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Quadros de um divórcio romance Capítulo 98

"A resiliência é ter dentro de si um Sol que nunca se põe." O Pequeno Mestre

Quando os policiais finalmente deixaram a casa, Santiago conduziu Helena pelo corredor até o quarto.

Atrás deles, Mabe os seguia em silêncio quente e fiel, as patinhas tocando o piso com um ruído suave, quase musical, um contraponto delicado à coreografia dura que a madrugada impunha lá fora.

O quarto tinha outra atmosfera desde a última vez em que ele estivera ali. Embora as pequenas reformas, providenciadas por Marcelo, tenham sido no primeiro piso para que nenhum trabalhador visse o que faziam no andar de cima, o próprio Marcelo fizera melhorias discretas também no segundo andar.

Agora o quarto parecia mais limpo arejado. Santiago pôde atestar que haviam dado um jeito na velha fiação ao abrir o registro do banheiro e encontrar a água aquecida fluindo.

Quando ele retornou ao quarto, Helena o esperava, as mãos entrelaçadas em frente ao corpo, com uma postura um pouco desconfortável.

— Eu sei que não é a tão acolhedor quanto sua casa, — disse ele, sentando-se na beira da cama. — Mas será apenas por esta noite.

Helena levantou o rosto num impulso, agitando as mãos, quase aflita pela impressão errônea que ele estava tendo:

— Oh, não! O lugar é ótimo. — apressou-se ela. — Eu só lamento estar dando trabalho de novo.

Santiago se aproximou, reconhecendo a vulnerabilidade nela. Ele segurou o rosto dela, as mãos firmes e quentes.

— Cuidar de você nunca será um trabalho pra mim, — murmurou ele, a sinceridade escorrendo na fala. — A vida tem te testado demais... e eu fico admirado ao ver o quão forte você é.

Ela respirou fundo, os olhos se fechando por um milésimo de segundo.

— Tá bem, — disse ela baixinho, o sorriso renascendo menor, tímido e doce.

Ele se afastou alguns centímetros.

— Quer tomar um Banho? — perguntou. — Como você não pode pegar uma roupa na sua casa, posso te emprestar uma de minhas camisetas. Ou então posso pedir para que o Marcelo saia e providenciei alg...

— Não, — Helena o interrompeu, sorriso leve, olhar cansado. — Uma camiseta sua será perfeito.

E sem embaraço maior, foi para o banheiro com os passos ainda um pouco trêmulos, o corpo protestando do impacto da noite.

— Quer que eu te ajude? Quer dizer... por causa da pancada na cabeça...

— Não precisa. Eu estou bem. Qualquer coisa eu te chamo.

— Então não tranca a porta, — disse ele antes de ouvi-la girar a maçaneta.

— Ok, — respondeu ela, já ligando o chuveiro.

Quando ele ouviu o barulho da água, foi rapidamente conversar com Pedro e Marcelo. Não queria deixá-la sozinha, mas precisava dar uma última olhada em como estavam as coisas.

Marcelo estava sozinho, silencioso e atento.

— Cadê o Pedro? — Santiago perguntou, voz baixa, mas curiosa.

— O rapaz estava cansado, então disse-lhe para ir dormir um pouco no quarto que ajeitei ao lado do seu.

— Fez bem, não há nada que ele pudesse fazer agora de todo jeito.

Marcelo assentiu, o deslize de não ter visto o invasor antes ainda pesando sua culpa.

— E quanto aos policiais? — perguntou Santiago, olhando discretamente pela janela e percebendo o movimento das luzes vermelhas das viaturas ainda estacionadas na rua.

— Os peritos ainda não chegaram. — Responde Marcelo. — Mas tomara que encontrem alguma coisa.

— Tomara.

— Sabe o que eu não entendo? — Instigou Marcelo. — Os caras que coloquei na cola do Cássio não o viram sair. Acho que ninguém viu...

— Acha que ele deixou a empresa escondido de todo mundo?

— Ao que tudo indica, sim.

Santiago balançou a cabeça tentando encontrar sentido em tudo aquilo, não encontrando, deu-se por vencido.

— Bem, preciso voltar. Qualquer coisa me avisa.

— Pode deixar.

Quando Helena voltou pro quarto, vestindo apenas lingerie e a camiseta dele, larga o suficiente para parecer vestido solto, Santiago estava deitado na cama. Mesmo o cômodo iluminado apenas pela luz fraca de uma luminária, ainda era possível ver em suas olheiras profundas o quanto também estava cansado.

— Já pode ir tomar seu banho. — disse ela, a voz mole, quase a ponto de se dissolver em sono tardio.

Ele sorriu, sem se levantar:

— Não, vou esperar você dormir primeiro.

Ele deu alguns tapinhas na cama ao seu lado para que ela se juntasse a ele. E assim ela fez. Deitou-se, aninhando a cabeça no ombro dele. A mão dele foi automaticamente para o coque desleixado dela para fazer cafuné, tomando cuidado para não tocar a parte ferida, enquanto ela abraçava sua cintura dele.

Mabe também subiu na cama, deitando do lado das pernas dela.

— Tá com fome? — perguntou ele de repente, lembrando apenas naquele segundo do encontro interrompido no pub, da mesa farta, da comida que nem chegaram a terminar.

