Entrar Via

Quadros de um divórcio romance Capítulo 93

"A segurança é quase uma superstição. Ela não existe na natureza, nem os filhos dos homens, como um todo, a experimentam." Helen Keller

Helena se apressou em virar o cavalete contra a parede assim que ouviu os passos de Santiago se aproximando da porta. Mabe já abanava o rabo feliz esperando-o ansiosa do lado de dentro.

Não queria que Santiago visse o quadro — não ainda. Queria revelar tudo de uma vez, como uma história completa, não pedaços soltos. Quando ele entrou na sala, encontrou-a ali, parada ao lado do cavalete virado, as mãos escondidas atrás do corpo como uma criança prestes a aprontar.

Santiago estreitou os olhos, desconfiado.

— O que você está escondendo de mim?

— Nada! — respondeu rápido demais.

Ele apontou com o queixo para o cavalete.

— Então por que isso aí está virado?

Helena ergueu o queixo com falsa inocência.

— Porque você já viu as duas primeiras telas. Agora… só vai ver quando eu tiver todas prontas.

Santiago colocou dramaticamente a mão no peito.

— Ai, isso é cruel!

Ela riu, aproximou-se e pousou as mãos no peito dele, enquanto ele a puxava pela cintura num gesto automático, natural entre eles.

— Para de drama, senhor Villar…

Ao pronunciar o sobrenome dele, algo acendeu em sua memória. A maleta. A que ela havia decidido parar de usar desde o relato dele sobre o avô. Estava esperando o momento certo para devolver... e talvez aquele fosse o momento.

— Vem. — disse ela, puxando-o pela mão em direção ao sofá. — Senta aqui.

Ele obedeceu, curioso.

— Agora fecha os olhos.

— Fechar os olhos? Mas por quê?

— Só faz, tá? — pediu ela, com aquele tom manhoso que derretia qualquer resistência.

Ele suspirou, mas fechou.

Helena caminhou até o aparador amarelo que a mãe havia comprado para guardar seus materiais de pintura. Abriu a porta, retirou a maleta com cuidado… ficou alguns segundos segurando-a, o peso emocional maior que o físico. Então voltou até ele.

— Coloca as palmas das mãos pra cima.

Santiago obedeceu, ainda às cegas. Sentiu o peso de um objeto rígido, sólido.

— Pode abrir.

Ele abriu os olhos devagar, como se o cérebro precisasse de alguns segundos para acompanhar o gesto. Piscou duas, três vezes, focando primeiro em Helena… e só então baixou o olhar para o objeto que repousava em suas mãos.

E, naquele instante, Santiago simplesmente… parou.

A maleta estava ali — sólida, antiga, marcada pelo tempo — mas parecia carregar o peso de uma vida inteira. Seus dedos a contornaram com cuidado, fechando-se nas laterais como se quisessem ter certeza de que aquilo não era uma miragem. O ar endureceu no peito dele, ficando pesado demais para ser respirado com facilidade.

— Helena… — murmurou, a voz rouca, quase quebrando. — Como você…?

Os olhos dele ficaram úmidos, mas nenhuma lágrima caiu. A emoção que o atravessava era densa demais, profunda demais para transbordar. Era o tipo de lembrança que não invade — implode.

Ele deslizou a mão pela superfície gasta da madeira, pelos cantos levemente amassados, pela alça de couro… até alcançar o sobrenome entalhado em um dos cantos. O toque parou ali. Demorou-se. Santiago engoliu em seco, absorvendo o momento como alguém que reencontra um pedaço perdido da própria história.

Helena sentou-se ao lado dele, deixando espaço para que ele respirasse aquilo no próprio tempo.

— Eu a encontrei no antiquário do bairro, no dia em que me mudei — contou, suave. — Estava junto do cavalete… acredito que ele também tenha sido do seu avô.

Santiago virou o olhar para o cavalete virado contra a parede. Bastou uma olhada para que a semelhança se tornasse inegável. Ele balançou a cabeça, ainda incrédulo.

— Meu Deus… como é possível?

Helena sorriu de lado, um sorriso pequeno, compreensivo.

— Eu também não sei. Fui até lá só para comprar o básico para passar a primeira noite aqui… Mas algo no fundo da loja me chamou atenção. Quando fui ver… estavam lá. Os dois. O cavalete… e a maleta.

Ele voltou a fitá-la — e agora havia mais que surpresa ou comoção ali. Havia admiração. Havia um reconhecimento silencioso. Uma espécie de destino compartilhado.

O avô dele havia se desfeito de tudo quando adoeceu, muitos anos antes. E, mesmo assim, de alguma forma, aqueles objetos tinham encontrado justamente o caminho até ela. E agora até ele.

— Quando você me contou sobre seu avô — continuou Helena — eu percebi que essa poderia ser a maleta dele. E… sinceramente? Acho que o lugar dela é com você.

Santiago a colocou ao lado, apoiada no braço do sofá, e então a puxou para um abraço — um abraço quente, forte, sem nenhuma contenção. O tipo de abraço que não agradece com palavras, mas com a alma inteira.

— Obrigado… — murmurou contra o pescoço dela, a voz embargada. — De verdade. Você não faz ideia do que isso significa pra mim. É… o melhor presente que eu já recebi.

Helena se afastou um pouco, apenas o suficiente para colocar as mãos delicadamente no rosto dele, acariciando as laterais com ternura.

— Fico feliz em te ver feliz. — disse, sincera.

Ele segurou a cintura dela, mantendo-a perto, e a intensidade em seus olhos fez a respiração dela falhar por um instante.

— Você nem imagina o quanto. — respondeu, profundo, firme, completamente vulnerável a ela.

