"Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira." Cecília Meireles
Helena repousou a cabeça no peito dele, e Santiago a envolveu com os braços como se aquele gesto fosse tão natural quanto respirar. Uma das mãos dele deslizava devagar pelo braço dela — para cima, para baixo — num afago lento, constante, quase hipnótico. O ritmo era tranquilo, sem pressa, e transmitia uma paz antiga… como se aquele abraço fosse algo que tivessem praticado a vida inteira, mesmo que só existisse há poucos dias.
Havia um conforto ali. Um pertencimento suave, silencioso, perigoso.
E talvez fosse exatamente essa sensação — tão boa, tão plena — que fazia o medo latejar no peito de Helena. Ela já tinha acreditado demais no passado. Já tinha se enganado demais. A ideia de se entregar outra vez, de abrir o coração e sangrar, a apavorava mais do que qualquer outra coisa naquele momento.
Santiago sabia disso. Sentia isso. Ele percebeu a hesitação dela desde o primeiro dia. E, dentro dele, havia um voto silencioso — quase sagrado: ser paciente. Ser digno. Ser alguém que ela pudesse confiar sem medo.
Na posição em que estavam, o nariz dele estava enterrado nos fios do cabelo dela, e o cheiro suave o preenchia com uma paz que ele não lembrava de já ter sentido. A respiração dele encostava na têmpora dela, quente, lenta, firme.
Depois de permanecerem assim por muito tempo, no tipo de silêncio que só existe entre dois corações que finalmente encontraram descanso um no outro, Helena voltou ao assunto que pairava na cabeça dela desde antes do beijo.
— Se o Marcelo está investigando o Cássio… — ela começou, sem levantar a cabeça — …é porque vocês acham que ele é o responsável?
Santiago fechou os olhos por um instante. Ele sabia que aquela pergunta era uma ferida em aberto. Por mais que ela afirmasse que não sentia mais nada pelo ex-marido, imaginar que alguém com quem dividiu cinco anos pudesse desejar sua morte… era cruel. Era pesado. Afinal, cinco anos não são cinco dias.
Ele não queria ser o homem que arrancaria dela a última camada de segurança emocional que ainda restava. Como ele demorou a responder, Helena achou que isso era pior do que qualquer confirmação.
— Aquilo aconteceu antes do evento — ela continuou, agora raciocinando em voz alta. — Ele ainda nem sabia que eu tinha dado entrada no divórcio. Ainda me usava para os projetos. Não seria inteligente fazer algo assim. — Ela suspirou. — E… apesar de tudo… apesar de ele ser um canalha… eu não acredito que seja um assassino.
O silêncio pairou mais um segundo, até que Santiago finalmente falou, na tentativa de aliviar o peso que ela carregava:
— Marcelo acha a mesma coisa. — admitiu ele, com sinceridade. — Que Cássio não seria burro o bastante para fazer algo desse tipo.
Helena ergueu um pouco o rosto, não o suficiente para encará-lo, mas apenas o bastante para que ele sentisse a respiração dela mais forte em sua clavícula.
— Mas se não for ele… — ela murmurou, a voz quebrando no meio — …então quem? Eu nunca tive inimizade com ninguém. Tá, eu nunca me dei bem com a família dele. Ou com os amigos dele. Mas… nada que justificasse alguém me querer morta.
Santiago deslizou os dedos pela nuca dela, um gesto que era para acalmá-la, mas que também revelava sua própria inquietação.
— Eu não sei. — disse ele, baixinho, a voz carregada de uma sombra que denunciava que ele também pensava nisso. — Mas vamos descobrir.
Ele fez uma pausa breve. O vento passou entre as folhas acima deles, criando um sussurro que parecia responder antes dele mesmo.
— E… — continuou — … algo me diz que tem alguma coisa por trás disso tudo. Algo que ainda não estamos vendo.
