“Nada amedronta mais o antigo opressor do que a liberdade recém-adquirida de sua vítima.”
O barulho do elevador ecoou pelo corredor apenas como ruído distante; nada parecia real para Cássio naquele momento. Enquanto duas pessoas o erguiam do chão — braços fortes sob as axilas, murmúrios abafados tentando organizá-lo.
Foi só então que algo, um estalo brutal, o puxou de volta. Ele arrancou os braços dos seguranças de cima de si com violência.
— ME SOLTEM! — rugiu, a voz vibrando contra as paredes. — Eu estou bem!
A frase saiu cortante, mas sua respiração estava longe de estável. A pele ainda estava fria, o suor escorria pela têmpora, e o terno impecável parecia sufocá-lo por dentro.
Os dois seguranças recuaram imediatamente, trocando olhares apreensivos.
Renato deu um passo à frente — cauteloso, como quem se aproxima de um animal ferido.
— Cássio… — chamou, com voz baixa. — Você acabou de ter um surto de estresse. Não está bem.
— Eu estou bem! — ele repetiu, com os olhos ardendo.
Ele passou a mão pelos cabelos, bagunçando-os ainda mais.
Renato tentou de novo.
— Olha pra mim. — disse firme. — Você perdeu o controle. Precisa ser avaliado. Só isso.
Cássio o fitou.
E o que havia ali não era medo. Era algo muito pior.
Um brilho frio, obsessivo. Uma determinação distorcida que fez até Renato engolir em seco.
— Eu não preciso de nada. — disse Cássio, a voz baixa, rouca, carregada de veneno. — Eu só… fui pego de surpresa. Mas agora… agora está tudo claro.
Renato sentiu o estômago afundar.
— O que você está pensando? — perguntou devagar.
Cássio deu um meio sorriso. Não era um sorriso de alguém que está bem.
Era o sorriso de alguém que acabara de atravessar uma fronteira perigosa.
— Ela acha… — murmurou, quase rindo. — Ela acha que pode me substituir. Que pode desfilar com outro homem.
Deu um passo à frente — um passo que fez até os seguranças endireitarem a postura.
— Mas ela vai aprender. — completou, a voz tão calma que era mais assustadora do que quando gritava. — Ela vai aprender que não pode me tratar assim.
Renato sentiu a espinha gelar.
— Cássio… para. Você não está raciocinando.
— Estou raciocinando melhor do que nunca. — ele rebateu, aproximando-se demais. — Finalmente entendi o que preciso fazer.
...
O almoço seguia leve — muito mais leve do que Helena imaginava que seria depois do caos daquela manhã.
Rogério contava histórias do trabalho, exagerando nos detalhes cômicos só para ver a filha rir como antes. Consuelo pedia ao garçom recomendações de sobremesas. Santiago ouvia tudo como quem realmente fazia parte da mesa — atento, sincero, confortável. É possível que estivesse mais nervoso do que aparentava, mas não deixava transparecer.
Helena sentia uma paz rara. Uma paz nova, longe do peso que costumava arrastar.
Quando o almoço terminou, ela pediu licença para ir ao banheiro. Ela se levantou e atravessou o corredor do restaurante com passos tranquilos, ainda sentindo, como eco interno, o olhar cheio de ternura que Santiago lhe lançara antes dela se afastar.
Mas assim que empurrou a porta do banheiro feminino e entrou, ouviu a porta abrir atrás dela.
Helena pensou que fosse apenas outra cliente. Até ouvir a voz.
— Que conveniente te encontrar aqui. — disse Viviane, com um veneno açucarado na entonação.
Helena se virou devagar. Viviane estava parada diante da porta recém-fechada, os braços cruzados, o queixo erguido de arrogância ensaiada… e os olhos cheios de ódio puro. Havia algo quase animalesco na forma como ela fitava Helena — como se tivesse encontrado sua presa.
Helena tinha apenas vinte e sete anos, mas a vida — com todas as quedas, reconstruções e cicatrizes invisíveis — havia lhe dado uma maturidade que ultrapassava a própria idade. Em comparação, Viviane, com pouco mais de vinte e um, ainda vivia presa à redoma confortável criada pelo dinheiro do irmão. Uma bolha onde nada era realmente conquistado, apenas recebido. Uma bolha alimentada por privilégios que, ironicamente, Helena havia ajudado muito mais a sustentar do que o próprio Cássio.
Quando Helena se casou, Viviane ainda era praticamente uma adolescente. Mimada desde sempre, protegida de qualquer realidade que exigisse responsabilidade ou empatia. Esther, ao menos, havia tentado ser gentil no começo… mas Viviane? Nunca. Desde o primeiro dia ostentou aquele nariz empinado, aquele olhar que julgava tudo e todos, como se o mundo estivesse aquém do que ela merecia.
E, quando Cássio começou a desrespeitar Helena publicamente — minando sua voz, sua posição, sua dignidade — Viviane aproveitou cada fresta dessa permissividade. Transformou Helena num depósito para suas frustrações, sarcasmos e desprezos velados.
Helena engoliu tudo em silêncio por anos. Mas isso ficou no passado, ela era outra agora. Só que Viviane… ainda não tinha percebido isso.
Helena a encarou erguendo apenas uma sobrancelha.
— Viviane. — disse, como quem cumprimenta alguém numa fila de mercado. — Algum problema?
Viviane riu, um som agudo, nervoso, claramente sustentado por raiva acumulada.
— Problema? Eu tenho problema quando vejo você dando uma de santa enquanto destrói a vida do meu irmão.
Helena inspirou fundo pelo nariz. Devagar. Controlado.
— Destruir a vida dele? — repetiu, com calma quase clínica. — Então me conta... como eu destruí a vida do seu querido irmão?
Viviane engasgou o pensamento por um segundo — só um segundo — mas logo recuperou o ar arrogante.


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quadros de um divórcio