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Quadros de um divórcio romance Capítulo 78

“Zelar é a forma mais antiga do amor.”

Pedro e Lívia avançavam lado a lado — ou melhor, lado a trancos — enquanto ela resmungava indignada, ele caminhava com a calma irritantemente impassível de quem estava conduzindo uma diplomata explosiva prestes a declarar guerra ao país errado.

Quando chegaram ao alpendre, Olívia abriu um sorriso tão largo que parecia abraçar os dois ao mesmo tempo.

— AH! — exclamou ela, batendo palmas. — Os reforços chegaram!

Lívia tentou abrir um sorriso educado, mas parecia mais alguém prestes a morder um cabo elétrico.

— Reforços é uma palavra ótima — murmurou, lançando um olhar de morte para Pedro.

— Bom dia, senhora. — Pedro cumprimentou com uma reverência respeitosa.

Olívia o analisou de cima a baixo com o olhar clínico de quem avalia cavalos de raça.

— Santo Deus… — disse, piscando os olhos. — Você é grande. Meu neto quase parece um frango perto de você.

Santiago, a alguns passos atrás, gargalhou alto.

Pedro soltou apenas um “sim, senhora”, com expressão neutra.

Lívia não perdeu a oportunidade:

— Grande e silencioso. — comentou, cruzando os braços. — Um perigo real pro sistema nervoso das pessoas.

Olívia arregalou os olhos, encantada.

— Ah, eu gostei dela! — disse, dando tapinhas no ombro de Lívia. — Tem língua afiada e coragem. Isso é tempero de vida.

Pedro lançou um olhar de canto para Lívia, quase um aviso, mas ela só ergueu o queixo, vitoriosa.

— E você, moça bonita, qual seu nome? — perguntou Olívia.

— Lívia Macedo. — respondeu, com orgulho. — Melhor amiga de Helena e advogada.

— Ahhh, então explica muita coisa. — Olívia assentiu com sabedoria teatral. — Conheço bem esse tipo. A gente acorda e já quer brigar com alguém.

Pedro respirou fundo para não rir.

— Só quando alguém merece — rebateu Lívia, olhando de forma muito específica para o homem ao seu lado.

Olívia sorriu como quem acabara de assistir ao primeiro episódio de uma novela promissora.

— Pois muito bem! — disse ela, abrindo os braços. — Entrem, entrem. Acredito que estejam com fome, então vamos tomar um belo café. E, pelo visto, vocês dois vão precisar comer alguma coisa antes que eu tenha que separar uma luta no terreiro.

Pedro e Lívia trocaram um olhar. Um olhar cheio de faísca.

— Isso vai ser divertido — murmurou a avó para si mesma, virando as costas e chamando todos para dentro com passos surpreendentemente ágeis para seu tamanho.

O interior do casarão começou a se revelar — e era como entrar em outra época, em outro mundo.

O piso de tábuas largas rangia sob os pés, carregando histórias em cada estalo. As paredes eram brancas, mas o tempo lhes dera uma tonalidade quente, quase dourada, como se a luz da fazenda tivesse se impregnado ali. Havia fotografias antigas em molduras escuras: casamentos, colheitas, aniversários, retratos de família. Rostos felizes. Rostos já perdidos. Rostos que contavam a história dos Villar muito antes de Santiago nascer.

O cheiro era a primeira coisa que envolvia quem entrava: café passado na hora, pão assando, canela, melado… e alguma coisa defumada que deixava o ar com sabor de afeto antigo.

No centro da copa espaçosa havia uma mesa de madeira maciça, grande o bastante para reunir família, vizinhos, amigos e desconhecidos que chegassem no meio do caminho. As grandes portas abertas pareciam integrar o verde do exterior ao cômodo, criando um espaço que parecia feito para receber, conversar e alimentar corpos e almas cansadas.

Assim que todos atravessaram a porta, Olívia já estava em ação.

Sem pedir ajuda. Sem hesitar. Sem perder o ritmo.

Ela abriu portas, gavetas, panelas, como se estivesse dançando. E num piscar de olhos — literalmente — a mesa começou a se encher como mágica.

