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Quadros de um divórcio romance Capítulo 83

"A prudência é a mais vigilante e a mais segura das virtudes." François de La Rochefoucauld

Quando retornaram, Olívia os esperava no alpendre, sentada em sua cadeira de madeira, balançando devagar como se estivesse embalando o final de um dia longo e perfeito.

Mabe disparou entre eles, correndo em zigue-zague de pura animação.

— Olha essa criatura! — riu Olívia. — Parece que tomou café com açúcar.

Santiago abriu um sorriso cansado e feliz.

— Ela amou o passeio. — comentou.

Mabe correu direto até Olívia, deitando de barriga para cima, como quem exige carinho imediato. A senhora, rindo, se inclinou com dificuldade para coçar sua pança.

— Você sim sabe aproveitar, menina — falou para a cadela, que abanou o rabo como resposta.

Helena, observando a cena, sentiu o peito aquecer.

— Já vão? — perguntou ela, com aquela voz doce que sempre parecia um convite para ficar só mais um pouquinho.

Santiago se aproximou e se agachou ao lado dela, apoiando a mão no braço da cadeira.

— Amanhã cedo tenho reunião, vó. — disse, com um pesar evidente no rosto.

Ela não segurou o suspiro.

— A vida põe coleira demais na gente… — resmungou, mas apertou a mão dele com carinho. — Ainda bem que vocês vieram hoje. Encheram a casa de vida.

Helena aproximou-se com um sorriso cheio de gratidão.

— Obrigada por tudo, dona Olívia. Foi um dia… maravilhoso.

A senhora segurou as duas mãos de Helena entre as suas, firmes, pequenas e cheias de histórias.

— Você volte, menina. — disse com a sinceridade crua de quem não desperdiça palavras. — E me faça o favor de cuidar bem do meu neto.

Helena sentiu o calor subir ao peito e recebeu um abraço apertado dela.

Lívia também recebeu um abraço de Olívia, surpresa e rindo com o aperto inesperado.

— Se comporte, moça. — avisou a avó, estreitando os olhos. — E pare de provocar esse menino. Ele é sensível.

Pedro, atrás, arregalou os olhos como se tivesse sido atingido por uma flecha.

— Eu… sensível? Mas, eu...

— Silêncio. — decretou Olívia com autoridade. — Todo grandão é sensível. Fato da natureza.

Lívia se virou devagar para Pedro, o sorriso se abrindo lento como o de um gato que achou um segredo precioso.

— Sensível, é?

— Nem começa. — rosnou ele indignado.

Depois das despedidas e das recomendações de Olívia — que incluíram potes de doce, um saco de frutas, bolo de fubá e dois pedaços de queijo escondidos para "a fome da estrada" — o grupo seguiu para os carros.

Já dentro do veículo, com Helena ao lado, Santiago olhou pelo retrovisor uma última vez. Lá estava a avó, pequena na varanda, abanando a mão com o sorriso de quem carrega o mundo inteiro no peito.

Helena percebeu algo no olhar dele — um brilho suave, profundo, quase menino.

— Você ama muito ela, né? — perguntou baixinho.

Santiago engoliu devagar e assentiu.

— Ela é como um lar. — respondeu, com voz baixa.

Helena sorriu, tocando a mão dele sobre o câmbio. Ele entrelaçou os dedos nos dela, devagar, como se estivesse salvando aquele gesto para guardar no bolso.

As luzes do casarão ficaram cada vez menores no retrovisor, até desaparecerem por completo na curva da estrada de terra.

...

Quando chegaram em casa, a magia suave da fazenda começou a se dissolver como névoa ao sol.

Helena desceu do carro devagar, o peito apertando ao encarar o sobrado logo ao lado. Pensar em alguém a observando lhe despertava uma sensação de ameaça. Lembrou-se das vezes que sentira olhos sobre ela naquele mesmo lugar, sem ter visto ninguém por perto.

Lívia saiu do carro atrás e, ao vê-la parada diante do sobrado, logo entendeu que Santiago já havia contado tudo a ela. Parou ao lado dela, seu coração apertou um pouco pensando o que a amiga poderia estar sentindo.

Marcelo apareceu na janela, apoiado no parapeito, expressão séria, mas não hostil. Também sabia da intenção de Santiago revelar o que estava acontecendo. Já não havia motivo para se esconder.

Santiago se aproximou de Helena, colocando a mão na lombar dela num toque calmo, protetor.

— Quer entrar? — perguntou, a voz suave, mas firme.

Helena demorou alguns segundos para responder. Seu olhar permaneceu preso no sobrado, como se travasse uma última batalha entre o medo e a necessidade da verdade.

Por fim, assentiu. Devagar. Como quem dá um passo adiante para dentro de uma realidade da qual não pode mais fugir.

Santiago empurrou o portão velho e logo os quatro subiram juntos. Mabe veio atrás cheirando todos os cantos.

O lugar ainda era o mesmo sobrado velho, mas estava… limpo. Havia cheiro de desinfetante, o chão brilhava e até o ar parecia mais leve.

Marcelo, com seus contatos quase sobrenaturais, claramente havia chamado uma equipe inteira para resolver o que antes parecia impossível. Até o entulho monstruoso da garagem tinha desaparecido.

— Isso aqui parecia cenário de filme de terror. — murmurou Lívia.

Pedro deu um meio sorriso.

— É porque você não viu como estava antes.

Subiram as escadas até o andar superior, onde ficava o quarto que estavam usando como centro de observação.

— Helena… este é o Marcelo. — disse, Santiago apresentando-os.

Marcelo estendeu a mão com cordialidade e respeito.

— É um prazer finalmente conhecê-la. — disse ele, com uma inclinação leve de cabeça. — Ou melhor, conhecê-la oficialmente.

— O prazer é meu. — respondeu Helena, apertando sua mão, ainda absorvendo tudo.

Santiago cruzou os braços e direcionou o olhar a Marcelo.

— Correu tudo bem durante a nossa ausência?

O detetive hesitou. Olhou para Santiago por um segundo, como se perguntasse silenciosamente: Posso falar tudo, mesmo na frente dela?

Santiago assentiu sem pensar duas vezes, a voz firme:

— Ela merece saber.

Helena sentiu uma pontada no peito — um misto de medo e gratidão.

Então Marcelo respirou fundo e começou.

— Pouco depois do meio-dia… — disse ele, sem rodeios — …o mesmo carro do incidente passou pela rua. Devagar. Muito devagar.

Helena prendeu a respiração.

— Eu estava coordenando a equipe de limpeza — continuou — e não notei na hora. Só vi quando revisei as gravações.

Lívia ficou rígida ao lado dela, os olhos estreitando.

— O carro reduziu a velocidade quando passou pela sua porta… — Marcelo completou, olhando diretamente para Helena. — …e depois acelerou e dobrou a esquina.

Um silêncio denso se instalou no quarto.

O mundo de Helena — que horas atrás tinha sido feito verde, paz e o riso leve de Santiago — voltou a afundar nas sombras do desconhecido.

Santiago aproximou-se um passo, como se pudesse ampará-la apenas com a presença.

Helena abraçou o próprio corpo como se os braços fossem escudos.

— Então… realmente não foi coincidência. — murmurou, mais para si do que para os outros. O ar pareceu ficar mais pesado ao redor dela.

Capítulo 83 - Tons de proteção 1

Capítulo 83 - Tons de proteção 2

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