“A arte só existe quando rompe correntes.”
Depois do embate com Helena, Viviane voltou para casa fervendo de raiva. Nem quis permanecer no hotel com as amigas — a irritação pulsava tão forte que tudo parecia insuportável. Jogou-se na cama, encarou o teto por alguns segundos e, depois, começou a rolar a tela do celular com a velocidade de quem precisava de uma distração imediata.
Não demorou para encontrar o que não queria ver.
Uma matéria havia acabado de ser publicada com a foto que ela mesma enviara — a mesma imagem que mandara para Cássio antes, sem pensar. O título estampado em letras garrafais era uma mistura de fofoca e veneno:
“‘Emocionalmente incapaz’, segundo ex-marido — Helena Duarte é vista em restaurante com possível novo affair.”
Viviane sentiu o estômago revirar. Pior do que o título eram os comentários — pipocando como pequenas faíscas incendiando a matéria.
Alguns irônicos:
“Pra mim ela parece perfeitamente equilibrada kkkkk.”
“Isso aí é cara de quem tá melhor que antes.”
Outros observadores:
“Não é o mesmo cara que defendeu ela no evento?”
“Sinceramente? Bem feito. O ex traiu, engravidou a amante e queriam que ela ficasse de luto?”
E claro, os machistas previsíveis:
“Mal separou e já tá com outro? Começando a achar que o ex-marido é que está certo.”
Mas os rebatimentos vinham na mesma força:
“Se fosse um homem aparecendo com outra no dia seguinte, iam dizer que ele estava ‘se reconstruindo’.”
Viviane cerrou os dentes. Ela esperava ver o público massacrando Helena — não a defendendo.
O arrependimento veio rápido.
E, junto com ele, o medo.
Porque foi só ao ver a matéria publicada que ela realmente se deu conta do óbvio: Cássio veria aquela notícia. Cássio veria aquela foto. E ele saberia exatamente de onde veio.
O sangue gelou. Viviane levantou-se num salto, com a mão tapando a boca, como se pudesse impedir retroativamente a própria estupidez.
Mas já era tarde.
O estrago estava feito.
...
Pedro levou Helena de volta para casa. Assim que desceram do carro, ela estendeu para ele uma embalagem de papel com o logotipo do restaurante.
— Aqui. — disse, sorrindo. — Coma enquanto ainda está quente.
Pedro congelou por meio segundo.
Não estava acostumado a gentilezas assim — simples, espontâneas, genuínas.
A maior parte das pessoas que ele havia protegido ao longo da carreira eram ingratas, arrogantes ou indiferentes. Ele fazia o trabalho e pronto. Não esperava nada em troca.
Mas Helena… Helena era diferente.
Apesar de tudo pelo que já passou, ainda tinha espaço para bondade. Para educação. Para afeto pequeno e sincero — o tipo de afeto que não exige nada de volta.
E era isso que o comovia.
Ele já havia reparado no carinho com que ela tratava os vizinhos. No sorriso que distribuía às crianças que sempre corriam até ela. No cuidado que tinha até com quem não conhecia.
Talvez fosse por isso que estar por perto dela quebrasse um pouco da rigidez que o tempo havia esculpido nele. Talvez fosse por isso que ele finalmente entendia o motivo de Lívia gostar tanto da amiga.
— Obrigado. — respondeu ele, simples, mas sincero.
— Bobagem. — disse Helena, ajeitando a bolsa no ombro. — Nos vemos à noite.
Pedro assentiu, retomando a postura firme que o caracterizava.
De volta ao sobrado, encontrou a pequena equipe trabalhando nos reparos do térreo. Passou por eles e subiu, destrancando a porta do quarto temporário onde estava instalado.
Trouxe para perto da janela a mesinha de ferro e colocou a sacola sobre ela. Quando abriu o pacote, o cheiro quente e delicioso da refeição tomou o ambiente.
Pedro se sentou, apoiou os cotovelos na mesa e começou a comer devagar enquanto observava a rua pela janela.
Lá embaixo, a vida seguia: crianças brincando, idosos conversando na calçada, o sol da tarde dourando as paredes antigas.
E, enquanto mastigava, memórias antigas começaram a se infiltrar — suaves no início, depois mais fortes, como ecos de um passado que ele raramente permitia revisitar.
...
