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Quadros de um divórcio romance Capítulo 94

“Uma pessoa possessiva não ama, faz reféns.”

Seu corpo inteiro endureceu como se reconhecesse um predador antes mesmo de virar.

Ela fechou os olhos por meio segundo — um reflexo antigo, quase apagado. Mas depois inspirou… e se virou devagar.

Cássio estava ali. Apoiado contra a parede de pedra escura, como se estivesse esperando por ela havia horas.

O rosto pálido. Os olhos vermelhos. A gravata solta. A camisa amassada.

Ele parecia… quebrado.

Mas havia outra coisa também. Algo torto. Algo obsessivo. Algo quase febril nos olhos.

— Precisamos conversar. — disse ele, com a voz arranhada. — Agora.

Helena piscou. A repulsa veio primeiro. A adrenalina veio em seguida.

Ela cruzou os braços, o queixo erguido — o corpo inteiro comunicando o que sua voz ainda não tinha dito.

— O que você está fazendo aqui?

Ele deu um passo. O tipo de passo que não era agressivo. Era… possessivo. E isso era ainda pior.

— Vim te buscar. — disse ele, como se fosse óbvio. Como se fosse direito dele. — Você não deveria estar aqui... — seus olhos tremularam — com ele.

O pulso de Helena latejou de fúria silenciosa. Algo dentro dela endureceu, como se uma porta tivesse acabado de se fechar.

E a próxima frase dela veio gelada:

— Cássio… saia do meu caminho.

Ele respirou fundo — rápido demais. Outro passo. Agora ele estava perto demais.

— Você é minha. — sussurrou ele.

Helena só percebeu o perigo real naquele corredor quando sentiu algo gelar na espinha. Não era apenas a presença dele. Era a ausência total de limites atrás daqueles olhos.

Ela virou-se com a intenção de correr, ou gritar, mas a palavra mal começou a nascer nos lábios.

— Soc…

Foi abafada imediatamente pela mão dele cobrindo sua boca. Um braço a agarrou pela cintura, firme como um aro de ferro, erguendo-a do chão com uma força que tirou o ar dos pulmões dela. Mesmo cometendo algo tão brutal, a voz dele soou baixa, controlada… assustadoramente lúcida.

— Eu disse que precisava conversar com você.

Helena lutou com todas as forças — braços, pernas, unhas. Mas ele era muito mais forte. Cada tentativa dela era engolida por aquele corpo rígido e determinado.

Cássio a arrastou para a saída dos fundos, empurrando a porta de emergência com o ombro. Do outro lado, um beco estreito de cascalhos e sombras. As unhas de Helena afundaram no braço dele, arrancando pele, mas ele não parecia sentir dor. Parecia… possuído.

Eles avançaram rápido até um carro escuro estacionado irregularmente, as luzes apagadas.

Helena conseguiu morder sua mão. Ele xingou baixo, soltando-a por um segundo — o suficiente para ela girar o corpo e tentar empurrá-lo.

Mas ele reagiu antes.

A mão dele empurrou o ombro dela com força e a cabeça de Helena bateu com estrondo na moldura superior da porta do carro. O corpo dela cedeu, desorientado, caindo parcialmente para dentro do veículo — pernas ainda para fora.

Em um movimento brutal, ele empurrou suas pernas para dentro e correu para o banco do motorista. O carro arrancou com violência, levantando poeira.

...

Na mesa, Pedro olhou o relógio novamente. Dez minutos. Era demais. A inquietação dele, que nunca era gratuita, virou uma flecha presa no peito.

Santiago percebeu — e não precisou de palavras. O olhar dos dois se encontrou, concordando com a mesma verdade muda: Algo estava errado.

Os dois se levantaram ao mesmo tempo, quase derrubando as bebidas. Lívia parou a fala no meio da frase.

— Ei! Onde vocês vão? — perguntou ela, alarmada.

Mas eles já estavam longe demais para responder.

Pedro fez um gesto rápido com a mão: Você — banheiro. Eu — saída.

Aquele mesmo pressentimento que o assombrava há anos tomou o peito dele como uma garra. A respiração ficou curta. As mãos suaram.

Não de novo. Não de novo. Não outra vez.

Ele cruzou o salão com passos longos, quase correndo, olhos vasculhando cada canto. Saiu pela porta principal, girando a cabeça de um lado para o outro — até que… viu.

Um pouco distante, no limite do beco lateral, Helena estava sendo arrastada por um homem em direção a um carro.

O coração de Pedro deu um salto doloroso.

Ele a reconheceu pela roupa, pelo cabelo. Mas estava longe demais para identificar o agressor.

Por um instante, Helena conseguiu se soltar — provavelmente o havia mordido. Ela tentou atacá-lo, mas ele a empurrou com força para dentro do carro.

A cabeça dela bateu com um estrondo seco na parte superior da porta. E o baque da cabeça dela contra o carro ecoou como um tiro no peito de Pedro. O corpo de Helena caiu, sem força, e as pernas ficaram pendendo para fora.

— NÃO! — rugiu ele, correndo.

Mas o carro arrancou.

Pedro disparou de volta para o Audi, deslizando pelo capô e entrando pela porta do motorista. As mãos tremiam, mas o corpo treinado assumiu o comando — frio, preciso, automático.

Ele ligou o carro antes mesmo de fechar a porta. Quando olhou pelo retrovisor, Santiago surgiu correndo pelo beco.

Pedro jogou o carro meio metro para o lado e abriu a porta para ele.

— ENTRA!

Santiago pulou para dentro e bateu a porta com força.

— O que aconteceu!? Onde ela está!? — a voz falhou, o desespero evidente.

Pedro não tirou os olhos da rua.

— Pegaram ela.

— O QUÊ?!

— Segura firme!

O Audi deu um solavanco ao saltar para frente, os pneus cantando alto. Pedro mantinha os dentes cerrados, o olhar duro, o corpo inclinado para frente como um caça.

Santiago agarrou o painel, o coração martelando como se fosse rasgar sua caixa torácica.

— Quem a pegou?!

— Não deu pra ver.

Eles alcançaram o cruzamento — e o carro suspeito apareceu alguns quarteirões à frente, acelerando como um tiro.

Pedro pisou fundo, desviando de dois veículos.

— Vai! Vai! Vai! — Santiago gritava, o sangue fervendo.

O Audi ganhava velocidade, mas a rua era cheia de curvas, postes e carros estacionados. Pedro dirigia como se conhecesse o mapa invisível de cada obstáculo.

— Ele está entrando na avenida! — gritou Santiago.

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