“A verdadeira pintura é sentir.” Paul Cézanne
Pela segunda vez, Santiago despertou descobrindo que a realidade podia ser melhor que qualquer sonho. Helena estava ali, aninhada ao seu lado, usando o braço dele como travesseiro, o rosto encaixado na curva do seu pescoço como se aquele fosse o lugar exato onde ela pertencia.
A respiração quente que roçava sua pele era a prova mais doce e incontestável de que nada daquilo era ilusão — era real, vivo, presente. Assim como o peso leve do corpo dela colado ao seu, encaixado como se tivesse sido moldado para estar ali.
Santiago permaneceu completamente imóvel, como se qualquer movimento pudesse quebrar o encanto e despertá-la. Tudo o que ele mais queria era prolongar aquele instante — aquela quietude rara, aquele calor tranquilo — por mais alguns minutos.
Inspirou devagar, captando o cheiro dela, e imediatamente as lembranças da noite anterior percorreram seu corpo como um arrepio lento, reacendendo cada detalhe gravado em sua pele.
...
Quando a surpresa finalmente cedeu lugar ao fôlego, Santiago se viu andando quase sem perceber. Era como se os passos dela tivessem deixado um rastro invisível puxando-o adiante.
Atravessou o corredor devagar, sentindo o coração martelar no peito, e quando parou diante da porta semiaberta do banheiro, a luz suave escapava por ela como um convite silencioso.
Ao empurrar a porta, o vapor quente veio primeiro — depois, a visão dela.
Helena estava de costas, o cabelo escurecido pela água que descia por seus fios longos seguindo caminho pelas curvas delicadas de seu corpo.
A luz amarelada refletia nas gotas que percorriam sua pele, criando pequenos brilhos que pareciam se mover com ela.
Por um longo segundo, Santiago esqueceu como se respirava.
O vapor beijava sua pele, transformando-a numa pintura viva, quente, pulsante.
Ele se aproximou alguns passos — lento, como quem caminha em direção a algo sagrado.
Helena virou o rosto devagar, os olhos encontrando os dele por entre a névoa quente. O canto da boca dela ergueu-se num sorriso quase tímido… mas cheio de intenção.
Eles estavam a apenas um braço de distância. Santiago seguia com os olhos o caminho de uma gota que deslizava pelo pescoço dela — uma trilha lenta, hipnótica — serpenteando pela curva suave de um dos seios antes de escorrer em direção ao umbigo. Ele sequer teve tempo de acompanhar todo o percurso.
Porque, antes que pudesse, Helena estendeu a mão e o puxou para dentro do jato quente de água de roupa e tudo.
Santiago perdeu o fôlego. A voz dele saiu num sussurro rouco, quebrado nas bordas:
— Helena…
E foi tudo o que conseguiu dizer.
O beijo começou intenso, urgente, como se um quisesse se dissolver no outro. Uma junção de tudo que estavam segurando até ali — desejo, medo, alívio, necessidade.
Santiago se livrou das botas enquanto suas mãos de deslizaram para a cintura dela, depois para as costas, depois para os quadris, como se não conseguisse escolher um único ponto para segurar.
Helena deslizou as mãos pela barra da camiseta dele, guiando o tecido molhado para cima querendo sentir a pele dele na dela.
Ele reagiu no mesmo instante, ajudando-a a remover a peça que logo caiu no chão com um estalo úmido. Aproveitou o breve afastamento para retirar o restante das peças, o jeans pesado caiu aos seus pés, e ele o chutou pra longe.
As mãos dela deslizaram para a nuca dele, puxando-o novamente para perto, como se tivesse medo de que ele desaparecesse se deixasse espaço demais entre eles.
Ela estava ali. Molhada. Quente. Entrega pura sem nenhuma hesitação. E aquilo o desarmava por completo.
Ele a ergueu envolvendo as pernas dela na sua cintura, as costas dela encontrando a parede fria.
— Você tem ideia do que faz comigo? — Ele perguntou num sussurro.
Ela não conseguiu responder, o peito subindo e descendo de excitação. O olhar preso aos lábios dele.
Helena estremeceu quando ele prensou ainda mais o corpo contra o dela.
Ele sorriu — um sorriso lento de quem reconhece a própria rendição.
— Eu sonhei com isso tantas vezes… — confessou, a voz tão baixa que quase se perdia no barulho da água. — Nunca imaginei que seria assim.
— Assim como? — ela conseguiu sussurrar.
— Melhor do que qualquer coisa que eu já senti.
Helena puxou o ar, surpresa pelo peso daquilo. As mãos dele trabalharam para que seus corpos se encontrassem por inteiro.
Quando se encaixaram, a respiração dos dois saiu num único suspiro. Ela jogou a cabeça para trás, arfando. E ele aproveitou e se afogou no pescoço exposto dela.
E ele soube, soube que estava perdido para ela de um jeito que nunca seria capaz de desfazer.
E ele não queria.

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