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Quadros de um divórcio romance Capítulo 89

“O maior erro é deixar que outros definam seus contornos.” Henri Matisse

Quando Santiago estacionou diante da casa de Helena, lançou um olhar rápido para a fachada do sobrado ao lado e, com um gesto discreto, avisou Pedro — que aparecera na janela — para descer e juntar-se a ele. O segurança assentiu.

Marcelo não estava por ali; tinha ido à agência resolver pendências.

Provavelmente, quem quer que estivesse atrás de Helena já havia percebido que a casa ao lado estava ocupada. Se sabiam que era para sua proteção ou não — já era outra história. Ainda assim, para despistar suspeitas e evitar especulações entre os vizinhos, Santiago providenciara uma reforma discreta no sobrado, usando apenas pessoas de confiança de Marcelo.

Ele apertou a campainha apenas como aviso e entrou em seguida.

Helena e Lívia estavam sentadas à mesa, inclinadas sobre um celular. Ambas levantaram o olhar assim que o notaram chegar. Santiago se aproximou, agachando-se ao lado de Helena com a preocupação evidente no rosto.

— Você está bem? — perguntou, atento, como se buscasse qualquer sinal de alteração nela.

Helena sorriu com suavidade, o tipo de sorriso que acalmava até o caos.

— Estou sim. Não precisa se preocupar tanto… não acredito que saiu de uma reunião só pra vir aqui.

— Já tinha acabado. — Ele minimizou.

— Mesmo assim. Você ainda tem trabalho. E a Lívia… — gesticulou para a amiga — …tem tudo sob controle.

Só então Santiago se virou para Lívia, notando que sequer a cumprimentara.

— Ah… oi. Perdão. — disse, meio constrangido.

— Tudo bem. — respondeu Lívia, sorrindo satisfeita com a prioridade clara dele. — Eu entendo perfeitamente.

Santiago levantou-se e se sentou ao lado de Helena.

— E agora? O que fazemos? — perguntou, olhando para Lívia com expectativa profissional.

Ela ajeitou a postura.

— Bem… Cássio pode não ter percebido ainda, mas ele acabou de dar mais um tiro no pé. — comentou, cruzando as pernas com elegância provocativa. — Eu sempre tentei orientar a Helena, e ela vivia bancando a turrona… mas graças a Deus sempre me ouviu.

Helena revirou os olhos, divertida.

— Eu só fazia charme pra te irritar, bobona. Sempre soube que você só queria meu bem.

Santiago nem percebeu a troca de farpas carinhosas entre as duas — sua cabeça estava em outro lugar.

— Ele entrou mesmo com o pedido de anulação? — perguntou.

— Entrou. Fui notificada há pouco. — Lívia confirmou. — Pelo visto, mexeu seus pauzinhos pra acelerar tudo. Está alegando que a Helena está emocionalmente instável. Só que isso exigiria um laudo médico. E ele também alega ter assinado o acordo sob dolo — ou seja, enganado.

— E ele tem como provar isso? — Santiago quis saber.

— Não podemos ter certeza. Mas considerando que a Helena é perfeitamente sã e que o escândalo da amante já estourou… seria difícil qualquer juiz levar isso a sério.

— Então… pro plano dele funcionar, ele precisaria provar que ela está emocionalmente desequilibrada. — Não era uma pergunta; era a conclusão lógica.

— Exatamente. — assentiu Lívia. — E só conseguiria esse laudo… comprando alguém.

Santiago balançou a cabeça, absorvendo a informação, e pegou o telefone.

— Vou resolver isso agora.

Ele discou. Marcelo atendeu no terceiro toque.

— Fala, meu galã. — veio a voz zombeteira.

— Não é hora pra brincadeira meu velho.

— É sobre o showzinho do idiota? — Marcelo perguntou.

— Você nunca me decepciona — disse Santiago, sem humor. — Preciso que coloque alguém colado no Cássio vinte e quatro horas por dia. Ele pode tentar falsificar algum documento médico.

Lívia ergueu a sobrancelha, impressionada com a rapidez dele. Amava ver aquilo — ver Helena sendo defendida com tanta firmeza. Amor, concluiu. Mas estavam juntos a tão pouco tempo... ou ele já amava antes… ou Helena tinha algum feitiço poderoso que ela faria questão de descobrir.

Helena, por sua vez, observava Santiago como se o resto da sala tivesse desaparecido. Havia algo nele que penetrava direto nas frestas que a vida deixara abertas nela. Era cedo demais, era imprudente… mas era irrefutável.

A campainha tocou.

