“Nada pesa tanto quanto aquilo que tentamos esconder de nós mesmos.”
A noite avançava, e não havendo mais motivo para permanecer ali, Lívia resolveu ir embora. Ela inspirou fundo e começou sua rodada de despedidas.
Primeiro, apertou a mão de Marcelo.
— Foi bom te ver aqui.
Depois, envolveu Helena num abraço apertado. A amiga se sentiu pequena nos braços dela, mas estranhamente mais forte.
— Se precisar de mim, eu venho correndo, entendeu? — disse, com a voz inesperadamente suave.
Santiago se aproximou para a despedida e, antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, Lívia apontou o dedo para o peito dele, com a postura de uma advogada prestes a destruir um réu no tribunal:
— E você… trate de cuidar bem dela. Tô falando sério. Se fizer ela sofrer… eu te processo em todas as instâncias possíveis. Invento umas novas, se precisar.
Santiago ergueu as mãos em rendição, bem humorado.
— Eu prometo.
— Promessa registrada. — murmurou ela, estreitando os olhos, mas o sorriso não conseguiu se esconder.
Então ela se virou — e deu de cara com Pedro. Ele estava encostado na porta, braços cruzados, postura impecável… mas aquele brilho, aquele sorriso de canto, zombava de tudo que ela tentava esconder desde o galpão.
Lívia travou por meio segundo. Depois ergueu o queixo e recorreu ao único idioma que falava fluentemente quando ficava constrangida: a ironia.
— Virou catraca pra ficar parado no meio da porta agora?
Pedro levantou uma única sobrancelha — lenta, bonita, provocante. Deu meio passo para o lado dando-lhe passagem. Mas antes que ela se fosse, ele segurou seu braço.
— Pelo que eu me lembro... — disse baixo, a boca perto demais do ouvido dela. — ... você adorou brincar com a catraca mais cedo.
O jeito que ele falou fez o estômago dela dar uma cambalhota inconveniente. Ela sentiu o rosto corar, pega de surpresa com a ousadia dele. Passou pela porta com pressa antes que ele falasse mais alguma coisa… mas todos ali sentiram a descarga elétrica que ficou no ar.
Helena virou-se para Santiago, o coração ainda batendo mais rápido do que gostaria. Da paz da fazendo ficará só resquícios.
— Você… vem comigo então? — perguntou baixinho.
Ele assentiu, quase sem hesitar.
— Vou só pegar algumas coisas.
Santiago desapareceu pelo corredor. O som da porta do quarto se abrindo ecoou suavemente, depois o leve choque da mala sendo colocada sobre a cama. Ele pegou alguns itens no banheiro e voltou poucos minutos depois, simples, eficiente, determinado.
Helena o observava com um carinho que doía. E quando olhou para Pedro e Marcelo… o peito dela apertou de gratidão.
— Eu nem sei como agradecer vocês por tudo isso. — disse, a voz embargada.
Marcelo abriu um sorriso enorme, apontando o polegar para Santiago:
— Relaxa, Helena. Nosso galã aqui tá pagando a gente muito bem.
Santiago fechou os olhos por um segundo, profundamente irritado, antes de lançar um olhar que dizia claramente: fica quieto, pelo amor de Deus. Mas era tarde.
A preocupação de Helena explodiu de imediato.
— Não. — Ela ergueu as mãos. — De agora em diante, eu quem vou acertar tudo com vocês.
Marcelo abriu a boca para responder, mas Santiago foi mais rápido.
— Não. — disse firme, dando um passo à frente. — Helena… eu fiz tudo isso porque quis. Porque eu precisava ter certeza de que você estava segura. Não tem nada que você precise pagar.
Ela o encarou, teimosa, determinada. Respirou fundo, pronta para rebater. Santiago insistiu. Ela tentou argumentar de novo. Ele rebateu outra vez. Só depois de alguns minutos ela recuou — por enquanto. Mas pela expressão dela… o assunto estava longe de encerrado.
As despedidas foram simples, mas cheias de significado.
Pedro assentiu num gesto respeitoso para Helena.
Marcelo deu um meio sorriso tranquilizador.
— Vamos manter vocês atualizados. — Prometeu.
Então, finalmente, Helena e Santiago atravessaram o portão de volta para a casa ao lado.
E Mabe, logo atrás deles, trotava feliz da vida — a língua enorme pendendo para fora, exausta do dia, mas completamente satisfeita.
A casa estava silenciosa quando Helena girou a chave na porta.
Mabe entrou primeiro, farejou o chão, deu duas voltinhas e se jogou no tapete da sala, exausta. Santiago fechou a porta atrás deles.
Helena tirou o lenço da cabeça, soltando o cabelo, e Santiago acompanhou o movimento com os olhos como se aquilo fosse uma cena inteira.
Ela percorreu o espaço com o olhar. A cozinha estava arrumada e não havia mais caixas espalhadas. A casa já não era mais um espaço vazio, consuelo realmente tinha voltado — e transformado aquele lugar em um lar para ela.
Helena sorriu de leve. Tinha falado com a mãe pela manhã, no caminho para a fazenda. Consuelo continuava preocupada… mas se acalmara ao saber que ela não estava sozinha.
Como ela reagiria se soubesse tudo?
A pergunta veio como um sopro incômodo e ficou pairando, pesada.
Santiago se aproximou um pouco, a voz baixa, rouca, quente.
— Você está bem?
O cuidado na pergunta fez algo vibrar nela. Helena assentiu, cansada.
— É só muita coisa pra processar. — murmurou. — Por que você não guarda suas coisas no quarto?


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