“O maior erro é deixar que outros definam seus contornos.” Henri Matisse
Quando Santiago estacionou diante da casa de Helena, lançou um olhar rápido para a fachada do sobrado ao lado e, com um gesto discreto, avisou Pedro — que aparecera na janela — para descer e juntar-se a ele. O segurança assentiu.
Marcelo não estava por ali; tinha ido à agência resolver pendências.
Provavelmente, quem quer que estivesse atrás de Helena já havia percebido que a casa ao lado estava ocupada. Se sabiam que era para sua proteção ou não — já era outra história. Ainda assim, para despistar suspeitas e evitar especulações entre os vizinhos, Santiago providenciara uma reforma discreta no sobrado, usando apenas pessoas de confiança de Marcelo.
Ele apertou a campainha apenas como aviso e entrou em seguida.
Helena e Lívia estavam sentadas à mesa, inclinadas sobre um celular. Ambas levantaram o olhar assim que o notaram chegar. Santiago se aproximou, agachando-se ao lado de Helena com a preocupação evidente no rosto.
— Você está bem? — perguntou, atento, como se buscasse qualquer sinal de alteração nela.
Helena sorriu com suavidade, o tipo de sorriso que acalmava até o caos.
— Estou sim. Não precisa se preocupar tanto… não acredito que saiu de uma reunião só pra vir aqui.
— Já tinha acabado. — Ele minimizou.
— Mesmo assim. Você ainda tem trabalho. E a Lívia… — gesticulou para a amiga — …tem tudo sob controle.
Só então Santiago se virou para Lívia, notando que sequer a cumprimentara.
— Ah… oi. Perdão. — disse, meio constrangido.
— Tudo bem. — respondeu Lívia, sorrindo satisfeita com a prioridade clara dele. — Eu entendo perfeitamente.
Santiago levantou-se e se sentou ao lado de Helena.
— E agora? O que fazemos? — perguntou, olhando para Lívia com expectativa profissional.
Ela ajeitou a postura.
— Bem… Cássio pode não ter percebido ainda, mas ele acabou de dar mais um tiro no pé. — comentou, cruzando as pernas com elegância provocativa. — Eu sempre tentei orientar a Helena, e ela vivia bancando a turrona… mas graças a Deus sempre me ouviu.
Helena revirou os olhos, divertida.
— Eu só fazia charme pra te irritar, bobona. Sempre soube que você só queria meu bem.
Santiago nem percebeu a troca de farpas carinhosas entre as duas — sua cabeça estava em outro lugar.
— Ele entrou mesmo com o pedido de anulação? — perguntou.
— Entrou. Fui notificada há pouco. — Lívia confirmou. — Pelo visto, mexeu seus pauzinhos pra acelerar tudo. Está alegando que a Helena está emocionalmente instável. Só que isso exigiria um laudo médico. E ele também alega ter assinado o acordo sob dolo — ou seja, enganado.
— E ele tem como provar isso? — Santiago quis saber.
— Não podemos ter certeza. Mas considerando que a Helena é perfeitamente sã e que o escândalo da amante já estourou… seria difícil qualquer juiz levar isso a sério.
— Então… pro plano dele funcionar, ele precisaria provar que ela está emocionalmente desequilibrada. — Não era uma pergunta; era a conclusão lógica.
— Exatamente. — assentiu Lívia. — E só conseguiria esse laudo… comprando alguém.
Santiago balançou a cabeça, absorvendo a informação, e pegou o telefone.
— Vou resolver isso agora.
Ele discou. Marcelo atendeu no terceiro toque.
— Fala, meu galã. — veio a voz zombeteira.
— Não é hora pra brincadeira meu velho.
— É sobre o showzinho do idiota? — Marcelo perguntou.
— Você nunca me decepciona — disse Santiago, sem humor. — Preciso que coloque alguém colado no Cássio vinte e quatro horas por dia. Ele pode tentar falsificar algum documento médico.
Lívia ergueu a sobrancelha, impressionada com a rapidez dele. Amava ver aquilo — ver Helena sendo defendida com tanta firmeza. Amor, concluiu. Mas estavam juntos a tão pouco tempo... ou ele já amava antes… ou Helena tinha algum feitiço poderoso que ela faria questão de descobrir.
Helena, por sua vez, observava Santiago como se o resto da sala tivesse desaparecido. Havia algo nele que penetrava direto nas frestas que a vida deixara abertas nela. Era cedo demais, era imprudente… mas era irrefutável.
A campainha tocou.
— Eu atendo. — murmurou Lívia, mas Helena nem ouviu — ainda com o olhar perdido em Santiago.