— Eu atendo. — murmurou Lívia, mas Helena nem ouviu — ainda com o olhar perdido em Santiago.

Lívia bufou.

— Esses dois…

Ao abrir a porta, deu de cara com o sorriso incrivelmente perfeito no rosto de ébano irritantemente lindo do segurança.

— Ah. É você. — disse ela, cruzando os braços.

— Por quê? Estava esperando alguém melhor? — ele provocou.

Ela tinha energia demais presa no corpo e precisava descontar em alguém — mas não podia ser nele.

— Vai entrar ou vai ficar desfilando essa cara de deboche na porta? — ela disparou.

— Parece que alguém não teve sua dose de chocolate do dia hoje... é por isso que está tão irritada? — Pedro observou, levantando uma sobrancelha.

Lívia enrubesceu na hora. Ela abriu a boca indignada e fechou sem resposta.

Ele passou por ela com naturalidade, e ela o seguiu ainda indignada.

Pedro cumprimentou Helena, que pediu que ele se sentasse. Quando Lívia voltou, Helena reparou na expressão de explosão prestes a acontecer.

— Aconteceu algo? — perguntou.

— Nada importante. — Lívia respondeu rápido demais.

Santiago encerrou a ligação.

— Pronto. Marcelo vai colocar alguém no encalço do Cássio. Qualquer passo suspeito, saberemos.

Pedro foi informado de tudo. Santiago então se voltou para as duas mulheres.

— Quando entrei, vocês estavam olhando o celular… aconteceu mais alguma coisa?

Lívia respirou fundo.

— A opinião pública está dividida. A maioria ainda defende a Hel. Mas algumas pessoas estão sendo… cruéis.

— Deixa eu ver. — pediu Santiago.

Ela entregou o celular.

“Será que a esposa enciumada inventou tudo por atenção?”

— Talvez. Antes queria saber mais sobre ele.

— Ebbene… acredito que já tenha ouvido falar de Francesco Orsini.

O nome caiu como uma pedra na mesa.

Santiago ergueu as sobrancelhas.

Lívia arregalou os olhos.

Até Pedro percebeu que era importante, ainda que não identificasse a fama envolvida.

— O empresário do ramo de decoração? — perguntou Helena, só para confirmar o que já suspeitava.

Era impossível não conhecer.

Orsini era, no mundo da arquitetura e do design de interiores, o equivalente a uma lenda viva. O nome mais forte do mercado europeu. Um homem cuja assinatura em um projeto mudava carreiras. E que, segundo as revistas que Helena devorava para estar sempre atualizada e desenvolver as coleções, acabara de abrir uma filial justamente no Brasil.

Cássio havia odiado quando ela comentou sobre ele meses antes. Disse que o país já tinha concorrentes demais.

Helena sorriu internamente ao lembrar.

— O próprio. — Ricci confirmou, satisfeito. — Ele elogiou muito o seu trabalho. Ficará encantado se você permitir que ele lance sua nova coleção.

Helena inspirou fundo.

— Ebbene… acho que seria bom conversarmos, então. O senhor poderia marcar o encontro?

— Ma è chiaro, bambina mia. Estou na Itália, mas volto em dois dias. Assim que chegar ao Brasil, providencio tudo.

— Molte grazie, padrino.

— Non per questo, cara mia.

A ligação se encerrou.

E Helena sorriu — um sorriso pequeno, decidido, vitorioso.

Lívia parecia inteiramente abalada.

— Quando eu crescer, eu quero ser igual a você. — disse com os olhos brilhando enquanto segurava as mãos da amiga.

Helena riu, emocionada.

— Deixa disso… eu só acho que finalmente dei sorte. Ou melhor… a encontrei de novo depois que me livrei daquele traste.

Ela sentia-se realmente sortuda, ainda mais tendo pessoas tão boas e incríveis ao seu lado. Pensando nisso lançou um olhar contemplativo e feliz para os três.

— Isso merece comemoração. — decretou Lívia.

— Podemos almoçar juntos. — sugeriu Santiago.

— Infelizmente, no almoço não posso — disse Lívia, já pegando a bolsa. — Mas à noite, sim. Vai ser perfeito.

Todos concordaram, e ela saiu apressada para dar entrada nos processos.

Helena observou a porta se fechar, sentindo algo quente, estável e novo crescer dentro do peito. Quando virou o rosto, encontrou Santiago a observando com um orgulho tão genuíno que fez seu coração tremer. Ali, naquele instante simples e absoluto, Helena soube: aquela guerra não iria consumi-la. Ela estava, finalmente, escolhendo a própria narrativa — e pintando, traço a traço, o novo capítulo da própria vida.

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