“Existem noites em que somos apenas o molde onde alguém tenta encaixar o amor que sente por outra pessoa.”
Silvia passou boa parte do dia circulando pela casa como um fantasma impaciente, abrindo portas, gavetas, caixas e armários com uma fome que ela mesma desconhecia. Não queria admitir, mas procurava por algo — qualquer coisa — que explicasse o apego quase patético de Cássio por aquela mulher.
Algo que a ajudasse conquistá-lo de vez.
Uma foto.
Uma peça de roupa esquecida.
Uma lembrança caída em algum canto.
Mas não encontrou nada. Cada gaveta era um vazio. O banheiro tinha apenas seus próprios cosméticos — nenhum vestígio de outra presença.
O closet, impecável, metade masculino, metade vazio.
A sala… neutra. A cozinha… limpa.
Silvia franziu o cenho, desconcertada.
Ou Helena havia levado tudo quando foi embora… ou Cássio nunca permitiu que ela deixasse qualquer rastro ali.
O que, de um jeito distorcido, dizia mais do que qualquer lembrança poderia dizer.
Seja qual fosse a resposta, o resultado era o mesmo: não havia memória alguma daquela mulher naquela casa. Não havia marca. Não havia vida compartilhada. Era como se nunca tivesse existido um casal ali.
Isso a incomodou profundamente.
Como era possível?
Que tipo de mulher passava anos com um homem… deixando tão pouco de si para trás?
Na mente de Silvia, Helena era apenas o que Cássio dizia: “Uma dona de casa dedicada e sem graça.”
Mas o vazio da casa contradizia essa versão e isso a deixava ainda mais inquieta.
Se não fosse aquele maldito quadro... acreditaria até que ela nunca esteve ali.
Quando abriu a porta do escritório, Silvia parou por um instante.
A lembrança do evento — a imagem de Helena desenhando ali, projetada no telão diante de todos — atravessou sua mente como uma lâmina fina. Involuntária. Irritante. Humilhante.
Ela respirou fundo e entrou. Diferente do resto da casa, aquele era o único espaço que parecia guardar algum vestígio de vida. Alguém passara muito tempo ali.
Uma das almofadas do sofá estava levemente afundada, marcada pelo peso constante de um corpo.
A mesa carregava vincos, arranhões e pequenas manchas — sinais de uso diário, de rotina.
Silvia caminhou até ela, passou os dedos pelas marcas, tentando adivinhar histórias que não conhecia. Aquilo a incomodou. Helena estava ali… sem estar.
Abriu a primeira gaveta com expectativa. Só blocos novos de desenhos, intocados. Na segunda gaveta, uma caixa de lápis ainda lacrada.
Nenhum esboço, nenhum rabisco, nenhuma prova física de que Helena realmente passara horas ali desenhando — além da memória pública que ela preferia fingir que não lembrava.
A frustração lhe subiu à garganta.
Nas prateleiras, só encontrou livros: manuais de desenho industrial, almanaques de design, volumes técnicos… o tipo de conteúdo que não revelava nada sobre sentimentos, gostos, personalidade.
Tudo extremamente funcional. Objetivo. Prático.
Nada dela.
Foi quando Silvia parou no meio do cômodo. Inspirou… e sentiu.
Um cheiro. Suave. Discreto.
Quase imperceptível.
Mas absolutamente feminino.
Limpo. Elegante.
Uma assinatura delicada que ficava no ar como o rastro de um fantasma.
Um arrepio de incômodo subiu pela sua espinha. Era como se a casa estivesse guardando segredos dela.
Por fim, Silvia se recostou na bancada da cozinha, cruzou os braços e deixou escapar um pensamento que não ousaria dizer em voz alta:
— Quem era você, afinal?
Se uma dona de casa conseguia deixar Cássio tão desnorteado assim, então talvez ela também pudesse.
A ideia a enjoava. Silvia nunca quis — nunca precisou — desempenhar esse papel. O de mulher dócil, doméstica, que conquista pelo cheiro de comida no fogão e pelo sorriso que espera na porta.
Só de imaginar-se encaixada numa caricatura que não lhe pertencia, o estômago revirou. Mas se era isso que ela precisava fazer para tirá-lo daquela obsessão ridícula… então que fosse.
Engoliu a repulsa com um gole de determinação amarga. Ligou para um delivery e pediu pratos que jamais cozinharia.
Tudo aquilo que, aparentemente, Helena representava na cabeça dele.
Quando as embalagens chegaram, Silvia abriu cada uma com precisão cirúrgica.



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