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Quadros de um divórcio romance Capítulo 82

“Se a vida fosse um quadro, certamente teria umas pinceladas tortas e um casal tropeçando nas cores.”

A tarde avançou preguiçosa, dourada, e todos decidiram passear juntos pela propriedade. Olívia foi à frente, conduzindo o grupo com a alegria de quem conhece cada centímetro daquela terra e faz questão de exibi-la.

Passaram pelos estábulos, onde o cheiro de feno fresco se misturava ao sol quente. Santiago assobiou — um som curto, certeiro — e, poucos segundos depois, um alazão surgiu correndo, crina ao vento, como se tivesse reconhecido o dono no mesmo instante.

Helena abriu um sorriso encantado.

— Meu Deus… ele é lindo.

Santiago meteu a mão no bolso, tirando um torrão de sal amarrado a uma fita com a naturalidade de quem faz aquilo todos os dias.

— Você vai estragar esse cavalo — reclamou Olívia lá de trás. — Mima esse bicho mais do que muita gente mima filho.

— Ele merece — Santiago retrucou, oferecendo o sal ao animal, que aceitava com a doçura de um gato gigante com corpo de cavalo.

Helena se aproximou devagar, tocando a testa macia do alazão. Era impressionante como o cavalo tinha o mesmo olhar dele — firme, inteligente, gentil.

— Ele parece com você — ela comentou, sem pensar muito.

Santiago sorriu de canto, satisfeito.

— Você já andou a cavalo? — ele perguntou, e havia ali um brilho no olhar, quase um convite.

— Nunca — confessou Helena.

Ele abriu a boca, Helena sabia que um “posso te ensinar” estava prestes a sair, mas Olívia foi mais rápida, atravessando o momento como um raio.

— Nem pense nisso, Santiago Villar. — Decretou ela, apontando o dedo. — Você já monopolizou essa menina mais do que devia hoje. Agora vamos colher fruta.

Santiago lançou um olhar quase indignado.

— Vó…

— Sem discussão. — Ela bateu palmas. — E é bom mesmo que vocês fiquem devendo essa cavalgada. Assim já têm motivo pra voltar.

O pomar era um espetáculo de cores. Pés de pêssegos tão maduros que perfumavam o ar antes mesmo de serem tocados. Laranjeiras carregadas. Galhos de amoreira tingindo o chão com pequenos pontos roxos. E, reinando no centro como uma guardiã antiga, uma jabuticabeira gigantesca, com tronco escuro e frutos tão grandes que pareciam impossíveis.

Logo todos estavam colhendo algo. Helena tocava os pêssegos com cuidado, como se temesse machucá-los. Santiago se aproximou sorrateiro, segurando uma jabuticaba enorme entre os dedos.

— Experimenta — murmurou.

Antes que ela pudesse protestar, ele encostou a fruta nos lábios dela, rápido, escondido atrás da sombra da árvore. Helena corou, mas abriu a boca e aceitou. O doce explodiu na língua.

— Está me estragando — ela sussurrou.

— Melhor que sal — ele riu.

Do outro lado do pomar, Pedro estava trepado na jabuticabeira. Literalmente. A pedido de Olívia, que apontava galhos como uma arquiteta apontando para obras.

— Aquele! Não, o outro! Não, mais pra cima! Meu filho, você não tem perna? Sobe direito!

Lívia cruzou os braços, olhando pra cima com zelo disfarçado e irritação explícita.

— Cuidado pra não cair, hein. — gritou.

— Tá me rogando praga?

Ela revirou os olhos.

Quando ele finalmente desceu com uma boa quantidade de jabuticabas, mal teve tempo de se estabilizar. Um ganso temperamental veio disparado na direção dele grasnando como se tivesse recebido ordem de ataque.

— MAS QUE—?!

Pedro deu um pulo para trás, a expressão chocada se dissolvendo em puro pânico. E então… ele correu. Correu como se estivesse fugindo de uma granada prestes a explodir. O ex-militar imponente, treinado, sério, disciplinado… fugindo de um ganso.

O pomar explodiu em gargalhadas.

Lívia segurou a barriga, dobrada de tanto rir.

— PEDRO! — ela gritava entre risadas. — ELE TEM DOIS QUILOS!

— DOIS QUILOS E UM DEMÔNIO! — Pedro retrucou, subindo num toco de madeira como se fosse o último território seguro do planeta.

Olívia aplaudia como se assistisse a um show.

O ganso continuava furioso.

Foi Lívia quem tomou a frente, ainda rindo, ainda zombando, mas indo mesmo assim, porque é claro que ela iria.

— Vem cá, valentão — provocou ela. — Se esconde atrás de mim, vai. Mas depois não reclama.

Pedro desceu devagar do toco, ainda desconfiado do ganso, e ficou ao lado dela com uma dignidade completamente destruída.

— Não fala nada — pediu ele.

— Eu? — Lívia sorriu, os olhos brilhando. — Jamais.

Claro que falaria para sempre. E ele sabia disso.

Santiago e Helena riam tanto que tinham até lágrimas nos olhos.

Quando o ganso finalmente perdeu o interesse e se afastou com ar altivo — como se tivesse vencido uma batalha épica — Pedro recuperou o fôlego, as mãos ainda nos joelhos. Lívia, ao lado dele, segurava o riso como quem segura uma panela fervendo: mal conseguia manter fechada.

— Eu podia ter lidado com ele. — murmurou Pedro, a dignidade tentando se reconstruir tijolinho por tijolinho.

— Claro que podia. — respondeu Lívia, batendo no ombro dele. — Você só… decidiu não traumatizar o bichinho. Eu entendi.

Santiago riu alto.

— “Bichinho” é bondade demais.

Olívia um dos cestos grandes de frutas e levantou-o com uma força surpreendente para alguém do seu tamanho.

— Vamos, meus filhos! — chamou ela. — O sol já tá virando sombra. Hora de voltar antes que os mosquitos pensem que vocês são o jantar.

Todos começaram a caminhar juntos de volta pela trilha estreita entre os pomares.

Pedro caminhava ao lado de Lívia. Ela continuava provocando.

— Você correu mesmo, hein?

— Não exagere. — respondeu ele, seco. — Aquele ganso era atípico.

— Claro que era. Um ganso ninja. — ela riu.

Ele olhou de canto para ela, e um sorriso quase invisível surgiu — um desses raros sorrisos que surgem quando a pessoa não percebe que está sorrindo. Lívia viu. E ficou muito quieta por três segundos inteiros, surpresa por gostar tanto de ver aquilo.

...

Quando chegaram ao casarão, o céu já começava a mostrar traços alaranjados e rosados, como se alguém tivesse passado um pincel molhado sobre o horizonte. O ar era fresco, e o som dos insetos começava a preencher a atmosfera com um zumbido suave.

Capítulo 82 - Uma maleta de pintura 1

Capítulo 82 - Uma maleta de pintura 2

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