"A resiliência é ter dentro de si um Sol que nunca se põe." O Pequeno Mestre
Quando os policiais finalmente deixaram a casa, Santiago conduziu Helena pelo corredor até o quarto.
Atrás deles, Mabe os seguia em silêncio quente e fiel, as patinhas tocando o piso com um ruído suave, quase musical, um contraponto delicado à coreografia dura que a madrugada impunha lá fora.
O quarto tinha outra atmosfera desde a última vez em que ele estivera ali. Embora as pequenas reformas, providenciadas por Marcelo, tenham sido no primeiro piso para que nenhum trabalhador visse o que faziam no andar de cima, o próprio Marcelo fizera melhorias discretas também no segundo andar.
Agora o quarto parecia mais limpo arejado. Santiago pôde atestar que haviam dado um jeito na velha fiação ao abrir o registro do banheiro e encontrar a água aquecida fluindo.
Quando ele retornou ao quarto, Helena o esperava, as mãos entrelaçadas em frente ao corpo, com uma postura um pouco desconfortável.
— Eu sei que não é a tão acolhedor quanto sua casa, — disse ele, sentando-se na beira da cama. — Mas será apenas por esta noite.
Helena levantou o rosto num impulso, agitando as mãos, quase aflita pela impressão errônea que ele estava tendo:
— Oh, não! O lugar é ótimo. — apressou-se ela. — Eu só lamento estar dando trabalho de novo.
Santiago se aproximou, reconhecendo a vulnerabilidade nela. Ele segurou o rosto dela, as mãos firmes e quentes.
— Cuidar de você nunca será um trabalho pra mim, — murmurou ele, a sinceridade escorrendo na fala. — A vida tem te testado demais... e eu fico admirado ao ver o quão forte você é.
Ela respirou fundo, os olhos se fechando por um milésimo de segundo.
— Tá bem, — disse ela baixinho, o sorriso renascendo menor, tímido e doce.
Ele se afastou alguns centímetros.
— Quer tomar um Banho? — perguntou. — Como você não pode pegar uma roupa na sua casa, posso te emprestar uma de minhas camisetas. Ou então posso pedir para que o Marcelo saia e providenciei alg...
— Não, — Helena o interrompeu, sorriso leve, olhar cansado. — Uma camiseta sua será perfeito.
E sem embaraço maior, foi para o banheiro com os passos ainda um pouco trêmulos, o corpo protestando do impacto da noite.
— Quer que eu te ajude? Quer dizer... por causa da pancada na cabeça...
— Não precisa. Eu estou bem. Qualquer coisa eu te chamo.
— Então não tranca a porta, — disse ele antes de ouvi-la girar a maçaneta.
— Ok, — respondeu ela, já ligando o chuveiro.
Quando ele ouviu o barulho da água, foi rapidamente conversar com Pedro e Marcelo. Não queria deixá-la sozinha, mas precisava dar uma última olhada em como estavam as coisas.
Marcelo estava sozinho, silencioso e atento.
— Cadê o Pedro? — Santiago perguntou, voz baixa, mas curiosa.
— O rapaz estava cansado, então disse-lhe para ir dormir um pouco no quarto que ajeitei ao lado do seu.
— Fez bem, não há nada que ele pudesse fazer agora de todo jeito.
Marcelo assentiu, o deslize de não ter visto o invasor antes ainda pesando sua culpa.
— E quanto aos policiais? — perguntou Santiago, olhando discretamente pela janela e percebendo o movimento das luzes vermelhas das viaturas ainda estacionadas na rua.
— Os peritos ainda não chegaram. — Responde Marcelo. — Mas tomara que encontrem alguma coisa.
— Tomara.
— Sabe o que eu não entendo? — Instigou Marcelo. — Os caras que coloquei na cola do Cássio não o viram sair. Acho que ninguém viu...
— Acha que ele deixou a empresa escondido de todo mundo?
— Ao que tudo indica, sim.
Santiago balançou a cabeça tentando encontrar sentido em tudo aquilo, não encontrando, deu-se por vencido.
— Bem, preciso voltar. Qualquer coisa me avisa.
— Pode deixar.
Quando Helena voltou pro quarto, vestindo apenas lingerie e a camiseta dele, larga o suficiente para parecer vestido solto, Santiago estava deitado na cama. Mesmo o cômodo iluminado apenas pela luz fraca de uma luminária, ainda era possível ver em suas olheiras profundas o quanto também estava cansado.
— Já pode ir tomar seu banho. — disse ela, a voz mole, quase a ponto de se dissolver em sono tardio.
Ele sorriu, sem se levantar:
— Não, vou esperar você dormir primeiro.
Ele deu alguns tapinhas na cama ao seu lado para que ela se juntasse a ele. E assim ela fez. Deitou-se, aninhando a cabeça no ombro dele. A mão dele foi automaticamente para o coque desleixado dela para fazer cafuné, tomando cuidado para não tocar a parte ferida, enquanto ela abraçava sua cintura dele.
Mabe também subiu na cama, deitando do lado das pernas dela.
— Tá com fome? — perguntou ele de repente, lembrando apenas naquele segundo do encontro interrompido no pub, da mesa farta, da comida que nem chegaram a terminar.
Ela também se lembrou da noite maravilhosa que dividiam antes que Cássio tirasse mais isso dela. A raiva voltou a queimar seu olhar. “Como não havia visto o quanto aquele homem era desprezível?”
Ela quase não o reconheceu naquela noite. Parecia um louco.
Ela sacudiu a cabeça levemente, incomodada em se permitir direcionar até mesmo um pensamento a ele. Para ela, ele não era digno nem disso mais.
— Não. Mesmo se eu quisesse comer agora… não conseguiria. Tá tudo entalado aqui ainda.
Apontou a garganta de forma involuntária, o gesto visual traduzindo mais que palavras: cansaço + angústia + impacto.
A sensação dos dedos dele correndo pelos fios de seu cabelo era tão reconfortante que parecia dissolver o que a noite tinha deixado seco demais.
— Por que o Marcelo às vezes te chama de Santi? — perguntou Helena com a voz começando a ficar arrastada de sono.
— Por causa dos meus pais… — ele respondeu. — Eles sempre me chamaram assim.
— Eu gosto, — disse ela sorrindo. — Santi... soa bonito. Você sabe o que Santhi significa?
Ele virou a cabeça um pouco para encará-la, curioso.
— Paz, — respondeu ela olhando-o de volta. — E é exatamente isso que eu sinto quando estou com você.
Algo se acendeu dentro dele. Um calor gostoso no peito. Ele perguntou de volta.
— E você… sabe o que o teu nome significa?
— Minha mãe sempre dizia que era luz, — respondeu ela, olhos quase fechando de vez.
Ele sorriu, observando o corpo dela se entregar ao sono de vez.
— Luz... você realmente é uma luz e tanto, — murmurou ele, inclinado e dando um beijo na testa dela. — Agora dorme.
...


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