"Amor possessivo: Imponho-te limites; ignoro tuas necessidades; anulo tua liberdade; alimento teu sentimento de culpa e promovo a doentia codependência entre nós. Amo-te? Não! Satisfaço os meus caprichos...” Maria Ap. Giacomini Dóro
Assim que a porta se fechou atrás de Lívia, o celular de Santiago vibrou. Ele olhou a tela, suspirou — era da galeria.
Helena percebeu o conflito na expressão dele: o dever puxando por um lado, o desejo de ficar ali com ela puxando mais forte.
— Pode ir. — disse ela com doçura tranquila. — Eu vou ficar bem. Aliás… meus pais também me ligaram preocupados com a coletiva. Combinei de almoçar com eles no hotel.
Santiago ergueu os olhos para ela, como se tivesse acabado de tomar sua própria decisão.
— Eu poderia ir com você? — perguntou, praticamente se convidando, sem cerimônia. — Provavelmente não é nada tão urgente que eu não possa resolver à tarde.
Helena sorriu, surpresa com o calor que aquela iniciativa trouxe ao peito.
— Claro que sim.
Ele então ajeitou a postura, como quem volta à função.
— Falando em sair… gostaria que o Pedro fosse o responsável por te levar para onde você quiser ir de agora em diante.
Helena abriu a boca para recusar — por impulso, por orgulho, por hábito — mas parou. O olhar preocupado de Santiago… O olhar resoluto de Pedro… E tudo o que havia acontecido nos últimos dias…
Ela apenas assentiu.
— Está bem. Vou só trocar de roupa.
Quando saíram, Santiago lançou a chave de seu Audi Q8 e-tron para Pedro enquanto abria a porta traseira para ela.
— Acho que estou gostando cada dia mais desse serviço. — disse Pedro, rindo, enquanto ia animado para o volante.
Poucos minutos depois, o carro estacionou diante do hotel.
Pedro recusou-se a entrar, preferindo ficar de olho na movimentação da entrada — como uma sentinela permanente.
Santiago e Helena caminharam lado a lado e, sem perceber, suas mãos buscaram uma à outra. Nenhum dos dois pensou sobre isso. Nenhum dos dois notou. Apenas aconteceu — natural e espontâneo.
...
Viviane percebeu.
Sentada com duas amigas no restaurante do hotel, ela mastigava seu almoço, entediada, quando viu Helena atravessar o salão.
Helena estava… linda.
Um conjunto de duas peças preto: calça estruturada, regata elegante de tecido fosco, uma bolsa tiracolo minimalista, os cabelos presos em uma trança solta com alguns fios ondulados contornando o rosto — leve, natural, sofisticada sem esforço.
Mas o que realmente paralisou Viviane não foi a roupa. Foi a aura.
Helena estava confiante. Serena. Brilhava de um jeito que Viviane nunca a viu brilhar perto de Cássio.
E ao seu lado…
O homem por quem ela mesma havia sido ignorada no evento.
Lindo, impecável — e segurando a mão de Helena como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Viviane quase derrubou o garfo.
A raiva subiu instantânea, quente, venenosa.
Pegou o celular, tirou uma foto — zoom perfeito, ângulo certeiro — e enviou para Cássio.
“Ainda bem que você está livre dessa mulher. Mal se divorciaram e ela já está desfilando de mãos dadas com outro.”
Seus dedos tremiam de ódio.
Ela havia visto a coletiva. Vira o irmão praticamente rastejar por Helena em rede nacional. Aquilo a enojava. A humilhava. Como ele podia, depois de tudo, continuar obcecado por aquela mulher sem valor?
Talvez… vendo essa foto… ele finalmente acordasse.
E enquanto pensava nisso, uma ideia ainda mais lucrativa brotou.
Viviane estava irritada com a redução da mesada — depois de tudo que aconteceu, Cássio avisou que teriam que apertar o cinto por um tempo — um ultraje.
Lembrou-se então do contato no ramo de informações e fofocas. Ele sempre pagava bem por fotos exclusivas.
Digitou rápido: “Helena Duarte com um novo affair vale alguma coisa?”
A resposta veio em segundos: “Depende. O que você tem?”
Ela enviou a imagem. Dois minutos depois, recebeu o comprovante: dez mil reais.
Simples assim.
Mas a satisfação momentânea não amenizou a raiva. Viviane continuava fervendo.
...
