"Não há pincelada inocente quando a mão que pinta está manchada."
Enquanto Cássio falava à imprensa, Silvia assistia de longe, ao lado da equipe de assessoria — braços cruzados, o olhar fixo nele.
Quando ele desceu naquela manhã, tão arrumado, tão seguro de si, ela havia acreditado — ainda que por um segundo — que tudo daria certo.
Quando ele começou a falar, ela até sentiu um impulso infantil de vibrar ao ouvi-lo responsabilizar Helena, de chamá-la de instável, frágil, emocionalmente desequilibrada.
Mas então ele soltou a palavra “esposa.”
Silvia piscou devagar, incrédula. “Que merda esse imbecil estava fazendo?”
O pensamento veio afiado, quente, sem espaço para suavidade.
Mas ele continuou. Repetiu a mesma insanidade — a mesma maldita ideia que tinha dito no parque — sobre pedir a anulação do divórcio.
Sobre “acolher” Helena. Sobre “cuidar” dela.
Depois de tudo que havia feito, sentiu-se uma piada. Cássio ainda se agarrava à outra. Ainda era nela que ele pensava — e Silvia sabia disso, porque sentiu nos dedos, nos suspiros e na maneira absurda como ele a tocou na noite anterior… como se estivesse tocando outra pessoa.
O rancor subiu queimando a garganta. A náusea também.
E no meio de tudo isso, o pior golpe: Dante provavelmente estava assistindo aquilo.
E Dante — Deus, Dante…
Ele não deixaria aquilo passar, não uma segunda vez.
Silvia sentiu um frio gelado na espinha, um que ela não sentia há anos. Um que não tinha nada a ver com Cássio e tudo a ver com o homem que a moldou a ferro e medo.
As lembranças vieram como facas, rápidas e brutais — o que acontecia quando alguém falhava com Dante. O que acontecia quando alguém desobedecia. E o pior... o que acontecia quando alguém se tornava dispensável.
Um início de desespero latejou dentro dela.
Ela lançou a Cássio um último olhar — um olhar de repulsa tão crua quanto quem desvia de excremento na calçada — e se virou, caminhando para fora do auditório sem olhar para trás.
Saiu do prédio com passos rápidos, já vasculhando a bolsa até encontrar o celular.
Não bastava a carga ter sido despachada.
Não bastava uma nova coleção estar sendo preparada.
Não bastava que logo retornariam com as atividades.
A ordem dele para ela havia sido clara: ter Cássio Amaral nas mãos.
E apesar de todos os truques, todas as manipulações, todas as máscaras que vestiu… ela estava falhando.
Falhando miseravelmente.
Ela discou o número que sabia de cor. Márcio atendeu no terceiro toque.
— Onde você está? — perguntou ela, sem fôlego, sem preâmbulo.
— Como assim onde? No muquifo que você arrumou pra mim. — respondeu ele, debochado.
— Não saia daí. Estou a caminho.
Silvia desligou antes que ele pudesse dizer mais uma palavra.
Chamou um táxi. Deu o endereço de forma seca.
E, conforme o carro avançava para o subúrbio próximo da fábrica, uma sensação desagradável a atingiu. Aquele tipo de bairro… paredes descascadas, fios expostos, cheiro de fritura e fumaça… era um convite para lembranças que ela preferia manter enterradas.
Desceu do táxi com nojo evidente, desviando de uma poça escura no chão como quem pisa em território contaminado.
Subiu as escadas estreitas do prédio — as paredes riscando sombras, cobertas de mofo, rabiscos e grafites — até chegar ao terceiro andar. Parou diante da porta velha, marcada por pancadas antigas, e bateu impaciente.
— Sou eu. Abre!
A porta rangiu. Márcio surgiu com uma calça de moletom surrada pendurada no quadril, o peito nu, os braços tatuados. Normalmente, Silvia apreciaria a visão, mas naquele momento, nada disso importava.
A kitnet atrás dele era um cubículo claustrofóbico: sofá rasgado, uma pia lotada, o cheiro adocicado de cigarro frio e desinfetante barato. Uma cama no canto, lençóis embolados. Uma única janela com a cortina de plástico amarelada. Tudo pobre, apertado. Hostil.
Márcio cruzou os braços, inclinando a cabeça.
— A que devo a honra? Faz tanto tempo que não pisa aqui que achei até que tinha esquecido o caminho.
— Não é hora para suas piadas. — ela rebateu, seca.


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quadros de um divórcio