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Quadros de um divórcio romance Capítulo 87

"Quem tenta moldar a vida do outro a força, termina rachando a própria tela."

Cássio despertou devagar. O outro lado da cama estava vazio.

Diferente da noite no hotel, ele lembrava com clareza cada detalhe da noite anterior. Não havia confusão, nem dúvida. Apenas constatação.

Se não fosse pelo bebê, seria fácil se livrar de Silvia. Mas nessa situação, ainda que ela fosse um empecilho, um filho ainda era um filho.

Por outro lado… tê-la por perto até que era conveniente — pelo menos por enquanto. Ela era compreensiva, maleável, disposta. Contando que não causasse problemas, poderia permanecer ali por enquanto.

E quando chegasse o momento de Helena voltar, ele simplesmente a mandaria embora. Poderia até encaixar a abertura da filial nesse processo — um presente de despedida que a colocaria bem longe dali.

Porque, na cabeça dele, era só questão de tempo. Helena voltaria.

E ele tinha absoluta certeza de que ela ainda o amava — aquilo não mudava do dia para a noite.

Aquela resistência… aquela nova postura… ele até admirava.

“Está fazendo charme”, concluiu.

Era só uma tentativa de chamar sua atenção, uma forma torta de dizer que queria mais dele. E ele daria. Quando tudo acalmasse. Quando ela voltasse para casa.

Forçou-se a levantar. Precisava se arrumar para a coletiva. Fez a barba com mais cuidado do que o habitual. Vestiu um de seus melhores ternos — um dos presentes que Helena lhe dera, aliás. Ajustou o colarinho com um orgulho silencioso.

Passou pomada nos cabelos, penteando-os para o lado, minuciosamente, até aprovar o reflexo no espelho.

Ao descer, encontrou Silvia na cozinha. O balcão estava arrumado com café fresco, suco, pães, bolo, frios… tudo impecavelmente disposto.

— Você que fez isso? — perguntou, genuinamente surpreso.

Ela sorriu, humilde demais para ser verdadeira.

— Isso não é nada.

Então, com o robe ajustado e a postura ensaiada, acrescentou enquanto subia a escada:

— Vou me arrumar enquanto você come. Podemos ir juntos para a empresa?

Cássio apenas assentiu.

Não queria se irritar com uma discussão já pela manhã.

Deixou-se comer em silêncio — sem pensar muito, apenas mastigando para manter o corpo funcionando.

Quando terminou, juntou as migalhas no prato para jogá-las no lixo. E foi então que viu as embalagens. Diversas. Dobradas. Escondidas no fundo da lixeira. Reconheceu imediatamente os rótulos.

Quando Silvia desceu, perfeitamente arrumada e com o sorriso treinado no rosto, Cássio preferiu não comentar nada.

As embalagens no lixo ainda estavam frescas na sua mente, mas ele não disse nada. Não valia a pena. No fundo, ela só estava tentando agradá-lo… ainda que isso viesse embalado em mentira.

Mas ao mesmo tempo, aquilo serviu para algo: para revelar que Silvia não era tão honesta, tão previsível, tão “ideal” quanto tentava parecer.

Guardou a informação no bolso e saíram juntos rumo à empresa.

A coletiva estava marcada para as 10h. Ainda não eram 9h quando chegaram, e Renato já o aguardava no corredor, braços cruzados, expressão tensa.

— Tem certeza disso? — perguntou Renato ainda com esperança de que o amigo reconsiderasse, a preocupação evidente no tom.

— Certo ou não… — Cássio respirou fundo, ajeitando a gravata — é tarde demais para voltar atrás.

Eles seguiram até a sala de reuniões. Poucos segundos depois, Riviera entrou, postura ereta, semblante jurídico, tudo nele transmitindo seriedade e eficiência.

— E então? — Cássio perguntou sem rodeios, a ansiedade vazando por entre as palavras.

Riviera abriu a pasta com um clique preciso.

— Falei com alguns contatos. Mexi alguns pauzinhos. — anunciou. — Ela vai ser notificada ainda hoje sobre o pedido de anulação.

Por um instante, apenas um instante, algo no peito de Cássio se expandiu — uma sensação torpe, quase prazerosa, de controle retomado.

Assentiu devagar, satisfeito.

Sentia-se, por alguns segundos, ele mesmo de novo. Como se estivesse puxando os fios da própria vida com as mãos. Uma ilusão reconfortante demais para que ele percebesse o quanto aquilo era frágil.

Cássio repassou suas falas mentalmente pela terceira vez.

Os assessores haviam sido claros:

— Nada de improvisar. Nada de responder perguntas soltas. Entre, diga o combinado e saia.

Ele assentiu a tudo mecanicamente, mas sua mente continuava rodando em círculos, refazendo cada frase, cada pausa, cada gesto planejado.

Uma hora passou rápido demais.

Do corredor, ele conseguia ouvir o burburinho crescente dos repórteres — flashes disparando, microfones sendo testados, vozes se atropelando, a fome coletiva por manchetes prestes a ser servida.

Seu olhar se estreitou, a ansiedade ferveu sob a pele.