Enquanto isso, do outro lado do salão, Helena aproximou-se dos pais com um sorriso tão aberto e bonito que Consuelo levou a mão à boca, emocionada.
Até que ambos olharam para baixo. As mãos entrelaçadas.
Só então Helena e Santiago perceberam o gesto — e soltaram-se rápido, corando como dois adolescentes recém pegos.
O pai de Helena teve que segurar o riso. Consuelo piscou para a filha como quem diz “Eu já imaginava isso.”
Santiago se apressou em estender a mão para Rogério, o pai de Helena.
— É um prazer conhecê-lo, senhor Duarte.
Rogério apertou sua mão com firmeza — firme o suficiente para marcar território, mas não hostil. Seu olhar avaliou o rapaz em um segundo.
— O prazer é meu, Santiago Villar. — respondeu, destacando o sobrenome, demonstrando que sabia exatamente com quem estava falando.
Santiago manteve o sorriso cordial, mas Helena percebeu o breve rubor de orgulho contido no rosto dele.
Consuelo e Rogério já haviam conversado sobre Santiago — filho de amigos próximos, um bom caráter, e especialmente sobre a forma como ele defendera Helena no evento do Studio e no ocorrido no parque. A gratidão silenciosa pairava nas entrelinhas.
Depois, Santiago estendeu a mão para Consuelo.
— É um prazer revê-la, senhora Duarte.
Mas Consuelo riu, tocando a mão dele com ambas as suas.
— Ora, meu filho, me chame de tia Lelo. Você pode não se lembrar, mas eu já te peguei no colo.
A frase caiu como uma bomba de ternura no ar. Santiago ficou tão vermelho que até as orelhas pareceram pegar fogo. Helena levou a mão à boca tentando esconder a risada — sem sucesso.
Os pais então abraçaram Helena com ternura. Logo depois, Consuelo deu palmadinhas no braço de Santiago e o guiou até a mesa com naturalidade.
— Venham, venham! Já pedimos nossas bebidas, mas vocês escolham o que quiserem.
Eles se sentaram. Helena ao lado de Santiago; seus pais de frente. O garçom se aproximou. Santiago pediu apenas água com gás; Helena, suco de uva.
Quando ficaram sozinhos novamente, o olhar dos pais pousou diretamente na filha.
— Então… — começou Rogério, ajeitando os óculos. — Imagino que esteja tudo bem. Sua mãe e eu vimos a coletiva… e ficamos preocupados.
Helena respirou fundo, mas seu sorriso foi sincero.
— Pai, eu estou tranquila. — disse com firmeza. — Não foi agradável, mas… já não me abala como antes. Eu sei quem eu sou. Sei o que eu fiz. E sei que ele só está desesperado.
Consuelo apertou a mão da filha por cima da mesa, emocionada com a força que via nela.
— Minha menina… você ficou forte demais, viu?
— Eu só fiquei cansada demais pra ficar fraca, mãe. — Helena respondeu com humor leve. — E tenho muita gente boa me ajudando agora.
Consuelo olhou discretamente para Santiago — e o sorriso dela cresceu mais um pouco.
O garçom trouxe as bebidas. A conversa seguiu por temas mais leves — trabalho, a casa nova, alguns detalhes engraçados do antigo café do bairro que agora servia cappuccino com gosto de sabão.
Santiago ouviu tudo com verdadeiro interesse. Comentava, ria, perguntava. Rogério parecia testar, observar, medir. Consuelo… Consuelo apenas derretia, completamente convencida.
Quando metade do almoço já tinha passado, Rogério pousou os talheres, limpou a boca com o guardanapo e foi direto ao ponto — do jeito pragmático que sempre tivera.
— Então… — começou, olhando primeiro para Helena e depois para Santiago — …que tipo de relacionamento vocês dois têm?
Helena quase engasgou com o suco. Santiago ficou completamente imóvel por um segundo.
Consuelo arregalou os olhos, fingindo repreensão.
— Rogério!
— O que foi? — ele rebateu. — Eu sou o pai. Tenho direito de saber.
Helena respirou fundo — e abriu um sorriso que denunciava mais do que ela pretendia.
— Nós… — ela começou devagar — …estamos nos conhecendo melhor.
Santiago virou o rosto para ela, e o olhar que lançou tinha tudo: carinho, certeza, intenção.
— Estamos, sim. — completou ele, firme. — Mas eu já posso dizer algo ao senhor, senhor Duarte.


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