Helena percebeu para onde aquele olhar os levaria — e o rubor subiu ao rosto antes mesmo que ela pudesse impedir. Pigarreou, quebrando com graça aquele fio perigoso de intimidade.

— É melhor a gente se arrumar — disse, rindo baixinho. — A Lívia deve chegar a qualquer momento.

Santiago suspirou, resignado.

— Está certo. — disse ele, pegando a maleta com cuidado, como se segurasse algo vivo. — Vamos.

...

Meia hora depois, a campainha tocou — duas vezes, impaciente — seguida da voz de Lívia ecoando pela porta aberta:

— Ei! Vocês já estão prontos?

Helena e Santiago apareceram na sala segundos depois.

Helena vestia uma calça jeans de cintura alta, preta, combinada com uma blusa curta de tricô, creme, leve, de mangas amplas. O cabelo estava solto, jogado de lado de um jeito despretensioso. Ela parecia confortável… e linda.

Santiago, por sua vez, usava uma camisa azul-marinho com as mangas dobradas até os cotovelos, jeans escuros e tênis brancos.

— Você não disse pra onde íamos — Helena reclamou, rindo — então eu não fazia ideia do que vestir.

— Vocês estão ótimos — garantiu Lívia, agitando a mão. — E falando nisso… vamos para O Lunário.

Santiago franziu as sobrancelhas.

— E isso seria o quê? Um observatório?

Lívia gargalhou, já entrando.

— Também, gênio. Mas, na verdade, é um pub muito legal. Vocês vão amar.

Mabe, animadíssima, abanou o rabo como se tivesse entendido que um grande passeio a aguardava.

— Dessa vez não, mocinha — disse Santiago, apontando o dedo para ela. — Você vai ficar no sobrado com o Marcelo.

A pastora alemã choramingou alto, como se estivesse protestando formalmente contra tamanha injustiça.

Quando saíram da casa, Pedro já os aguardava ao lado do Audi — novamente vestido dos pés à cabeça em preto, como se estivesse prestes a invadir uma fortaleza ou proteger um diplomata.

Lívia arqueou uma sobrancelha.

Santiago entendeu. O olhar dele suavizou.

Lívia olhou para os dois, rolou os olhos e sussurrou para Pedro:

— Se eu tiver que assistir mais cinco minutos disso, vou pedir três Selene de uma vez.

Pedro apenas riu, de canto, o olhar ainda atento. O garçom se aproximou, e eles começaram a escolher. Logo a mesa de encheu: tábua de queijos, mini hambúrgueres gourmet, brusquetas com cogumelos e alho negro, batatas rústicas com páprica defumada e drinks bonitos e elaborados.

Pedro ficou apenas no suco. Não perderia o foco de forma alguma.

Lívia ergueu o copo, já sorrindo com um brilho travesso.

— Um brinde — declarou, olhando para todos, mas especialmente para Helena. À minha amiga incrível e à sua parceria com o igualmente incrível Francesco Orsini.

Helena franziu a testa, corando um pouco.

— Você sabe que a gente ainda não fechou parceria nenhuma… certo? — perguntou, meio rindo, meio constrangida.

Lívia apenas piscou, atrevida.

— Você usou a palavra certa: ainda.

Vendo que não havia a menor chance de argumentar contra aquela convicção teimosa, Helena soltou uma risada rendida, ergueu o próprio copo e encontrou o de Lívia e dos demais no ar.

A noite estava linda. Tranquila. Exatamente como precisava ser.

Lívia e Pedro continuavam presos em uma discussão animada — ou melhor, uma troca de provocações que já beirava o embate verbal — enquanto Helena e Santiago assistiam à cena como quem assiste a um espetáculo de comédia improvisada.

Santiago segurava a mão de Helena sob a mesa, desenhando pequenos círculos distraídos na pele dela, quando ela murmurou:

— Vou ao banheiro rapidinho.

Ela se levantou, e o movimento chamou imediatamente a atenção de Pedro, que então ficou completamente alheio às investidas verbais de Lívia. A voz da advogada continuava, mas ele já não ouvia mais nada.

Os olhos dele acompanharam Helena pelo salão com a intensidade de um sensor automático.

Santiago percebeu.

— Ela só está indo ao toalete. — disse, num tom calmo.

Pedro olhou para o relógio no pulso e novamente na direção para onde Helena seguia. Tudo parecia calmo, mas lá no fundo, nas portas basculantes do corredor que levava aos banheiros e para a escada estreita do observatório, uma figura observava.

Uma sombra em silêncio. Um par de olhos perturbados que não podiam ser vistos de onde estavam.

O corredor era mais escuro, com várias pequenas lâmpadas em formato de estrelas imitando constelações na parede. O som do salão diminuía conforme Helena avançava, substituído pelo folk distante e pelo eco abafado da própria respiração.

Ela caminhava tranquila…, mas não totalmente. Uma pressão leve entre as omoplatas surgiu de repente. Um incômodo que parecia vir do ar. Como se algo estivesse um passo atrás dela — mesmo que não estivesse.

Ela entrou no banheiro feminino, lavou as mãos, ajeitou uma mecha rebelde do cabelo… e respirou fundo. Apenas um segundo. Apenas para acalmar o peito.

Quando saiu, o corredor estava silencioso e deserto.

Ela deu alguns passos. E então ouviu.

— Helena.

A voz saiu baixa. Baixa demais.

Não havia raiva nela.

O pior:

havia calma.

Helena parou. Não porque quis, mas porque o corpo parou antes da mente. Um arrepio subiu pela sua nuca como um dedo molhado traçando a espinha, lento, preciso, instintivo. O corredor parecia encolher ao redor dela, como se as paredes respirassem — ou segurassem o fôlego. Aquele sussurro com seu nome não vinha de alguém que deveria estar ali.

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Quadros de um divórcio