“Alguns lugares são mais que terra: são camadas de quem fomos e de quem podemos ser.”
A mudança na paisagem aconteceu devagar, como se o mundo se abrisse passo a passo para ela. Primeiro, os prédios foram rareando; depois, deram lugar a casas pequenas, espaçadas, cada vez mais distantes umas das outras. E então, de repente, tudo se dissolveu numa imensidão verde que parecia não ter fim.
Helena encostou-se à janela, sentindo o vento brincar com os fios de cabelo que escapavam do lenço. O pano amarrado à nuca balançava suavemente; alguns fios soltos chicoteavam seu rosto de leve, provocando cócegas que a faziam sorrir sem perceber.
Santiago dividia sua atenção entre a estrada e ela — e perdia, sempre, para ela. Havia algo no jeito como ela observava tudo do lado de fora, tão entregue, tão maravilhada, que mexia com ele em lugares que não tinha coragem de confessar. O sorriso dela parecia carregado de luz, sem nenhum vestígio da tensão do dia anterior.
Alívio.
Não completo.
Nunca completo.
Mas suficiente para fazer seu peito respirar um pouco melhor.
Duas horas de estrada e Helena já estava completamente encantada. À direita, um mar branco se estendia até onde a vista alcançava — suave, leve, quase celestial, como se as nuvens tivessem descido do céu para repousar sobre a terra. Uma plantação gigantesca de algodão ondulava ao vento. À esquerda, um manto de sol tecido pela terra, o tapete dourado de uma plantação de trigo.
— Meu Deus… — murmurou ela, incapaz de conter o deslumbre. — É lindo demais.
Santiago sorriu, satisfeito.
Ele virou o carro para uma estrada de terra pouco depois. O veículo avançou por um corredor natural formado pelas copas das árvores silvestres, que se encontravam acima deles, filtrando a luz em manchas douradas sobre o capô. O ar ali era diferente — mais fresco, mais úmido, mais vivo.
Alguns minutos depois, pararam diante de uma porteira imponente. Duas colunas de tijolinhos à vista sustentavam uma cobertura estreita de telhas de barro. No topo, uma placa de madeira esculpida exibia o nome Campos Villar, com curvas representando as plantações e um sol nascendo por trás delas.
Helena arregalou os olhos, surpresa.
— Essa fazenda é sua? — perguntou, virando-se para ele.
Santiago riu, balançando a cabeça.
— Não. — respondeu, com aquela voz rouca e baixa que sempre a desarmava. — É da minha família.
Ele saiu do carro, caminhou até a porteira e a abriu com um empurrão firme. Antes de voltar ao volante, ergueu a mão para Pedro — que vinha logo atrás — sinalizando para que fechasse a entrada depois de passar.
Quando ele entrou novamente e deu partida, Helena ainda o observava com a curiosidade de quem está prestes a descobrir um novo capítulo da vida de alguém.
Ele percebeu — e retomou:
— Essa propriedade era dos meus avós. Quer dizer… ainda é da minha avó, Olívia. — Ele sorriu com ternura ao pronunciar o nome dela. — Meu avô já faleceu, mas quem coordena tudo agora é meu tio Olavo. Irmão do meu pai.
Helena acompanhou o movimento dos olhos dele — a nostalgia suave, a saudade encaixada nos detalhes.
— As plantações pelas quais passamos… fazem parte da fazenda? — perguntou, ainda impressionada.
— Sim. — respondeu ele, com um orgulho discreto, sincero. — São quase trezentos hectares. Bem... era aqui onde eu costumava me esconder quando conseguia fugir das visitas aos museus com meus pais.
Helena deixou escapar um breve assobio de espanto.
Santiago olhou rapidamente para ela — e o sorriso que surgiu era pequeno, mas cheio de significado.
A estrada de terra avançava por mais alguns minutos, revelando pedaços da propriedade como capítulos que se desenrolavam devagar. Helena observava tudo, absorvendo cada detalhe: o cheiro da grama misturado ao de terra molhada, o canto das cigarras, a sombra das copas balançando como véus sobre o caminho.
Quando a sede finalmente surgiu entre as árvores, ela perdeu o fôlego.
A casa era imensa — mas não no sentido frio que ela conhecia das mansões urbanas. Era grande como um abraço antigo. Uma construção térrea e comprida, com portas e janelas de madeira escura, paredes brancas gastas pelo tempo e rosas trepadeiras subindo em curvas ao redor dos pilares. O telhado de barro parecia tingido de um vermelho queimado pelo sol.
Ao lado da casa, uma mangueira gigantesca projetava uma sombra larga, acolhedora, e os galhos se moviam como braços preguiçosos estendidos sobre a terra. Havia um galinheiro distante, um curral à esquerda e, mais ao fundo, silos metálicos reluzindo sob o sol.
Helena ficou sem palavras.
— Santiago… — ela murmurou, a voz embargada. — Isso aqui é… além do bonito.
Ele sorriu. Aquele sorriso curto, de canto, cheio de algo íntimo que ela não sabia nomear.
— Bem-vinda ao meu pedaço favorito do mundo. — disse ele, baixinho.
O carro foi diminuindo a velocidade até parar perto do alpendre. O som do motor morreu, e por um instante só existiam o vento e o canto distante de um galo.
Santiago desligou o carro. Não soltou a mão dela imediatamente. Nem se lembrava de terem as entrelaçado novamente de tão natural que o gesto já lhe parecia.
Helena apenas respirou devagar, sentindo o ar mais puro que já inalou entrar nos pulmões.
— Eu nunca vi nada assim… — disse, quase rindo da própria incapacidade de nomear aquilo. — Já visitei algumas cascinas e baitas na Itália com Ricci, mas… nada se compara a isso.
Santiago observava a expressão dela — como se aquilo fosse mais importante do que o cenário ao redor.
— Eu queria que você visse assim. — disse, sem perceber que estava pensando em voz alta. — Sem medo. Sem tensão. Só… você.
Helena virou o rosto para ele. E naquele segundo — naquele exato segundo — ela soube que nunca tinha sido tão vista de verdade.



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