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Quadros de um divórcio romance Capítulo 97

“A aflição não grita. Ela anda, desgasta e espera. A gente só percebe o tamanho do estrago quando o mundo já ficou perigoso demais para ficar em silêncio.”

Duas horas. Foi aproximadamente o tempo que a angústia decidiu testar todos eles. Quando a médica retornou à sala de espera, a noite já tinha deslizado para um tom mais lento, de expectativa quase insuportável. Lívia havia chegado meia hora depois da entrada deles no hospital, encontrando um cenário dividido em silêncios diferentes: Pedro aguardava sentado, os braços cruzados, o corpo endurecido numa calma defensiva, como quem segura a respiração para não tremer. Santiago, por outro lado, parecia incapaz de negociar com a imobilidade. Ele andava de um lado para o outro, passos incansáveis abrindo crateras imaginárias no piso, como se cada volta pudesse aproximá-lo um pouco da resposta que ninguém tinha. Lívia alternava entre roer as unhas com força e lançar impropérios nada delicados em direção a Cássio, palavras que tinham a mesma textura do medo colado na garganta.

Os três se levantaram quase ao mesmo tempo ao notarem a presença da médica, atraídos por um ímã invisível feito de ansiedade e esperança.

— Como ela está? — perguntou Lívia, a urgência escapando primeiro na voz antes de se organizar como pergunta.

— A gente já pode entrar? — emendou Santiago, atropelando formalidades.

Pedro apenas fitava a médica, sem palavras. Ele era o silêncio que esperava explodir em alívio ou tragédia.

— Calma, — disse a médica ao erguer as mãos num gesto tranquilizador. — Está tudo bem.

A frase não veio como consolo leve. Era muro sólido erguido contra o pior.

— Fizemos a ressonância e felizmente não houve mesmo nenhum dano interno. Estamos com o hospital lotado e com falta de vaga, por isso já estão preparando para que ela receba alta. Mas será necessário que a observem e se ela apresentar qualquer sinal atípico, retornem com ela imediatamente. Está bem?

Todos concordaram.

— Podem entrar, — concluiu a médica. — Ela está chamando por vocês.

Quando entraram no quarto, a enfermeira ajudava Helena a descer da cama. Ela sorriu ao ver os amigos. Um sorriso doce.

Santiago já estava diante dela antes que qualquer coisa precisasse ser dita. Ele segurou as mãos de Helena e começou a mapear o corpo dela com os olhos em busca de ferimentos.

— Você está mesmo bem? — perguntou ele. Não era dúvida. Era medo.

— Estou, — respondeu Helena, com um sorriso um pouco mais firme, um pouco mais alto do que imaginava possível naquela noite. — Eu estou bem.

Mas foi Lívia quem se espatifou emocionalmente primeiro.

Santiago foi empurrado para o lado quando ela abraçou a amiga com força, um abraço trêmulo.

— Me perdoa, — começou Lívia, a voz falhando, a culpa tentando se apropriar dela à força. — A culpa é minha. Eu devia ter ido com você no banheiro. Se eu pego aquele desgraçado, eu juro...

— Chega, — cortou Helena, a mão dela indo até as costas de Lívia em tapinhas firmes, quase rítmicos. — Você não tem culpa de nada. O único culpado é aquele doente.

Lívia fungou, o ódio ainda procurando direção.

Quando finalmente deixaram o hospital, a madrugada já havia dominado a cidade com suas mãos longas. Lívia quis acompanhá-los até a casa de Helena, mas, ao lembrar que Santiago passaria a noite com ela, a coragem recuou por um instante, a delicadeza social se tornando maior que o medo da situação.

— Vou pra casa, — disse ela, segurando as mãos da amiga por um último tempo. — Amanhã cedinho eu passo lá, tá?

Helena apenas assentiu, a voz sem ar suficiente para carregar falas longas.

Já era quase uma da manhã quando Pedro estacionou em frente à casa, o carro escuro estalando silêncio no motor ao ser desligado. Santiago saiu do carro, fez a volta do veículo rápido demais e abriu a porta para ajudá-la a descer.

Helena apoiou a mão na lateral dele, não por fraqueza, mas por aceitar o gesto — o toque macio demais para combinar com o cenário de ferro que ainda a rondava na memória.

Já com ela a caminho da porta, Santiago virou-se para Pedro e soltou, em um tom já mais leve:

— A gente se fala amanhã.

Pedro assentiu, observando os dois entrarem, sem imaginar ainda que aquela calmaria era apenas o rascunho de outra tempestade.

Foi então que Mabe surgiu na janela do sobrado, latindo frenética em direção à casa. A rigidez do alerta canino trouxe uma sensação estranha a Pedro, um desconforto sem tradução exata. A cachorra parecia querer avisar que havia algo errado. Pedro sentiu a dúvida nascer, intriga e medo se costurando na mente.

Quando Pedro voltou a atenção para a porta, o braço de Santiago já subia, rumo ao interruptor de luz.

— Para! — esbravejou, a voz urgente demais para permitir negociação.

O braço de Santiago congelou no meio do gesto. O cheiro chegou antes da consciência. Um aroma químico e pesado, doce demais, sufocante demais. Helena e Santiago se entreolharam, atônitos, o pavor escorrendo nos olhos arregalados dela.

— É gás! — alertou Pedro que já estava atrás deles. — Pra fora. Agora.

Marcelo chegou às pressas com Mabe em seu encalço, olhos confusos e respiração rápida tentando acompanhar o caos.

