir de volta.
Meia hora depois, Silvia empurrou a porta do quarto de Cássio sem qualquer cerimônia. A madeira rangeu num protesto baixo, mas ele nem se mexeu. Estava completamente apagado, como previa.
Um dos braços pendia para fora da cama, os dedos quase tocando o chão. O outro repousava sobre o estômago, subindo e descendo num ritmo lento. Uma perna permanecia sobre o colchão, enquanto a outra ainda roçava o carpete, como se tivesse desabado ali antes mesmo de terminar o movimento.
O olhar de Silvia deslizou até o quadro apoiado contra a parede. As chamas pintadas pareciam pulsar na penumbra, iluminando o rosto de Helena como se ela realmente emergisse do fogo.
Silvia estreitou os olhos.



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