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Quadros de um divórcio romance Capítulo 76

“Dois caminhos podem ser distintos… até que o artista decide pintá-los na mesma tela.”

Santiago deu partida no carro, indo na frente por conhecer bem o caminho. No retrovisor, Pedro seguia logo atrás — com Lívia provavelmente falando sem parar ao lado dele.

No banco de trás, Mabe parecia excessivamente confortável, sentada como uma princesa canina, a cabeça erguida e o rabo abanando como se fosse a melhor manhã da vida.

Helena olhou para a cachorra com a sobrancelha arqueada, depois voltou-se para Santiago, cruzando os braços de forma suspeita.

— Então… essa mocinha aqui atrás passa mal? — perguntou, com um tom de deboche doce.

Santiago tentou manter a expressão séria. Falhou em dois segundos.

A risada escapou, leve, deliciosa, arejada como um sopro fresco em meio ao verão.

Aquela risada…

Helena sentiu o peito travar um instante. Era indecente uma pessoa ser tão bonita rindo daquele jeito.

Ele virou o rosto rapidamente para olhar pra ela — e voltou os olhos à estrada como quem tenta não bater o carro.

— Você não pode me acusar — disse, ainda sorrindo, a voz baixa, perigosa. — Já era pra ser só nós dois. Pelo menos o percurso precisava ser.

Ela corou, mas manteve o jogo.

— Ah, claro. E pra onde exatamente estamos indo, senhor Villar? — provocou, tentando ignorar o fato de que só de olhar pra boca dele já perdia o fôlego.

— Logo, logo, você vai ver.

Ele virou para olhá-la novamente e viu a luz atravessando o cabelo dela, dando brilho ao castanho, projetando reflexos dourados nas bochechas.

Viu os olhos dela — tão grandes, tão expressivos — perderem foco por um momento, como se ela estivesse se protegendo da intensidade que acontecia ali.

Aquilo o atingiu com força.

E então fez algo tão simples… e tão devastador.

Colocou a mão aberta sobre o console, a palma virada para cima, um gesto silencioso, íntimo, cheio de significado.

Não era uma ordem. Não era uma ousadia. Era um convite.

Ela hesitou só o tempo de uma respiração leve — e então entregou a mão.

Quando os dedos dela deslizaram pelos dele, Santiago sentiu um arrepio subir pelo braço inteiro.

Um arrepio quente, cheio de significado.

O rubor subiu pelo pescoço dela, pelas bochechas, queimando de dentro pra fora.

Mas por mais que o corpo denunciasse, o coração só reconheceu uma coisa: Segurar aquela mão era como encontrar um porto seguro que ela nem sabia que procurava.

Santiago entrelaçou os dedos com mais força, sem desviar os olhos da estrada — mas o leve sorriso no canto da boca revelava tudo o que ele sentiu também.

Por um longo momento, nenhum dos dois disse nada. Mas não havia silêncio entre eles.

Havia promessa.

Havia caminho.

Havia começo.

No carro de trás...

...

Estava tudo tão silencioso que o som do piscar do painel parecia um trovão claustrofóbico preenchendo o espaço entre eles.

Lívia fingia mexer no celular — a tela acesa, o dedo deslizando sem realmente tocar nada — mas, na verdade, seus olhos escapavam vez ou outra para o lado, capturando Pedro em pequenos fragmentos, como se ele fosse perigoso demais para encarar diretamente.

Ela reparou na maneira firme como ele segurava o volante, em cada movimento calculado, sem desperdício, sem hesitação. O maxilar marcado, tenso, como se ele mastigasse algum pensamento que não podia dizer. A veia discretamente saltada no antebraço. A respiração controlada. O olhar fixo não só na estrada, como em tudo a sua volta, tão sério que chegava a irritá-la e… bom, a deixar seu estômago dar voltas.

Até o modo como ele piscava parecia disciplinado.

Lívia respirou fundo.

Não pode ser tão difícil conversar com ele.

É só um homem.

Um homem muito grande.

Muito calado.

Muito gostoso.

Ok, foco, Lívia.

Lívia mexeu no próprio cabelo, desconfortável. Pigarreou.

— Então… — ela arriscou, apenas para quebrar a tortura sonora do piscar. — Você sempre dirige… assim?

Pedro não desviou o olhar.

— Assim como? — a voz grave, baixa, que vibrava no peito dele e no dela também.

Lívia engoliu.

— Sei lá… como se estivesse transportando plutônio.

A pontinha da boca dele ameaçou um sorriso, mas morreu antes de nascer.

— É só concentração. Pode não parecer, mas eu estou trabalhando. Sei que você já está sabendo de tudo.

— Concentração? — ela ergueu uma sobrancelha, finalmente animada. — E no que você está concentrado agora?

