“Nada mancha tanto quanto a tentativa de parecer limpo.” George Orwell
Cássio serpenteava pelas ruas como alguém que recita um mantra de poder para si mesmo. Helena, finalmente, estava outra vez sob seu controle, apagada no banco de trás do carro, como um troféu silencioso que já não podia protestar.
Ele acreditou, por um momento, que resolveria tudo, que a vida retornaria ao eixo que ele mesmo desenhara, perfeito como um quadro realista sem manchas. Mas seu corpo não parecia concordar. A cabeça dele pulsava com violência, fervendo contra o interior do crânio, quente como ressaca de uma noite que nunca foi bebida. Um latejar era bruto, confuso.
Talvez fosse o efeito prolongado do tempo em que a observara no pub. O contraste ainda ardia na mente dele: ela rindo entre amigos, feliz, leve, luminosa, enquanto aquele idiota convencido ocupava espaço demais ao lado dela. A alegria dela parecia insulto pessoal. E justamente por isso, ele já imaginava o futuro como quem rascunha planos num guardanapo antes da catástrofe: levaria Helena para um lugar isolado, um intervalo forçado de silêncio, e quando ela finalmente voltasse a ser quem era, ele a traria de volta. Ela o amaria de novo. Tudo voltaria ao lugar. Era um plano rudimentar, obsessivo, quase pueril na fé que carregava.
Mas o flash do farol no retrovisor rasgou a fantasia como solvente jogado na tinta ainda fresca. Um carro se aproximava rápido demais, agressivo demais — e quando ele viu que estava sendo seguido, a cidade perdeu o som ao redor dele.
— Merda! — vociferou, o pé afundando no acelerador.
O carro opositor não desgrudava. Era persistente como destino que não se desvia com bravatas. Ele forçou uma curva violenta e entrou numa área industrial deserta, um labirinto de concreto sujo e ferro exposto, acreditando ter despistado a ameaça. Mas, como truque de palco grotesco, o perseguidor surgiu à frente do nada, bloqueando a rua como surgimento de um erro que jamais devia existir. A freada foi instintiva. O carro derrapou cantando pneu, raspou um poste, subiu na calçada e empurrou o corpo dele para a frente com brutalidade.
A cabeça colidiu com o painel. A dor explodiu em corte quente no supercílio. Quando ergueu o rosto, atordoado, a vista embaçada pelo sangue que começava a escorrer, viu Santiago no banco do passageiro.
— Maldito! — murmurou ele, a voz engolida pela concussão.
A adrenalina tomou o corpo dele pela mão e o empurrou para fora do carro às pressas. Tropeçou nos primeiros passos, a perna rangendo desconforto e peso. Num relance nervoso, ele viu Helena, imóvel, apagada no banco de trás, e sentiu o roteiro virar contra ele próprio. A sorte o traíra. Ele não era mais quem conduzia aquela cena. Agora era periferia dela.
Os passos vieram do lado de fora, rápidos, pesados. Então a mesma presença que ele vira no pub surgiu com contorno definido no som: um homem negro, enorme e rígido demais para estar ali sem propósito maior, perseguindo como sentença em duas pernas sólidas.
Cássio se lançou por um corredor imundo entre prédios, escuro como subsolo moral, o corpo protestando a cada passada. Seus olhos encontraram uma abertura sem grade que levava ao porão de um dos edifícios. Sem raciocinar mais que um instinto, ele se projetou pela abertura e caiu sobre paletes de madeira empilhados desajeitadamente. Uma quina atingiu sua lateral. Ele reprimiu um grito de dor, sufocando a voz no próprio peito.
O lado de fora silenciou novamente. Ele prendeu a respiração, congelado. Não ousava se mover. O homem ainda respirava ameaça na memória dele. Mas instantes depois os passos se afastaram e o motor do carro arrancou violento. O pior então aconteceu na mente dele como um mapa novo de pavor: Helena não estava mais ali. Haviam levado ela.
Ferido e impotente, ele empilhou os paletes para alcançar a saída do porão e voltou até o carro, mancando, o corpo carregando provas vivas da própria ruína. A lateral do corpo dele já tomava um roxo extenso, crescendo como infiltração de hematomas numa tela clara demais. Ao tentar dar a partida, nada funcionou. O carro estava morto como o plano abandonado no meio da execução.
Ele saiu e agarrou os fios do cabelo com os punhos trêmulos. O chute na lateral do carro não trouxe som de satisfação. Apenas uma dor ainda mais funda na perna, na sorte, na falha completa do contexto. Ele percebeu, então, com um estalo horrível de consciência, que ele próprio estava na cena do crime que acreditava controlar. Ele havia tentado raptar Helena. Ela havia batido a cabeça e apagado.
Pegou o celular. A bateria descarregada ria da frustração dele com ironia. Ele quis arremessar o aparelho no asfalto, mas aquilo seria apenas mais uma prova do que havia feito.
Ele voltou até a avenida, pálido, sujo e machucado.
Lá, acenou. Um táxi finalmente parou.
— Pra onde? — perguntou o motorista.
Cássio passou o endereço de casa. A voz abraçada à normalidade como quem abraça fraude confortável.
Passou a viagem pálido e quieto. A mente vagando por tudo e nada ao mesmo tempo.
Ao parar em frente à casa, estendeu duas notas de cem para o motorista e saiu sem falar nada.
Tudo parecia irreal demais para ele, como se nada daquilo houvesse realmente acontecido, como se vivesse em um sonho ironicamente cruel desde que Helena lhe entregara os papéis do divórcio.
Com as mãos tremulas, abriu a porta. O fato de o interior estar totalmente escuro sinalizava que Silvia não estava ali. Respirou aliviado, vê-la naquele momento era tudo que não queria.
No entanto, ao abrir a porta e acender a luz, uma presença o esperava no sofá no mesmo lugar onde Helena costumava esperá-lo.
Mas não era Helena ali. No seu lugar estava um homem feito de contrastes ásperos. Alto e esguio, não de forma elegante, mas intimidante — como uma torre que estreita o próprio espaço ao redor.
Cássio estacou com um pressentimento ruim, um aviso sem palavras. Nunca vira aquele sujeito antes. A dúvida ecoou na mente dele como pergunta pintada no ar: “Quem ele era e o que fazia ali?”
— Fique calmo. Estou aqui para te ajudar. — A voz do homem era baixa, estável, com a tranquilidade perigosa de quem define o curso sem alterar o tom.
— Calmo? Quem é você e o que faz aqui? — A resposta de Cássio escapou entre a raiva e o medo, um tom instável demais para disfarçar qualquer coisa.
O homem tinha o tom da pele num queimado de sol antigo, como quem envelhece na rua, mas os traços eram pontos de referência de um poder que não precisava ser anunciado: a mandíbula marcada como pedra talhada, o nariz com uma leve quebra lateral denunciando um passado de brigas vencidas, e a boca fina, quase sempre em um repouso tenso, como se sorrir fosse um desperdício de músculo.
— Meu nome é Dante. E como eu disse… estou aqui pra te ajudar. — declarou ele, apontando discretamente para o sofá. — Agora, senta.
A ordem caiu sobre Cássio como corrente invisível. O sangue pareceu correr no sentido oposto dentro dele, confundindo pulsação e orgulho. E justamente por isso, a obediência veio mecânica, automática, surpreendendo a ele mesmo. Cássio jamais se curvava. Ele era quem costumava entortar o mundo dos outros, não o próprio.

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