"A segurança é quase uma superstição. Ela não existe na natureza, nem os filhos dos homens, como um todo, a experimentam." Helen Keller
Helena se apressou em virar o cavalete contra a parede assim que ouviu os passos de Santiago se aproximando da porta. Mabe já abanava o rabo feliz esperando-o ansiosa do lado de dentro.
Não queria que Santiago visse o quadro — não ainda. Queria revelar tudo de uma vez, como uma história completa, não pedaços soltos. Quando ele entrou na sala, encontrou-a ali, parada ao lado do cavalete virado, as mãos escondidas atrás do corpo como uma criança prestes a aprontar.
Santiago estreitou os olhos, desconfiado.
— O que você está escondendo de mim?
— Nada! — respondeu rápido demais.
Ele apontou com o queixo para o cavalete.
— Então por que isso aí está virado?
Helena ergueu o queixo com falsa inocência.
— Porque você já viu as duas primeiras telas. Agora… só vai ver quando eu tiver todas prontas.
Santiago colocou dramaticamente a mão no peito.
— Ai, isso é cruel!
Ela riu, aproximou-se e pousou as mãos no peito dele, enquanto ele a puxava pela cintura num gesto automático, natural entre eles.
— Para de drama, senhor Villar…
Ao pronunciar o sobrenome dele, algo acendeu em sua memória. A maleta. A que ela havia decidido parar de usar desde o relato dele sobre o avô. Estava esperando o momento certo para devolver... e talvez aquele fosse o momento.
— Vem. — disse ela, puxando-o pela mão em direção ao sofá. — Senta aqui.
Ele obedeceu, curioso.
— Agora fecha os olhos.
— Fechar os olhos? Mas por quê?
— Só faz, tá? — pediu ela, com aquele tom manhoso que derretia qualquer resistência.
Ele suspirou, mas fechou.
Helena caminhou até o aparador amarelo que a mãe havia comprado para guardar seus materiais de pintura. Abriu a porta, retirou a maleta com cuidado… ficou alguns segundos segurando-a, o peso emocional maior que o físico. Então voltou até ele.
— Coloca as palmas das mãos pra cima.
Santiago obedeceu, ainda às cegas. Sentiu o peso de um objeto rígido, sólido.
— Pode abrir.
Ele abriu os olhos devagar, como se o cérebro precisasse de alguns segundos para acompanhar o gesto. Piscou duas, três vezes, focando primeiro em Helena… e só então baixou o olhar para o objeto que repousava em suas mãos.
E, naquele instante, Santiago simplesmente… parou.
A maleta estava ali — sólida, antiga, marcada pelo tempo — mas parecia carregar o peso de uma vida inteira. Seus dedos a contornaram com cuidado, fechando-se nas laterais como se quisessem ter certeza de que aquilo não era uma miragem. O ar endureceu no peito dele, ficando pesado demais para ser respirado com facilidade.
— Helena… — murmurou, a voz rouca, quase quebrando. — Como você…?
Os olhos dele ficaram úmidos, mas nenhuma lágrima caiu. A emoção que o atravessava era densa demais, profunda demais para transbordar. Era o tipo de lembrança que não invade — implode.
Ele deslizou a mão pela superfície gasta da madeira, pelos cantos levemente amassados, pela alça de couro… até alcançar o sobrenome entalhado em um dos cantos. O toque parou ali. Demorou-se. Santiago engoliu em seco, absorvendo o momento como alguém que reencontra um pedaço perdido da própria história.
Helena sentou-se ao lado dele, deixando espaço para que ele respirasse aquilo no próprio tempo.
— Eu a encontrei no antiquário do bairro, no dia em que me mudei — contou, suave. — Estava junto do cavalete… acredito que ele também tenha sido do seu avô.
Santiago virou o olhar para o cavalete virado contra a parede. Bastou uma olhada para que a semelhança se tornasse inegável. Ele balançou a cabeça, ainda incrédulo.
— Meu Deus… como é possível?
Helena sorriu de lado, um sorriso pequeno, compreensivo.
— Eu também não sei. Fui até lá só para comprar o básico para passar a primeira noite aqui… Mas algo no fundo da loja me chamou atenção. Quando fui ver… estavam lá. Os dois. O cavalete… e a maleta.
Ele voltou a fitá-la — e agora havia mais que surpresa ou comoção ali. Havia admiração. Havia um reconhecimento silencioso. Uma espécie de destino compartilhado.
O avô dele havia se desfeito de tudo quando adoeceu, muitos anos antes. E, mesmo assim, de alguma forma, aqueles objetos tinham encontrado justamente o caminho até ela. E agora até ele.
— Quando você me contou sobre seu avô — continuou Helena — eu percebi que essa poderia ser a maleta dele. E… sinceramente? Acho que o lugar dela é com você.
Santiago a colocou ao lado, apoiada no braço do sofá, e então a puxou para um abraço — um abraço quente, forte, sem nenhuma contenção. O tipo de abraço que não agradece com palavras, mas com a alma inteira.
— Obrigado… — murmurou contra o pescoço dela, a voz embargada. — De verdade. Você não faz ideia do que isso significa pra mim. É… o melhor presente que eu já recebi.
Helena se afastou um pouco, apenas o suficiente para colocar as mãos delicadamente no rosto dele, acariciando as laterais com ternura.
— Fico feliz em te ver feliz. — disse, sincera.
Ele segurou a cintura dela, mantendo-a perto, e a intensidade em seus olhos fez a respiração dela falhar por um instante.
— Você nem imagina o quanto. — respondeu, profundo, firme, completamente vulnerável a ela.
Helena percebeu para onde aquele olhar os levaria — e o rubor subiu ao rosto antes mesmo que ela pudesse impedir. Pigarreou, quebrando com graça aquele fio perigoso de intimidade.
— É melhor a gente se arrumar — disse, rindo baixinho. — A Lívia deve chegar a qualquer momento.
Santiago suspirou, resignado.
— Está certo. — disse ele, pegando a maleta com cuidado, como se segurasse algo vivo. — Vamos.
...
Meia hora depois, a campainha tocou — duas vezes, impaciente — seguida da voz de Lívia ecoando pela porta aberta:
— Ei! Vocês já estão prontos?
Helena e Santiago apareceram na sala segundos depois.
Helena vestia uma calça jeans de cintura alta, preta, combinada com uma blusa curta de tricô, creme, leve, de mangas amplas. O cabelo estava solto, jogado de lado de um jeito despretensioso. Ela parecia confortável… e linda.
Santiago, por sua vez, usava uma camisa azul-marinho com as mangas dobradas até os cotovelos, jeans escuros e tênis brancos.
— Você não disse pra onde íamos — Helena reclamou, rindo — então eu não fazia ideia do que vestir.
— Vocês estão ótimos — garantiu Lívia, agitando a mão. — E falando nisso… vamos para O Lunário.
Santiago franziu as sobrancelhas.
— E isso seria o quê? Um observatório?
Lívia gargalhou, já entrando.
— Também, gênio. Mas, na verdade, é um pub muito legal. Vocês vão amar.
Mabe, animadíssima, abanou o rabo como se tivesse entendido que um grande passeio a aguardava.
— Dessa vez não, mocinha — disse Santiago, apontando o dedo para ela. — Você vai ficar no sobrado com o Marcelo.
A pastora alemã choramingou alto, como se estivesse protestando formalmente contra tamanha injustiça.
Quando saíram da casa, Pedro já os aguardava ao lado do Audi — novamente vestido dos pés à cabeça em preto, como se estivesse prestes a invadir uma fortaleza ou proteger um diplomata.
Lívia arqueou uma sobrancelha.

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