“Alguns corações protegem antes mesmo de admitir que pertencem.”
Helena o encarava com apreensão — os olhos grandes, tensos.
Então Santiago tomou sua mão na dele. A voz saiu baixa, firme, mas tremendo nas bordas.
— Primeiro… eu quero que você entenda uma coisa. — Ele respirou fundo. — Nada do que eu fiz foi com a intenção de esconder algo de você. Eu só… não queria que você se preocupasse ainda mais.
A expressão dela não mudou de imediato. Mas ela assentiu devagar, incentivando-o a continuar. E ele continuou.
Falou tudo.
Tudo de uma vez.
Quase sem respirar.
Quando terminou, soltou o ar como se tivesse carregado o peso do mundo por semanas.
— E é isso. — murmurou, observando cada nuance do rosto dela, desesperado para adivinhar o que se formava ali.
Helena, porém, não falou. Nem se mexeu. Apenas desviou o olhar para o horizonte — a testa levemente franzida, o semblante fechado. Ele sentiu o coração se partir um pouco, como se estivesse rachando no ritmo lento da respiração dela.
Mas não ousou quebrar o silêncio.
Ela ainda estava nas mãos dele. Ainda encostada de lado em seu peito. Ele ainda sentia o perfume suave dos cabelos dela.
O silêncio durou longos minutos. Minutos que doeram.
Até que, finalmente, ela falou — ainda olhando para a imensidão à frente, como se aquele ponto distante a ajudasse a ordenar o caos dentro de si.
— Então… aquele carro não foi mesmo coincidência? — perguntou com a voz mais baixa, quase neutra.
— Não. — respondeu ele, firme. — A gravação mostra o carro chegando logo após você. Ele esperou você sair… e acelerou quando teve linha livre.
— E não tem como identificar quem estava dirigindo?
Santiago balançou a cabeça. — Infelizmente, não.
Ela respirou, lenta, pesada.
— E havia alguém me observando do sobrado vizinho… — continuou, agora juntando as peças. — Um sobrado que você comprou para montar um tipo de… “esconderijo secreto”?
Ele fez uma cara de “é… mais ou menos isso”, contendo o sorriso torto de quem sabe que a expressão é ridícula, mas verdadeira.
Helena engoliu seco.
— E o Pedro… é um segurança que você contratou?
Santiago assentiu.
— E além dele existe um detetive. Seu amigo. Como é mesmo o nome?
— Marcelo. — respondeu ele, tenso.
— Marcelo. — repetiu ela, como se saboreasse o nome para entender o alcance da situação. — Ele não só investigou o que aconteceu com o carro… como também está investigando o Cássio?
Santiago confirmou novamente.
Helena apertou os lábios, absorvendo tudo.
E então, por fim:
— E você… não me contou porque não queria me preocupar. É isso?
Santiago abaixou a cabeça — o gesto de alguém que se expõe, que admite, que aceita a culpa antes de ser julgado.
— É isso. — disse, quase num sussurro.
O coração dele batia tão rápido que Helena conseguia senti-lo vibrar contra suas costas — um ritmo irregular, urgente, quase desesperado. Santiago se manteve imóvel, sem ousar apertar mais a mão dela, como se qualquer gesto pudesse romper aquela tênue linha que os conectava.
O silêncio dela se estendeu. Longo demais. Doloroso demais.
Até que ele não aguentou mais. A voz saiu baixa, rouca, fragilizada:
— Então… quanto você está decepcionada comigo?
Helena virou o rosto devagar, mordeu o lábio inferior enquanto buscava palavras que pareciam não querer se apresentar. O olhar dela estava tão indecifrável que o estômago de Santiago se contraiu.
Ela abaixou os olhos para as mãos entrelaçadas — como se aquela imagem ajudasse a organizar o caos dentro dela — e finalmente falou:
— Eu confesso que gostaria de ter sabido desde o início. — A voz saiu calma, mas havia um fio de dor ali, fino e afiado. — Eu estava andando por aí como um alvo ambulante sem nem ter ciência disso. Eu sei que, se tivesse me contado antes, eu provavelmente teria pirado… ficado paranoica… ou até fugido do país. — Ela soltou um riso fraco, quase triste. — Mas, ainda assim, eu preferiria saber.
Santiago sentiu o chão sumir.
Precisou perguntar. Precisou ouvir — mesmo que o destruísse.
— Você me odeia?
Helena ergueu os olhos e o encarou.
Um olhar profundo.
Demorado.
Intenso ao ponto de deixá-lo sem ar.
A garganta dele se fechou. Tentou engolir, mas não conseguiu — a voz não sairia se tentasse novamente.
Quando ela finalmente falou, foi em um tom suave… e devastador:
— Não. — Ela respirou fundo, enchendo os pulmões com uma calma calculada, como se precisasse desse ar para ancorar a si mesma. — Você estava… cuidando de mim. — Os lábios dela tremeram um pouco, mas o sorriso veio. — Por que eu te odiaria por isso?
Ele não suportou a distância que ainda existia entre eles. Levou as duas mãos ao rosto dela, segurando-o com a delicadeza de quem teme que ela desaparecesse caso não a segurasse. O hálito dele roçou o dela. Helena podia jurar que os olhos dele brilharam — umedeceram.
— Então você me perdoa? — A voz dele saiu pequena, implorante, honesta demais para ser escondida.
Ela segurou o suspense por um segundo — só um segundo, mas suficiente para o coração dele parar — antes de assentir com um sorriso pequeno, mas muito real.
Santiago soltou o ar como quem reaprende a respirar. Mas Helena não tinha terminado. Ela ergueu o rosto, procurando os olhos dele — e a pergunta veio como um sussurro que atravessou todo o ar entre eles:
— Eu só não entendo… — disse, devagar, o olhar queimando o dele. — Por que você fez isso? No dia do carro… nós nem tínhamos nos envolvido ainda. Então... por quê?
O silêncio que seguiu não era vazio. Era pulsante. Era cheio de algo que ele vinha escondendo há muito mais tempo do que ela imaginava. Mas ele não queria confessar tudo agora. Não ainda. Não daquele jeito.
Não quando parecia que qualquer palavra mais honesta poderia fazê-lo parecer um louco que guardou o que sentia por tempo demais.

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