Lívia bufou.
— Esses dois…
Ao abrir a porta, deu de cara com o sorriso incrivelmente perfeito no rosto de ébano irritantemente lindo do segurança.
— Ah. É você. — disse ela, cruzando os braços.
— Por quê? Estava esperando alguém melhor? — ele provocou.
Ela tinha energia demais presa no corpo e precisava descontar em alguém — mas não podia ser nele.
— Vai entrar ou vai ficar desfilando essa cara de deboche na porta? — ela disparou.
— Parece que alguém não teve sua dose de chocolate do dia hoje... é por isso que está tão irritada? — Pedro observou, levantando uma sobrancelha.
Lívia enrubesceu na hora. Ela abriu a boca indignada e fechou sem resposta.
Ele passou por ela com naturalidade, e ela o seguiu ainda indignada.
Pedro cumprimentou Helena, que pediu que ele se sentasse. Quando Lívia voltou, Helena reparou na expressão de explosão prestes a acontecer.
— Aconteceu algo? — perguntou.
— Nada importante. — Lívia respondeu rápido demais.
Santiago encerrou a ligação.
— Pronto. Marcelo vai colocar alguém no encalço do Cássio. Qualquer passo suspeito, saberemos.
Pedro foi informado de tudo. Santiago então se voltou para as duas mulheres.
— Quando entrei, vocês estavam olhando o celular… aconteceu mais alguma coisa?
Lívia respirou fundo.
— A opinião pública está dividida. A maioria ainda defende a Hel. Mas algumas pessoas estão sendo… cruéis.
— Deixa eu ver. — pediu Santiago.
Ela entregou o celular.
“Será que a esposa enciumada inventou tudo por atenção?”
— Talvez. Antes queria saber mais sobre ele.
— Ebbene… acredito que já tenha ouvido falar de Francesco Orsini.
O nome caiu como uma pedra na mesa.
Santiago ergueu as sobrancelhas.
Lívia arregalou os olhos.
Até Pedro percebeu que era importante, ainda que não identificasse a fama envolvida.
— O empresário do ramo de decoração? — perguntou Helena, só para confirmar o que já suspeitava.
Era impossível não conhecer.
Orsini era, no mundo da arquitetura e do design de interiores, o equivalente a uma lenda viva. O nome mais forte do mercado europeu. Um homem cuja assinatura em um projeto mudava carreiras. E que, segundo as revistas que Helena devorava para estar sempre atualizada e desenvolver as coleções, acabara de abrir uma filial justamente no Brasil.
Cássio havia odiado quando ela comentou sobre ele meses antes. Disse que o país já tinha concorrentes demais.
Helena sorriu internamente ao lembrar.
— O próprio. — Ricci confirmou, satisfeito. — Ele elogiou muito o seu trabalho. Ficará encantado se você permitir que ele lance sua nova coleção.
Helena inspirou fundo.
— Ebbene… acho que seria bom conversarmos, então. O senhor poderia marcar o encontro?
— Ma è chiaro, bambina mia. Estou na Itália, mas volto em dois dias. Assim que chegar ao Brasil, providencio tudo.
— Molte grazie, padrino.
— Non per questo, cara mia.
A ligação se encerrou.
E Helena sorriu — um sorriso pequeno, decidido, vitorioso.
Lívia parecia inteiramente abalada.
— Quando eu crescer, eu quero ser igual a você. — disse com os olhos brilhando enquanto segurava as mãos da amiga.
Helena riu, emocionada.
— Deixa disso… eu só acho que finalmente dei sorte. Ou melhor… a encontrei de novo depois que me livrei daquele traste.
Ela sentia-se realmente sortuda, ainda mais tendo pessoas tão boas e incríveis ao seu lado. Pensando nisso lançou um olhar contemplativo e feliz para os três.
— Isso merece comemoração. — decretou Lívia.
— Podemos almoçar juntos. — sugeriu Santiago.
— Infelizmente, no almoço não posso — disse Lívia, já pegando a bolsa. — Mas à noite, sim. Vai ser perfeito.
Todos concordaram, e ela saiu apressada para dar entrada nos processos.
Helena observou a porta se fechar, sentindo algo quente, estável e novo crescer dentro do peito. Quando virou o rosto, encontrou Santiago a observando com um orgulho tão genuíno que fez seu coração tremer. Ali, naquele instante simples e absoluto, Helena soube: aquela guerra não iria consumi-la. Ela estava, finalmente, escolhendo a própria narrativa — e pintando, traço a traço, o novo capítulo da própria vida.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quadros de um divórcio