“As almas mais escuras não são aquelas que escolhem existir no inferno do abismo, mas aquelas que decidem se libertar do abismo e circular silenciosamente entre nós.”
Silvia voltou à empresa no final da tarde, quando o céu começava a perder o brilho e o prédio vibrava naquele silêncio apressado de fim de expediente. Sem passar em sua sala, ela seguiu direto para o escritório de Cássio. A porta, ao se abrir, deixou escapar um rangido baixo, como um pequeno aviso que ninguém além dela parecia ouvir.
O ambiente estava vazio. O ar ali dentro ainda carregava o perfume amadeirado dele, um vestígio que doía como uma ausência recente. Ela já havia tentado ligar no celular, mas a chamada nem chegava a completar. Preferiu acreditar que a bateria havia acabado e que ele simplesmente não tinha notado.
Tentando organizar o caos em sua mente, Silvia caminhou até o setor jurídico. No corredor, as luzes frias refletiam no piso polido, criando uma sequência de espelhos deformados que acompanhavam seus passos. Foi ali que encontrou Renato. A pergunta deixou seus lábios antes que pudesse suavizá-la:
— Você sabe onde o Cássio está?
Ele negou com um leve mover de cabeça, mas o gesto parecia pesado demais. Havia algo na expressão dele, uma preocupação cintilando como chama contida.
— Aconteceu alguma coisa?
Renato respirou com dificuldade, como se a resposta fosse um objeto cortante na garganta.
— Acho melhor você conversar com ele.
Sem dar margem a réplicas, ele se afastou, deixando para trás um silêncio maior que sua própria altura.
Sem encontrá-lo em mais nenhum setor, Silvia concluiu que Cássio já devia ter ido para casa. Não valia a pena insistir ali. Ela recolheu a bolsa do braço e saiu do prédio, caminhando alguns metros na expectativa de encontrar um táxi desocupado. Mas o horário de pico tinha sua própria coreografia cruel: buzinas, passos, carros como ondas contínuas.
Quando um sedã preto, de vidros escuros, parou diante dela, a cidade pareceu prender a respiração por um instante. A porta traseira se abriu com um clique seco. Nenhuma gentileza no gesto. Dentro havia um homem. Olhar impessoal. Voz minimalista. De quem cumpre ordens sem sentir nada.
— Entra. O chefe quer te ver.
Silvia sentiu o frio percorrer seu corpo como uma pedra de gelo descendo pela espinha. Um medo antigo, familiar, que não se aprendia a reconhecer com o tempo, apenas a temer mais rápido.
Ela sabia que dizer “não” era a pior das escolhas, então entrou, apertando o tecido da saia entre os dedos. Dois homens enormes ocupavam os bancos da frente, imóveis como esculturas esculpidas para intimidar.
Pisando em ovos, ela ousou perguntar:
— O que ele quer?
O homem ao lado apenas ergueu o olhar e respondeu com uma secura protocolar:
— Isso é só com ele.
Quando ele estendeu a venda, o gesto trouxe junto uma frase carregada de ameaça implícita:
— Você conhece os protocolos. Coloque isso.
O pano entre seus dedos pareceu ganhar peso material, quase simbólico — um contrato de submissão que ninguém assinava em papel.
— Vai colocar ou prefere que eu faça? — ele rebateu, já sem paciência.
Então Silvia ajustou a venda no rosto com as próprias mãos, dando um nó firme atrás da cabeça. Não era coragem. Era resignação embrulhada em sobrevivência.
Já fazia mais de 40 dias desde a última vez que vira Dante, e, naquela ocasião, ele não fora abertamente agressivo. Tinha sido uma convocação direta para receber atualizações e transmitir novas ordens. Ainda assim, ela saiu de lá com a sensação de ter perdido mais um pedaço de si, como pigmento arrancado de uma tela ainda úmida.
Silvia se amaldiçoava por ter sido ingênua o suficiente para se permitir envolver com tudo aquilo. O desespero tinha esse poder: empurrar as pessoas para o limite da própria dignidade.
Uma parte dela ainda acreditava que Márcio resolveria seu maior problema, Helena — e que, com a rival fora do jogo, seria mais fácil laçar Cássio de volta para sua teia. Mas Dante não era um homem que sabia aguardar calmarias. Ele colecionava controle, previsibilidade e resultados rápidos. Imprevistos o irritavam como manchas fora do traço planejado.