Helena sentiu um arrepio que não tinha nada a ver com o vento, ergueu a cabeça devagar e o encarou. Os olhos dela estavam cheios de dúvidas, medos e perguntas que ainda não tinham nome. Santiago sentiu o peito apertar com aquela vulnerabilidade tão sincera — e tão rara.
Ele elevou a mão e afastou delicadamente os fios rebeldes que tinham se soltado do lenço, acariciando o rosto dela com a ponta dos dedos. O toque era suave, mas firme o suficiente para que ela sentisse a segurança na pele, no gesto, no silêncio entre eles.
— Não se preocupe — murmurou. — Eu não vou deixar nada de ruim acontecer com você.
Havia tanta convicção na voz dele. Tanta certeza. Tanta promessa silenciosa. Helena sentiu algo dentro dela se aquietar — uma parte que estava em alerta desde o dia em que tudo começou. O conforto que ele despertava nela era quase surreal. Mas, ao mesmo tempo, aterrorizante. Sua liberdade recém conquistada ainda parecia frágil, uma bolha de sabão bela e perfeita… até ser estourada brutalmente pelos acontecimentos recentes.
Ela tentou brincar, escondendo o tremor emocional atrás de um sorriso:
— Você é meu herói, é? — perguntou. — Um herói particular?
O sorriso dele curvou apenas um lado da boca — aquele sorriso torto que parecia carregado de um tipo raro de sinceridade.
— Eu sou o que você quiser que eu seja. — respondeu, a voz grave, baixa, prometendo muito mais do que ele dizia.
Helena sentiu o calor subir pelo rosto. Antes que pudesse pensar em responder, Santiago inclinou-se para frente. A mão dele deslizou para a curva da mandíbula dela, puxando-a com uma delicadeza intensa. Os lábios dele encontraram os dela como se já soubessem exatamente como se encaixar.
O beijo foi lento no começo, depois mais profundo, mais urgente, mais faminto dos dois lados. As mãos de Helena subiram para o pescoço dele, puxando-o para mais perto. Ele a virou e puxou-a para seu colo, com uma perna dobrada de cada lado. O corpo dela se moldou ao dele com facilidade, como se fosse onde sempre deveria ter estado.
Ele sorriu contra a boca dela antes de beijá-la outra vez. Longo. Quente. Terno. Intenso.
Não sabiam quanto tempo ficaram assim — apenas sentindo, respirando, existindo um no outro. O mundo inteiro parecia ter parado.
Foi o sino da fazenda — ecoando longínquo, cortando o ar como um lembrete da realidade — que finalmente os obrigou a se afastar.
Santiago suspirou, frustrado, encostando a testa na dela uma última vez antes de soltar.
— Acho que está na hora de voltarmos. — disse com um pesar tão evidente que Helena riu baixinho. Os olhos dele ainda tinham aquela intensidade que a desestabilizava por dentro.
Ela assentiu, relutante. Ele se levantou com ela ainda em seu colo, colocando-a de pé em seguida.
A luz ali em cima parecia mais bonita que em qualquer outro lugar — quente, dourada, tingindo a pele de Helena como se tivesse sido projetada só para ela. Talvez por isso Santiago sentiu aquela súbita urgência suave no peito.
— Posso tirar algumas fotos suas? — perguntou, meio tímido, meio ansioso, como se temesse ouvir um não.
Helena olhou ao redor — o vale aberto, o rio prateado serpenteando lá embaixo, o céu se espraiando em tons claros — e depois olhou para ele. Seria realmente uma pena deixar aquele lugar sem levar nada além da memória. Então assentiu com um sorriso pequeno.
Quando Santiago ergueu o celular, ela sentiu-se um pouco exposta — não acostumada a ser observada assim, com tanta atenção. Endireitou a postura sem perceber.
— Sorria — pediu ele, baixinho.
Ela sorriu. E Santiago… esqueceu de respirar.
Por alguns segundos, ele permaneceu ali, estático, preso na imagem dela capturada pela tela — como se a foto já estivesse perfeita mesmo antes de ser tirada. Helena riu, tímida, empurrando uma mecha atrás da orelha.
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