"Quem tenta moldar a vida do outro a força, termina rachando a própria tela."
Cássio despertou devagar. O outro lado da cama estava vazio.
Diferente da noite no hotel, ele lembrava com clareza cada detalhe da noite anterior. Não havia confusão, nem dúvida. Apenas constatação.
Se não fosse pelo bebê, seria fácil se livrar de Silvia. Mas nessa situação, ainda que ela fosse um empecilho, um filho ainda era um filho.
Por outro lado… tê-la por perto até que era conveniente — pelo menos por enquanto. Ela era compreensiva, maleável, disposta. Contando que não causasse problemas, poderia permanecer ali por enquanto.
E quando chegasse o momento de Helena voltar, ele simplesmente a mandaria embora. Poderia até encaixar a abertura da filial nesse processo — um presente de despedida que a colocaria bem longe dali.
Porque, na cabeça dele, era só questão de tempo. Helena voltaria.
E ele tinha absoluta certeza de que ela ainda o amava — aquilo não mudava do dia para a noite.
Aquela resistência… aquela nova postura… ele até admirava.
“Está fazendo charme”, concluiu.
Era só uma tentativa de chamar sua atenção, uma forma torta de dizer que queria mais dele. E ele daria. Quando tudo acalmasse. Quando ela voltasse para casa.
Forçou-se a levantar. Precisava se arrumar para a coletiva. Fez a barba com mais cuidado do que o habitual. Vestiu um de seus melhores ternos — um dos presentes que Helena lhe dera, aliás. Ajustou o colarinho com um orgulho silencioso.
Passou pomada nos cabelos, penteando-os para o lado, minuciosamente, até aprovar o reflexo no espelho.
Ao descer, encontrou Silvia na cozinha. O balcão estava arrumado com café fresco, suco, pães, bolo, frios… tudo impecavelmente disposto.
— Você que fez isso? — perguntou, genuinamente surpreso.
Ela sorriu, humilde demais para ser verdadeira.
— Isso não é nada.
Então, com o robe ajustado e a postura ensaiada, acrescentou enquanto subia a escada:
— Vou me arrumar enquanto você come. Podemos ir juntos para a empresa?
Cássio apenas assentiu.
Não queria se irritar com uma discussão já pela manhã.
Deixou-se comer em silêncio — sem pensar muito, apenas mastigando para manter o corpo funcionando.
Quando terminou, juntou as migalhas no prato para jogá-las no lixo. E foi então que viu as embalagens. Diversas. Dobradas. Escondidas no fundo da lixeira. Reconheceu imediatamente os rótulos.
Quando Silvia desceu, perfeitamente arrumada e com o sorriso treinado no rosto, Cássio preferiu não comentar nada.
As embalagens no lixo ainda estavam frescas na sua mente, mas ele não disse nada. Não valia a pena. No fundo, ela só estava tentando agradá-lo… ainda que isso viesse embalado em mentira.
Mas ao mesmo tempo, aquilo serviu para algo: para revelar que Silvia não era tão honesta, tão previsível, tão “ideal” quanto tentava parecer.
Guardou a informação no bolso e saíram juntos rumo à empresa.
A coletiva estava marcada para as 10h. Ainda não eram 9h quando chegaram, e Renato já o aguardava no corredor, braços cruzados, expressão tensa.
— Tem certeza disso? — perguntou Renato ainda com esperança de que o amigo reconsiderasse, a preocupação evidente no tom.
— Certo ou não… — Cássio respirou fundo, ajeitando a gravata — é tarde demais para voltar atrás.
Eles seguiram até a sala de reuniões. Poucos segundos depois, Riviera entrou, postura ereta, semblante jurídico, tudo nele transmitindo seriedade e eficiência.
— E então? — Cássio perguntou sem rodeios, a ansiedade vazando por entre as palavras.
Riviera abriu a pasta com um clique preciso.
— Falei com alguns contatos. Mexi alguns pauzinhos. — anunciou. — Ela vai ser notificada ainda hoje sobre o pedido de anulação.
Por um instante, apenas um instante, algo no peito de Cássio se expandiu — uma sensação torpe, quase prazerosa, de controle retomado.
Assentiu devagar, satisfeito.
Sentia-se, por alguns segundos, ele mesmo de novo. Como se estivesse puxando os fios da própria vida com as mãos. Uma ilusão reconfortante demais para que ele percebesse o quanto aquilo era frágil.
Cássio repassou suas falas mentalmente pela terceira vez.
Os assessores haviam sido claros:
— Nada de improvisar. Nada de responder perguntas soltas. Entre, diga o combinado e saia.
Ele assentiu a tudo mecanicamente, mas sua mente continuava rodando em círculos, refazendo cada frase, cada pausa, cada gesto planejado.
Uma hora passou rápido demais.
Do corredor, ele conseguia ouvir o burburinho crescente dos repórteres — flashes disparando, microfones sendo testados, vozes se atropelando, a fome coletiva por manchetes prestes a ser servida.
Seu olhar se estreitou, a ansiedade ferveu sob a pele.
Quando atravessasse aquela porta, todas as cartas estariam na mesa. Todos os blefes feitos. Sem retorno.
— Vai dar certo. Tem que dar.
Repetiu o mantra como quem tenta convencer o próprio coração a bater no ritmo certo.
...
Enquanto isso, no bairro antigo, Helena estava sentada numa banqueta alta de encosto gasto, diante de mais uma tela apoiada no cavalete.
O macacão jeans largo — já marcado por respingos de tinta — era um dos itens que Consuelo enviara quando ela se mudara às pressas.
Por baixo, vestia apenas uma camiseta simples. O cabelo preso num coque despretensioso. E nos pés… nada.
Ela sempre pintava descalça. Era a forma que tinha de se sentir livre, enraizada, inteira.
As pinceladas fluíam. Soltas, seguras. Harmoniosas.
Os últimos dias tinham sido um vendaval… mas naquela manhã, algo dentro dela estava firme.
As pedras jogadas no lago tinham causado turbulência, medo, água revolta — mas depois afundaram.
E Helena decidiu, finalmente, que não importava o que Cássio tentasse, não permitiria que ele levasse sua paz de volta com ele.
Foi nesse exato instante que a porta se abriu com força. Lívia entrou como uma onda quebrando nas rochas.
— LIGA A TV! — ela disparou, ofegante, quase gritando.
Helena piscou, o pincel parando no ar.
— Ei, oi pra você também… — murmurou, surpresa. — O que está acontecendo?
Helena largou o pincel num reflexo e desceu da banqueta, ainda sem entender.
— Lívia...?
— A TV, Helena! Agora! — repetiu ela, já vasculhando em volta com o olhar até encontrar o controle.
Com um clique, a imagem apareceu. A coletiva de imprensa estava acontecendo. Ao vivo.
Cássio estava no pódio, tenso, impecavelmente arrumado, o cabelo penteado milimetricamente para o lado — como fazia quando queria parecer inabalável.


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