Pedro cresceu em uma casa pequena na periferia, com um pai que era policial — um homem íntegro, rígido, mas profundamente justo.
O pai dele era o tipo de pessoa que acreditava, quase religiosamente, em três coisas: proteger quem é mais fraco; nunca abaixar a cabeça pra covardia; e deixar o mundo um pouco melhor do que encontrou.
Pedro idolatrava o pai. Não pelos músculos ou pela farda, mas pela forma como ele falava com as pessoas, como tratava cada vizinho pelo nome, como acreditava na lei mesmo quando a vida parecia injusta.
Quando tinha 14 anos, o pai foi morto em serviço — não em uma operação digna de manchete, mas por uma emboscada, armada por um pequeno traficante local que queria intimidar a polícia. Foi uma morte banal, sem glamour, sem heroísmo — apenas trágica.
Ela é exatamente o tipo de pessoa que o pai dele teria protegido.
E exatamente o tipo de pessoa que ele sente que tem o dever — e o desejo — de proteger.
No fundo, protege-la era, para ele, uma segunda chance de “salvar alguém” daquilo que ele não conseguiu evitar no passado.
Talvez Helena fosse sua redenção.
...
Helena havia trocado novamente para suas roupas confortáveis — uma camiseta folgada, o macacão manchado de tinta e os pés descalços — e voltou para frente da tela. Não podia se permitir ficar ociosa; não agora. Estava reconstruindo a própria vida uma pincelada por vez. Já tinha finalizado dois quadros, ambos cuidadosamente guardados. Aquele seria o terceiro.
Quando parara mais cedo, tinha deixado apenas o plano de fundo pronto: uma textura escura, profunda, com traços marrons quase ásperos ao toque, como terra remexida. Sobre ela, começara os contornos dos ombros nus de uma mulher — apenas o início de uma história que precisava sair dela.
Pintar sempre fora o seu idioma secreto, o único capaz de traduzir o que o corpo tremia para dizer e a boca, por muito tempo, não ousava. E agora, ao aceitar a proposta de exposição de Santiago, ela sabia exatamente o que queria fazer: transbordar.
Transbordar tudo. As dores. As memórias. Os silêncios.
E as vozes de tantas outras mulheres que escreveram para ela compartilhando seus próprios sofrimentos — histórias tão parecidas, tão cruéis, tão invisíveis.
Não queria uma simples exposição. Queria um grito. Um grito que atravessasse o peito de todas as vítimas psicológicas de pessoas narcisistas. Um grito por todas as mulheres que, por amar demais, foram subjugadas, diminuídas, usadas. Um grito que não pudesse mais ser ignorado. Um urro de basta.
E, conforme esse manifesto silencioso crescia dentro dela, a imagem na tela começava a ganhar forma — quase como se se pintasse sozinha.
O rosto feminino emergiu sob seus dedos: cabelos presos num coque rígido, comercial, padronizado; um número tatuado no ombro como se fosse apenas mais um objeto catalogado; o olhar firme, indomável, encarando o espectador com uma mistura crua de dor e rebeldia.
A boca… ah, a boca. Costurada.
As linhas grossas, suturadas com fios escuros que tensionavam e feriam a pele.
E, ainda assim, mãos femininas surgiam rasgando aqueles pontos, arrebentando cada linha com determinação feroz, abrindo caminho para um grito que quase podia ser ouvido na sala.
Quando pousou o pincel, Helena percebeu que suas próprias costas doíam — tensas, latejando — como se o esforço de libertar aquela voz tivesse partido do seu próprio corpo.
Respirou fundo, tentando aliviar o peso emocional que aquela pintura arrancara dela.
Foi então que ouviu o som de um carro estacionando em frente à casa.
Ela olhou pela janela, limpando a mão na lateral do macacão. Santiago descia do carro — camisa dobrada nos antebraços, o sorriso iluminando o rosto assim que a viu, como se tê-la à vista fosse sua primeira e mais natural reação do dia.
O peito dela amoleceu. A esperança se acomodou confortável dentro dela.
E, naquele instante, Helena fechou os olhos por um segundo e fez uma pequena oração silenciosa — não por ela, mas por todas as mulheres que pintou, que ouviu, que reconheceu.
Que todas elas pudessem ter, um dia, a mesma sorte que ela.

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