A viagem foi consumida pelos pensamentos dela. O tempo passava sem rosto, sem forma, até que a desaceleração do carro a trouxe abruptamente à realidade. As portas se abriram quase ao mesmo tempo, como um bater de asas metálicas. Uma mão firme a puxou pelo braço para fora. Quando a venda foi removida, Silvia piscou até que seus olhos capturassem o entorno.
Estava em um galpão de ferro e concreto, tristemente familiar — um cenário que guardava recordações que deveriam ser impossíveis de se arquivar sem ruir. Um dos capangas a empurrou:
— Anda!
Com as pernas trêmulas, Silvia avançou até a porta dos fundos. Sabia que o interior não se pareceria com aquela fachada abandonada e decadente. Era de um luxo puro financiado por dinheiro que cheirava a ferrugem moral.
O mais alto dos três, com uma tatuagem de arame farpado no rosto, ergueu o punho e bateu na velha porta de ferro vermelho sangue. A palavra saiu como um selo, quase ritualístico: inferno.
E então a porta se abriu por dentro.
O ambiente engolia o contraste com avidez. Se o galpão externo era desolação calculada, o interior era o oposto: uma antecâmara de luxúria pesada e desconfortável. O primeiro impacto era visual — papéis de parede em veludo grafite com arabescos dourados que lembravam molduras barrocas roubadas de uma catedral profana.
O cheiro mudava: cera de móveis importados, couro tratado e um leve incenso adocicado tentando purificar o que não tinha salvação.
No centro, um lustre colossal de cristal lapidado lançava fractais de luz sobre uma mesa circular de mármore negro. Havia sofás baixos de couro, obras de arte contemporânea caras demais para terem sido adquiridas honestamente e um tapete persa espesso o suficiente para abafar passos, decisões e possivelmente consciências.
Um corredor lateral se estendia como uma pincelada deliberadamente longa, ladeado por arandelas em vidro fumê que ofereciam uma meia-luz teatral. Portas internas em madeira laqueada negra interrompiam as paredes em intervalos matematicamente perfeitos, quase um metrônomo arquitetônico. O espaço era tão belo quanto perturbador.
Pararam diante de uma grande porta de madeira de duas folhas. O capanga nem chegou a olhar para trás ao girar a maçaneta.
— Entra! — ordenou ele, empurrando a porta com o peso de quem já executou aquele gesto dezenas de vezes.
Silvia hesitou apenas pelo espaço de uma respiração curta, mínima — o tempo de reconhecer o inevitável. Então entrou. Como em todo o resto do lugar, não havia ali janelas amplas, abertas, respirando luz ou ar. Apenas frestas estreitas, instaladas no alto das paredes, lâminas de vidro que deixavam escapar fiapos de claridade fraca demais para acalmar qualquer coisa.
O ar era denso, quase palpável, acumulado nos cantos como mobília invisível. A arquitetura parecia feita para sufocar ecos, escolhas e coragem.
O vinho era a cor dominante, reverberando em diferentes texturas como uma paleta obsessiva. Estava na cabeceira alta da cama king size, nos papéis de parede aveludados, nos sofás de couro escuro, polidos e brilhantes como uma promessa cara e sinistra.
Até a penumbra do quarto refletia tons rubros, como se a própria luz tivesse sido mergulhada em taça profunda antes de ser instalada ali.
Era em um dos sofás que ele estava sentado.
Dante tinha uma perna dobrada, o pé pousado sobre o joelho oposto, uma postura confortável demais para a violência que exalava sem esforço. O braço largo, estendido pela lateral do móvel, parecia desinteressado, quase lânguido — mas tudo nele era calculado, mesmo quando fingia preguiça.
Entre os dedos, o charuto queimava lento, grosso, perfumando o ambiente com um aroma terroso e adocicado que se misturava ao do couro e da cera das madeiras. A fumaça subia espiralada, ritualística, como se dançasse no mesmo compasso da respiração dele. Seu rosto permanecia indecifrável, uma máscara impenetrável feita de silêncio e poder.
Para Silvia, olhar para ele era como encarar o contorno do próprio pavor. Não era apenas medo: era memória. Um pesadelo que tinha endereço, voz, cheiro e forma humana.
Por um longo momento, Dante não disse nada. Apenas a examinava com aqueles olhos frios, límpidos como metal recém polido, olhos que não reconheciam falhas, apenas utilidade.
Até que, por fim, a voz surgiu:
— Venha aqui.
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