Quando atravessasse aquela porta, todas as cartas estariam na mesa. Todos os blefes feitos. Sem retorno.

— Vai dar certo. Tem que dar.

Repetiu o mantra como quem tenta convencer o próprio coração a bater no ritmo certo.

...

Enquanto isso, no bairro antigo, Helena estava sentada numa banqueta alta de encosto gasto, diante de mais uma tela apoiada no cavalete.

O macacão jeans largo — já marcado por respingos de tinta — era um dos itens que Consuelo enviara quando ela se mudara às pressas.

Por baixo, vestia apenas uma camiseta simples. O cabelo preso num coque despretensioso. E nos pés… nada.

Ela sempre pintava descalça. Era a forma que tinha de se sentir livre, enraizada, inteira.

As pinceladas fluíam. Soltas, seguras. Harmoniosas.

Os últimos dias tinham sido um vendaval… mas naquela manhã, algo dentro dela estava firme.

As pedras jogadas no lago tinham causado turbulência, medo, água revolta — mas depois afundaram.

E Helena decidiu, finalmente, que não importava o que Cássio tentasse, não permitiria que ele levasse sua paz de volta com ele.

Foi nesse exato instante que a porta se abriu com força. Lívia entrou como uma onda quebrando nas rochas.

— LIGA A TV! — ela disparou, ofegante, quase gritando.

Helena piscou, o pincel parando no ar.

— Ei, oi pra você também… — murmurou, surpresa. — O que está acontecendo?

Helena largou o pincel num reflexo e desceu da banqueta, ainda sem entender.

— Lívia...?

— A TV, Helena! Agora! — repetiu ela, já vasculhando em volta com o olhar até encontrar o controle.

Com um clique, a imagem apareceu. A coletiva de imprensa estava acontecendo. Ao vivo.

Cássio estava no pódio, tenso, impecavelmente arrumado, o cabelo penteado milimetricamente para o lado — como fazia quando queria parecer inabalável.

Lívia tomou a mão dela, firme.

— Mas você não é. E ele sabe muito bem disso. Tá te usando como bode expiatório. Ele consegue ser pior do que eu imaginava.

Helena virou o rosto para a amiga e arqueou uma sobrancelha, surpreendentemente calma.

— E você esperava o quê de um homem desses?

Lívia ficou a um passo de xingar mais umas vinte vezes, mas então percebeu que Helena não tremia, não se retraía, não se desmanchava. Estava… sólida. Serena. Quase perigosa.

— Você não tá preocupada? — perguntou, incrédula.

Helena deu um peteleco na cabeça da amiga.

— Por que eu me preocuparia? Eu tenho a melhor advogada que existe. Ou vai me dizer que, depois de lidar com tantos tipos como ele, você resolveu ficar com medo justo agora?

Lívia cruzou os braços, ofendida e aquecida de orgulho ao mesmo tempo.

— Medo? Claro que não! Eu só tô irritada porque queria quebrar o nariz daquele mentiroso e socar ele até cair duro.

Helena riu.

— Nariz quebrado tem conserto. Eu quero que você o acerte onde ele não possa se recuperar.

O sorriso que surgiu no rosto de Lívia era quase diabólico. Mas antes que pudesse falar qualquer outra coisa, o celular de Helena vibrou.

O nome na tela: Santiago.

Helena respirou fundo e atendeu com a calma que ainda mantinha intacta.

— Alô?

Do outro lado, havia silêncio. Depois, uma respiração pesada.

— Helena… você assistiu a coletiva?

— Assisti sim…

A fala dele veio firme, como se estivesse prendendo o próprio descontrole:

— Eu juro que não vou deixar ele fazer isso com você.

Lívia tomou o celular da mão de Helena com a autoridade de quem está acostumada a liderar batalhas jurídicas.

— Santiago, fica calmo. Eu tô aqui com ela.

— Que bom. — disse, finalmente conseguindo respirar. — Mas se ele fez isso em uma coletiva, é capaz de qualquer coisa pra proteger o próprio rabo.

— Eu sei que tudo que queremos é resguardar a imagem da nossa Helena. _ disse olhando carinhosamente para a amiga. — Mas acho que o que precisamos agora é fazer justamente o contrário.

— Acho que você tem razão. — ele respondeu, firme. — Já estou indo pro carro. Chego aí em quinze minutos para conversarmos melhor.

Lívia devolveu o celular para Helena.

— Ele vem aí. — disse, com um olhar firme. — Cássio ja tomou a decisão dele, agora é nossa hora de agir.

Lívia apertou sua mão:

— Agora vem. Vamos desligar essa TV antes que eu quebre ela.

O silêncio que tomou a sala não pareceu vazio — pareceu decisivo. Lívia ainda fervilhava ao lado dela, pronta para a guerra, enquanto Helena permanecia firme, respirando fundo, deixando a frieza se assentar como tinta secando sobre a tela.

Para ela, aquele dia, aquele exato instante, marcava o fim do que Cássio poderia controlar… e o começo do que ela finalmente escolheria pintar da própria vida.

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