— O que aconteceu? — perguntou ele, espanto e culpa já ensaiando os contornos da frase.

— Não sabemos ainda, — respondeu Santiago, — a casa está cheia de gás.

Ele abraçava os ombros de Helena, enquanto ela olhava espantada para a casa.

Pedro tirou a camiseta, encharcou o pano na torneira do jardim, o levou ao rosto como uma máscara improvisada e entrou na casa.

Lá dentro, a escuridão era cúmplice do cheiro. Ele encontrou o registro principal, girou a válvula até fechá-lo. Abriu todas as janelas e portas, deixando o ar circular. Só então achou o ponto de origem do vazamento: a mangueira na saída do fogão estava cortada. O corte era preciso. Deliberado. Uma assinatura clara de intenção criminosa.

Ele voltou até os amigos ainda parados na rua que começava a se encher de vizinhos curiosos.

— Foi proposital, — constatou Pedro, — cortaram a mangueira.

O espanto atingiu Marcelo primeiro, o orgulho se desfazendo num segundo soco de falha completa:

— Isso é impossível. Fiquei de olho na rua a noite toda.

— Com certeza a pessoa já sabe que estamos vigiando e encontrou um ponto cego. — concluiu Pedro.

Ele pegou o celular no console do carro e discou para a delegacia, após ele relatar o ocorrido a voz da atendente soou no viva-voz, neutra como ofício burocrático: uma viatura já estava a caminho.

Quando Pedro se voltou novamente para Helena e Santiago, o semblante dos dois era de puro pavor. Helena tinha os olhos marejados, o choque tentando sair em lágrimas desta vez.

— Meu Deus, Pedro… se não fosse você… — a voz dela se partiu no meio da frase oferecendo gratidão atônita. — Não sei nem como te agradecer.

Pedro sorriu de lado, leve e mínimo.

— Agradece a Mabe. Eu só fui atrás do alerta dela.

Santiago se abaixou e afagou a cabeça da cachorra.

— Você é mesmo uma boa garota… não é?

Marcelo voltou para o sobrado ainda com o corpo em estado de alerta. Precisava repassar todas as filmagens daquela noite. A ideia de que alguém havia invadido a casa sem que ele percebesse o corroía por dentro, como se tivesse falhado em algo que ele próprio tinha se proposto a garantir.

— Vocês disseram que foi o senhor Cássio quem tentou sequestrar a senhorita hoje mais cedo. Confirmam isso? — perguntou um dos policiais.

— Sim — respondeu Santiago, a testa franzida. — Por quê?

O outro policial tomou a palavra:

— Fomos até o local que vocês informaram, onde o carro teria parado, mas não encontramos nada além de marcas de pneu no chão. Também tentamos acessar imagens de câmeras de segurança no trajeto entre o pub e o lugar, mas parece que todas foram apagadas.

O colega completou:

— Também fomos até a casa dele, mas não havia ninguém. Ao checar os registros, fomos informados de que ele pegou um voo no fim da tarde. A companhia confirmou o embarque.

Helena arregalou os olhos, a voz saindo num fio desesperado:

— Mas era ele. Eu tenho certeza... — os olhos começaram a marejar novamente.

— Nós acreditamos em vocês — disse o policial com calma. — Seus amigos já haviam relatado tudo. Mas sem provas, não há muito o que possamos fazer por enquanto, além de interrogá-lo quando ele voltar.

— Maldito… — murmurou Santiago, socando a mesa com força.

Pedro cobriu a boca com uma das mãos, pensando rápido, como se tentasse agarrar um fio de lógica solto no meio do caos.

— Ele não pegou avião nenhum — disse, por fim. — Isso foi arrumado pra servir de álibi. Mas ele se machucou no acidente. Eu vi quando ele saiu do carro, o supercílio dele estava sangrando… deve haver respingos de sangue no local.

Um dos policiais balançou a cabeça.

— Se havia, provavelmente já foi limpo. Não encontramos nada.

Todos pareciam confuso, como ele conseguirá se livrar de tudo em tão pouco tempo?

— Mas e o carro? — insistiu Pedro. — Era o carro dele. Esse carro tem que estar em algum lugar. O carro é uma prova.

— Pode ser — admitiu o policial —, mas não sabemos nem por onde começar a procurar. Vamos ter que esperar ele voltar pra saber onde esse veículo está.

— Ele é mesmo um cretino esperto — constatou Marcelo, só então entendendo a dimensão do que tinha acontecido naquela noite.

— Vocês acham que ele pode estar envolvido na invasão também? — perguntou um dos policiais.

Todos olharam para Helena. De todos ali, era ela quem o conhecia melhor.

Ela respirou fundo, os ombros pesados.

— Eu já não sei mais nada… — respondeu, balançando a cabeça, exausta. — Quando ele me abordou no pub, disse que queria conversar. Quando eu disse que não, ele tampou minha boca e me arrastou. Ele parecia desequilibrado… não era ele mesmo.

A mão dela foi instintivamente à parte de trás da cabeça, onde a lesão latejava. O rosto se contraiu de dor.

— Você precisa descansar — disse Santiago, aproximando-se e amparando-a pelos ombros.

Os policiais trocaram um olhar rápido. Ficava claro que, depois de tudo o que ela passara, forçar mais qualquer coisa naquela noite seria desumano.

— Já temos o suficiente pra começar a investigar — disse um deles. — Descansem. Qualquer coisa, a gente entra em contato.

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