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Quadros de um divórcio romance Capítulo 81

"Alguns encontros são sementes. O resto… é tempo, coragem e a delicadeza de saber esperar a estação certa."

O quadriciclo desacelerou até parar diante do galpão, o motor vibrando como um ronronar preguiçoso antes de morrer por completo. Helena retirou o capacete, ainda sorrindo com a adrenalina, enquanto Santiago descia primeiro para abrir a grande porta de madeira.

O barulho das dobradiças ecoou pelo espaço.

O interior do galpão estava tomado pelo cheiro de óleo, madeira antiga e sol quente filtrado por frestas altas. Os dois quadriciclos que Pedro e Lívia tinham usado já estavam alinhados ali dentro — o que significava que eles haviam voltado antes.

Helena franziu a testa.

— Estranho… — murmurou. — Eles deviam estar aqui fora.

Foi então que um pequeno ruído abafado veio de trás de prateleiras cheias de ferramentas e caixas antigas.

Santiago ergueu uma sobrancelha.

— Isso soa… suspeito.

Helena deu um passo à frente, aprumando a voz:

— Lívia?

Silêncio.

E então — passos rápidos. Dois.

Lívia surgiu primeiro, praticamente saltando de trás das prateleiras, corada até as orelhas. Ela alisou a blusa e ajeitou os cabelos com precisão desesperada, pigarreando como se tentasse engolir uma explicação inteira de uma vez só.

Atrás dela, Pedro apareceu com toda a calma do mundo. Mãos nos bolsos. A expressão neutra de sempre. Se não fosse pelo — muito, muito suspeito — sorrisinho de canto.

Helena precisou morder o lábio para não gargalhar.

— Vocês… — ela começou, tentando manter o tom neutro — …se divertiram?

Lívia abriu a boca. Fechou. Abriu de novo. Nenhum som saiu.

Pedro, por outro lado, fez um breve assentimento muito educado:

— Foi… produtivo.

Helena desviou o olhar para Santiago, que parecia à beira de explodir num riso alto.

— Produtivo. — repetiu Helena, saboreando a palavra. — Interessante.

Lívia, então, balançou as mãos no ar, nervosa:

— NÃO que tenha acontecido alguma coisa! — disse rápido demais, a voz fina e estridente. — Acontecer o quê? Não tem nada pra acontecer! Não tinha nem espaço ali atrás! Nem luz!

Pedro olhou para o teto, contendo descaradamente um riso.

— Eu concordo. — disse ele, calmo. — Não tinha luz suficiente.

Lívia arregalou os olhos para ele, escandalizada.

— PEDRO!

Santiago se apoiou na porta, rindo alto.

— Meu Deus, eu amo esse lugar. — murmurou, limpando uma lágrima imaginária.

Helena cruzou os braços, divertida até a alma.

— Bom… fico feliz que tenham… explorado o galpão.

— Ninguém explorou nada! — protestou Lívia, ofendida e ainda coradíssima. — Eu só… tropecei! Aí ele me segurou! Aí… a prateleira caiu um pouco! Mas ninguém encostou em ninguém!

(Um silêncio pesado caiu por um segundo.)

— Quer dizer… não muito!

Pedro soltou finalmente o sorriso completo — aberto, bonito, devastador — o tipo de sorriso que destruía a imagem séria e silenciosa dele em segundos.

Lívia simplesmente levou a mão à testa.

— Me enterra viva, Senhor. — murmurou.

Helena deu um passo para o lado, abraçou a amiga pelos ombros e sussurrou:

— Só por curiosidade… a arma dele é grande?

Lívia virou um tomate inteiro.

— EU NÃO VOU RESPONDER ISSO!

O que, claro, era resposta suficiente.

Helena riu alto fazendo a amiga provar do próprio veneno.

Santiago bateu palmas, mudando o foco:

— Bom… a vovó vai nos matar se não formos almoçar. Vamos?

Olívia os aguardava sorrindo.

A mesa estava novamente lotada: travessas fumegantes de arroz soltinho, feijão cremoso, frango ensopado com quiabo, uma salada colorida salpicada de cheiro-verde, farofa crocante com pedaços generosos de bacon, legumes tostados no forno e uma panela de barro com costelinha que parecia derreter só de olhar.

O cheiro — santo Deus — era quase um abraço.

Todos se serviram com entusiasmo, e em poucos minutos o único som era o tilintar dos talheres e alguns suspiros satisfeitos.

Mas algo chamava atenção. Lívia, a falante, a elétrica, a que preenchia silêncios com comentários afiados… estava quieta. Inacreditavelmente quieta.

Sentava-se com a postura rígida, concentradíssima no próprio prato como se estivesse prestando um exame de concurso público. De vez em quando, arriscava um olhar furtivo para o lado — rápido demais, cuidadoso demais — na direção de Pedro.

Pedro, por sua vez, comia sorrindo. SORRINDO.

Um sorriso discreto, quase contido, mas ainda assim um sorriso tão… feliz… que destoava completamente do habitual tom resguardado e quase rabugento dele.

Olívia, é claro, não perdeu nada.

— Ah, meus filhos… — suspirou ela teatralmente. — Do jeito que vocês estão, eu já tô vendo as alianças chegando pela porta.

Lívia engasgou com o suco.

Pedro pigarreou tão forte que quase virou o próprio pulmão do avesso. Ele endireitou a postura imediatamente, recompondo-se como se tivesse sido pego no flagra por um coronel.

— Com todo respeito, dona Olívia… — disse ele, cerimonioso. — Isso não vai a lugar nenhum.

Olívia bateu a mão na mesa, rindo.

— Ninguém disse que vai, meu filho. Mas dá pra ver daqui lá da estrada que você não tirou os olhos da moça desde que chegaram!

O garfo de Pedro congelou no ar.

Lívia, que até então estava em estado de choque, finalmente encontrou sua voz — e, junto com ela, o sorriso vitorioso de quem acaba de ganhar um processo na Suprema Corte.

— A-HA! Eu sabia!

Pedro tentou recuperar o tom sério, mas a ponta das orelhas estava completamente vermelha.

— Não tem nada pra saber. — resmungou.

— Cala a boca. — respondeu Lívia, rindo sem conseguir esconder a satisfação.

E assim recomeçou a guerra declarada: pequenas farpas, provocações afiadas, olhares semicerrados, mas tudo não passava de teatro, porque só quem não prestava atenção não via o resto.

Capítulo 81 - Sobreposições de afeto 1

Capítulo 81 - Sobreposições de afeto 2

Capítulo 81 - Sobreposições de afeto 3

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