Um pão caseiro redondo e dourado, um bolo de fubá com erva-doce cujo o aroma preencheu o ar. Queijo meia cura fresquinho, cortado em triângulos generosos. Goiabada cascão em fatias grossas. Um pote de manteiga caseira tão amarela que parecia sol batido.

Um prato com roscas açucaradas, crocantes por fora e macias por dentro. Compotas de frutas — pêssego, figo e abóbora. E uma garrafa de café forte, quente, recém passado. O tipo de café que acorda até a alma.

Mabe correu para dentro, deslizou nas tábuas e se acomodou ao lado da mesa como se reivindicasse seu lugar no banquete.

Helena parou por um instante, simplesmente… absorvendo.

A mesa. A casa. O cheiro. A atmosfera.

O carinho que transbordava de cada detalhe.

Era acolhimento puro.

Era história viva.

Era um lar que abraçava.

Santiago observava Helena em silêncio — e no olhar dele havia algo suave, profundo, íntimo. Algo que dizia sem palavras: “É isso que eu queria que você sentisse.”

Olívia percebeu, claro. Avós sempre percebem.

— Estão parados por quê? — ela disse, batendo palminhas para chamar a atenção. — Venham, meus filhos! Comam! Aqui ninguém fica de pé quando tem comida na mesa. É falta de educação… e de juízo!

Pedro se aproximou puxado pelo cheiro.

Lívia… abriu um sorriso sincero pela primeira vez naquela manhã.

E a velha mesa da fazenda ganhou novos convidados — e começou a escrever mais uma história.

Olívia servia café em canecas esmaltadas, sem dar tempo a ninguém de recusar.

— Aqui, querida. — disse, enchendo a caneca de Helena até a borda. — Bebe antes que esfrie. Café quente e homem bonito não se deixam esperando.

Santiago tossiu quase se engasgando.

— Vó!

Helena riu tão forte que quase derramou a xícara.

...

Depois de um café da manhã generoso — e com Olívia falando sem parar enquanto empurrava comida nos pratos deles como se alimentasse filhotes — todos foram praticamente expulsos do casarão.

— Agora vão! — ordenou ela, abanando as mãos como quem espanta galinhas. — Quero cozinhar o almoço em paz. Só voltem daqui duas horas, ouviram?

Ninguém ousou contestar.

Mabe, empolgadíssima, saiu disparada como um foguete, desaparecendo entre as árvores.

Helena e Lívia ficaram conversando sob a sombra generosa da mangueira, enquanto Santiago e Pedro permaneciam no alpendre.

Santiago cruzou os braços, olhando o horizonte como alguém que já carregava o peso de uma decisão.

— E então? — perguntou, direto. — Notou alguma coisa estranha na vinda pra cá?

Pedro manteve o olhar firme — aquele olhar que parecia sempre analisar o mundo inteiro em silêncio.

— Não. Nada que indique ameaça. — Tornou a pôr os óculos escuros. — O trajeto estava limpo, ninguém seguiu, nenhum veículo suspeito, nenhuma movimentação incomum. Até onde posso ver, está tudo seguro. Por enquanto.

Santiago assentiu com alívio.

— Então… — ele continuou, abaixando o tom — consegue manter a amiga ocupada por um tempo?

Pedro virou o rosto devagar, encarando-o como quem avalia uma afronta.

— Cara, eu sou segurança, — a voz dele foi grave, baixa, quase ofendida. — não babá de matraca.

Santiago respirou fundo, quase suplicando.

— Quebra essa pra mim? Preciso conversar com a Helena… sozinho.

Pedro bufou — um sopro pesado que poderia muito bem derrubar uma porta.

— Espero que valha a pena, cowboy.

Mas o desagrado dele não parecia completamente verdadeiro.

Santiago percebeu.

O sorriso de canto do segurança o denunciou mais do que qualquer palavra.

Quando voltaram para perto das duas, Lívia ergueu as sobrancelhas como quem aguarda boas notícias.

— E então? — perguntou animada. — O que vamos fazer agora?

Santiago ignorou a expectativa dela e olhou-a como que pedindo compreensão.

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