"Alguns encontros são sementes. O resto… é tempo, coragem e a delicadeza de saber esperar a estação certa."
O quadriciclo desacelerou até parar diante do galpão, o motor vibrando como um ronronar preguiçoso antes de morrer por completo. Helena retirou o capacete, ainda sorrindo com a adrenalina, enquanto Santiago descia primeiro para abrir a grande porta de madeira.
O barulho das dobradiças ecoou pelo espaço.
O interior do galpão estava tomado pelo cheiro de óleo, madeira antiga e sol quente filtrado por frestas altas. Os dois quadriciclos que Pedro e Lívia tinham usado já estavam alinhados ali dentro — o que significava que eles haviam voltado antes.
Helena franziu a testa.
— Estranho… — murmurou. — Eles deviam estar aqui fora.
Foi então que um pequeno ruído abafado veio de trás de prateleiras cheias de ferramentas e caixas antigas.
Santiago ergueu uma sobrancelha.
— Isso soa… suspeito.
Helena deu um passo à frente, aprumando a voz:
— Lívia?
Silêncio.
E então — passos rápidos. Dois.
Lívia surgiu primeiro, praticamente saltando de trás das prateleiras, corada até as orelhas. Ela alisou a blusa e ajeitou os cabelos com precisão desesperada, pigarreando como se tentasse engolir uma explicação inteira de uma vez só.
Atrás dela, Pedro apareceu com toda a calma do mundo. Mãos nos bolsos. A expressão neutra de sempre. Se não fosse pelo — muito, muito suspeito — sorrisinho de canto.
Helena precisou morder o lábio para não gargalhar.
— Vocês… — ela começou, tentando manter o tom neutro — …se divertiram?
Lívia abriu a boca. Fechou. Abriu de novo. Nenhum som saiu.
Pedro, por outro lado, fez um breve assentimento muito educado:
— Foi… produtivo.
Helena desviou o olhar para Santiago, que parecia à beira de explodir num riso alto.
— Produtivo. — repetiu Helena, saboreando a palavra. — Interessante.
Lívia, então, balançou as mãos no ar, nervosa:
— NÃO que tenha acontecido alguma coisa! — disse rápido demais, a voz fina e estridente. — Acontecer o quê? Não tem nada pra acontecer! Não tinha nem espaço ali atrás! Nem luz!
Pedro olhou para o teto, contendo descaradamente um riso.
— Eu concordo. — disse ele, calmo. — Não tinha luz suficiente.
Lívia arregalou os olhos para ele, escandalizada.
— PEDRO!
Santiago se apoiou na porta, rindo alto.
— Meu Deus, eu amo esse lugar. — murmurou, limpando uma lágrima imaginária.
Helena cruzou os braços, divertida até a alma.
— Bom… fico feliz que tenham… explorado o galpão.
— Ninguém explorou nada! — protestou Lívia, ofendida e ainda coradíssima. — Eu só… tropecei! Aí ele me segurou! Aí… a prateleira caiu um pouco! Mas ninguém encostou em ninguém!
(Um silêncio pesado caiu por um segundo.)
— Quer dizer… não muito!
Pedro soltou finalmente o sorriso completo — aberto, bonito, devastador — o tipo de sorriso que destruía a imagem séria e silenciosa dele em segundos.
Lívia simplesmente levou a mão à testa.
— Me enterra viva, Senhor. — murmurou.
Helena deu um passo para o lado, abraçou a amiga pelos ombros e sussurrou:
— Só por curiosidade… a arma dele é grande?
Lívia virou um tomate inteiro.
— EU NÃO VOU RESPONDER ISSO!
O que, claro, era resposta suficiente.
Helena riu alto fazendo a amiga provar do próprio veneno.
Santiago bateu palmas, mudando o foco:
— Bom… a vovó vai nos matar se não formos almoçar. Vamos?
Olívia os aguardava sorrindo.
A mesa estava novamente lotada: travessas fumegantes de arroz soltinho, feijão cremoso, frango ensopado com quiabo, uma salada colorida salpicada de cheiro-verde, farofa crocante com pedaços generosos de bacon, legumes tostados no forno e uma panela de barro com costelinha que parecia derreter só de olhar.
O cheiro — santo Deus — era quase um abraço.
Todos se serviram com entusiasmo, e em poucos minutos o único som era o tilintar dos talheres e alguns suspiros satisfeitos.
Mas algo chamava atenção. Lívia, a falante, a elétrica, a que preenchia silêncios com comentários afiados… estava quieta. Inacreditavelmente quieta.
Sentava-se com a postura rígida, concentradíssima no próprio prato como se estivesse prestando um exame de concurso público. De vez em quando, arriscava um olhar furtivo para o lado — rápido demais, cuidadoso demais — na direção de Pedro.
Pedro, por sua vez, comia sorrindo. SORRINDO.
Um sorriso discreto, quase contido, mas ainda assim um sorriso tão… feliz… que destoava completamente do habitual tom resguardado e quase rabugento dele.
Olívia, é claro, não perdeu nada.
— Ah, meus filhos… — suspirou ela teatralmente. — Do jeito que vocês estão, eu já tô vendo as alianças chegando pela porta.
Lívia engasgou com o suco.
Pedro pigarreou tão forte que quase virou o próprio pulmão do avesso. Ele endireitou a postura imediatamente, recompondo-se como se tivesse sido pego no flagra por um coronel.
— Com todo respeito, dona Olívia… — disse ele, cerimonioso. — Isso não vai a lugar nenhum.
Olívia bateu a mão na mesa, rindo.
— Ninguém disse que vai, meu filho. Mas dá pra ver daqui lá da estrada que você não tirou os olhos da moça desde que chegaram!
O garfo de Pedro congelou no ar.
Lívia, que até então estava em estado de choque, finalmente encontrou sua voz — e, junto com ela, o sorriso vitorioso de quem acaba de ganhar um processo na Suprema Corte.
— A-HA! Eu sabia!
Pedro tentou recuperar o tom sério, mas a ponta das orelhas estava completamente vermelha.
— Não tem nada pra saber. — resmungou.
— Cala a boca. — respondeu Lívia, rindo sem conseguir esconder a satisfação.
E assim recomeçou a guerra declarada: pequenas farpas, provocações afiadas, olhares semicerrados, mas tudo não passava de teatro, porque só quem não prestava atenção não via o resto.



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