Ela também se lembrou da noite maravilhosa que dividiam antes que Cássio tirasse mais isso dela. A raiva voltou a queimar seu olhar. “Como não havia visto o quanto aquele homem era desprezível?”

Ela quase não o reconheceu naquela noite. Parecia um louco.

Ela sacudiu a cabeça levemente, incomodada em se permitir direcionar até mesmo um pensamento a ele. Para ela, ele não era digno nem disso mais.

— Não. Mesmo se eu quisesse comer agora… não conseguiria. Tá tudo entalado aqui ainda.

Apontou a garganta de forma involuntária, o gesto visual traduzindo mais que palavras: cansaço + angústia + impacto.

A sensação dos dedos dele correndo pelos fios de seu cabelo era tão reconfortante que parecia dissolver o que a noite tinha deixado seco demais.

— Por que o Marcelo às vezes te chama de Santi? — perguntou Helena com a voz começando a ficar arrastada de sono.

— Por causa dos meus pais… — ele respondeu. — Eles sempre me chamaram assim.

— Eu gosto, — disse ela sorrindo. — Santi... soa bonito. Você sabe o que Santhi significa?

Ele virou a cabeça um pouco para encará-la, curioso.

— Paz, — respondeu ela olhando-o de volta. — E é exatamente isso que eu sinto quando estou com você.

Algo se acendeu dentro dele. Um calor gostoso no peito. Ele perguntou de volta.

— E você… sabe o que o teu nome significa?

— Minha mãe sempre dizia que era luz, — respondeu ela, olhos quase fechando de vez.

Ele sorriu, observando o corpo dela se entregar ao sono de vez.

— Luz... você realmente é uma luz e tanto, — murmurou ele, inclinado e dando um beijo na testa dela. — Agora dorme.

...

Lívia levou a mão ao peito, tentando alinhar os próprios batimentos:

— Graças a Deus. Mas o que foi que aconteceu?

Eles contaram tudo. Do cheiro de gás a mangueira cortada. Lívia não parecia acreditar completamente ainda. Helena já tinha dor o suficiente para um ontem inteiro, e mesmo assim, parecia que a vida continuava testando a arquitetura ao redor dela.

— Acho que você devia vir pra minha casa, de verdade, — insistiu Lívia. — Aqui não parece seguro.

Pedro falou antes que Helena precisasse ajustar o argumento:

— Depois do que aconteceu ontem, quem fez isso não vai voltar agora. Seria se expor demais.

— Como você pode ter tanta certeza? — perguntou ela, ressabiada.

— Porque esse é o meu trabalho. — respondeu ele, calmo, um contorno leve de sorriso no canto resultado da própria convicção.

Helena segurou então o fio da conversa e se virou para Pedro, a fala já mais firme, mas não menos humana:

— Eu sei que você está aqui a pedido de Santi para me proteger. E agora que eu já sei de tudo… não seria melhor ficar lá em casa? Minha mãe já arrumou dois dos outros quartos. Eu me sentiria mais segura tendo você lá.

Ela lançou o olhar primeiro para Santiago, procurando apoio. Ele sabia que não era apenas pela segurança que ela pedia isso. Ela queria que eles ficassem em um lugar mais confortável, ainda mais sabendo que estavam ali por ela.

— Eu também acho que seria melhor. — Concordou Santiago.

Pedro respondeu com um meio riso, breve, frio na textura, mas sincero na direção:

— Se é assim… por mim, tudo bem.

— Isso serve pra você também, Marcelo — completou Helena.

Marcelo assentiu, a culpa já se acomodando num contorno mais silencioso do corpo:

— Então vou ajeitar as coisas. Seria bom colocarmos câmeras lá agora.

— Faça isso! _ Concordou Santiago.

Lívia só então se lembrou das sacolas largadas no chão da entrada.

— Ah! O café da manhã, — disse, erguendo as embalagens. — Sem drama, gente. Café primeiro.

Riram. Não porque esquecer era fácil. Mas porque, por alguns segundos, a vida estava gentil o bastante para permitir humor.

Helena reuniu coragem no fôlego, mas o sentimento não tinha gosto de bravura ainda — era mais necessidade que escolha. O que ela queria, de verdade, era não sentir de novo a impotência que a noite tinha deixado grudada no corpo e nos pensamentos. Ela se virou para Pedro com os dedos entrelaçados, quase um pouco sem jeito, mas firme o bastante para não soar frágil:

— Eu também queria te pedir outro favor…

Pedro apenas inclinou levemente a cabeça para que ela continuasse. O silêncio dele era um convite.

Ela engoliu o nó na garganta e prosseguiu:

— Quero que me ensine a me proteger. Se eu tivesse me dedicado a isso antes, talvez…

A frase ficou suspensa, mas ainda assim todos ali sentiram o contorno do que ela não dizia. Se ela soubesse reagir, se ela tivesse se preparado, a história da noite anterior não teria acontecido daquele jeito.

Pedro apenas assentiu com um leve mover de cabeça:

— Claro. Com prazer. Mas já aviso: vou pegar leve só no início.

Com café em mãos e cansaço nos olhos, todos riram. E finalmente o ar pareceu ficar um pouco mais leve.

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