Pedro não hesitou. Não desviou o olhar da estrada. Não mudou o tom. Mas algo no ar mudou.

— Em manter sua amiga viva. — disse com simplicidade mortal.

Silêncio.

A espinha de Lívia arrepiou inteira. Não de medo — do contrário.

— Ah… tá. — Conseguiu dizer, meio engasgada. — É… uma boa prioridade.

Ele inclinou levemente a cabeça, como se tivesse percebido tudo — absolutamente tudo — e estivesse se divertindo em silêncio.

— A segunda prioridade… — acrescentou, com uma calma indecente.

Lívia virou o pescoço tão rápido que quase deslocou.

— Tem segunda?

Pedro finalmente olhou para ela por um segundo. Um segundo apenas.

Um olhar lento. Pesado. Quente.

— Manter você quieta. — disse, sério demais para não estar provocando. — O que é bem mais difícil do que a primeira parte.

Lívia arfou, indignada.

— Eu?! Quieta?! Olha aqui, seu—

— Concentração. — cortou ele, voltando a olhar a estrada. — Você já está atrapalhando.

Ela ficou de boca aberta. A mão apertando o cinto. A pele quente demais. A mente esbarrando em pensamentos que não devia ter ali, às 8 da manhã, num carro em movimento.

— Você é insuportável. — Ela finalmente disse, bufando.

— Eu disse que estava trabalhando. — ele devolveu, num tom quase… quase brincalhão.

Ela até tentou ficar quieta. Tentou real.

Mas havia algo dentro dela — uma espécie de rebeldia genética, impulsividade profissional ou puro instinto de sobrevivência emocional — que simplesmente não aceitava silêncio imposto por macho nenhum.

Então ela soltou:

— Por que você se tornou um segurança?

Pedro não mudou a expressão. Nem piscou. Apenas continuou dirigindo com aquela postura reta, firme, impecavelmente focada.

Mas o silêncio dele, dessa vez, era outro. Mais denso. Menos defensivo.

Lívia percebeu. E isso a deixou ainda mais curiosa.

— Estou perguntando de verdade. — ela continuou, mais suave. — Tipo… ninguém acorda um dia e pensa “vou virar um armário ambulante que salva gente e anda vestido de preto”. Tem história aí. Ou trauma. — acrescentou, inclinando a cabeça. — E eu sou excelente em identificar traumas alheios.

Ele soltou um som baixo. Algo entre um suspiro e um riso contido — como se ela tivesse lhe arrancado uma reação sem permissão.

— Você realmente fala demais. — observou ele.

Ela piscou, ofendida.

— Isso é um problema pra você?

— Tô avaliando. — disse, sem emoção. — Ainda não decidi se é irritante… ou só barulho.

Lívia apertou os olhos, indignada.

— Se isso é seu jeito de flertar, você precisa urgentemente de consultoria.

Pedro virou o rosto só meio centímetro, como se ela tivesse jogado algo inesperado no colo dele.

— Ninguém aqui está flertando. — afirmou, sério demais.

— Claro. — ela cruzou os braços. — Você só está insinuando que minha personalidade é um ruído ambiente.

— Eu não insinuei. — corrigiu. — Eu falei.

Lívia arregalou os olhos.

— Meu Deus, você é impossível!

Pedro finalmente soltou um suspiro — não de irritação, mas de divertimento contido. Era quase imperceptível, mas estava lá. E aquilo deixou um calorzinho estranho dentro dela.

— Eu só falei a verdade. — continuou ele, calmamente. — Você fala muito.

— Falo mesmo. — ela respondeu, erguendo o queixo. — E sabe por quê?

— Por quê? — ele perguntou com uma calma que era praticamente uma provocação sexual.

— Porque alguém precisa preencher o silêncio mortal provocado pela sua presença.

Ele virou lentamente o rosto na direção dela. Muito lentamente. Os olhos castanhos dele encontraram os dela — silenciosos, intensos, fundos demais.

— Minha presença te incomoda? — perguntou, num tom tão neutro que era quase perigoso.

Lívia abriu a boca para responder com uma piada pronta, sarcástica, afiada. Mas nada saiu. Porque a verdade é que incomodava, sim — no sentido físico, elétrico, instintivo. No sentido que deixava a pele dela quente e a respiração curta. No sentido que fazia ela querer pular pela janela ou pular em cima dele, ainda não tinha decidido.

Ela engoliu e desviou o olhar para a estrada.

— Não é isso. — murmurou, a voz mais baixa que antes. — É só que… você é muito… sei lá…

Capítulo 76 - Dois esboços, uma tela 1

Capítulo 76 - Dois esboços, uma tela 2

Capítulo 76 - Dois esboços, uma tela 3

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