Cap.144
Pov Axel.
Estou sentado no sofá, sendo alimentado como um sultão preguiçoso, e estou amando isso, porque realmente… não vejo oportunidade melhor para estar com a minha irmã — ou quase isso, o que vamos descobrir em breve.
A Maju, a garota que quase virou um item de colecionador no mercado negro, está cortando maçãs em pedaços perfeitos na mesa de centro, ajudando as outras meninas.
Seus movimentos são cuidadosos, meticulosos.
A luz da sala ilumina a curva da sua nuca, a pele escura com um brilho suave, os lábios carnudos concentrados na tarefa. É uma visão… perturbadoramente doméstica. E perturbadoramente bonita. Mas não tenho o mínimo interesse nesse tipo de aquisição; quanto mais a encaro, mais penso em como me livrar disso o mais rápido possível.
Katleia coloca mais uma cerveja na minha frente, seus olhos ainda um pouco inchados, mas agora brilhando.
— Você foi incrível, Axel. Um verdadeiro salvador. Não sei o que teríamos feito.
Ela diz isso, e uma sensação quente e estranha se espalha no meu peito.
Não é como o elogio vazio de uma fã ou a admiração forçada de um subordinado.
É a gratidão pura e besta da melhor amiga da minha irmã, que eu acabei de proteger.
Selene continua olhando para mim como se eu tivesse acabado de descer do Olimpo.
— Não sei como te agradecer. Por tudo. Por ter… ido tão longe.
Eu me estico, tentando parecer descolado.
— Pode me chamar quantas vezes precisar, Selene. Sério.
E é verdade. Ver essa expressão nela, o peso do medo sendo substituído por esse alívio brilhante… faz qualquer merda burocrática e sangrenta valer a pena. Eu me sinto bem. Me sinto mesmo um herói, mesmo sendo um assassino compulsivo.
Mas aí meus olhos voltam para Maju. Ela pega um pedaço de maçã, põe num pratinho e o estende para mim. Um gesto simples.
Seus dedos são longos, delicados.
“Dois milhões”, ecoa na minha cabeça.
“Certificado de Propriedade.”
Eu não salvei um pássaro caído do ninho. Eu adquiri um ser humano.
E ela é… linda. De um jeito que faz meus pensamentos darem uma guinada para um território pantanoso e completamente inapropriado.
A suavidade da pele dela, a plenitude da boca, a curva do quadril sob o vestido simples…
Puta que pariu, Axel.
Dou um tapa mental — e quase físico — na minha própria cara. Você jurou. Jurou nunca mais olhar para nenhum tipo feminino e sentir qualquer atração ou algo parecido. E a Maju não tem nem idade. Eu jurei nunca mais deixar essa parte de mim dominar.
E essa aqui é uma VIRGEM. COMPRADA. POR VOCÊ.
Meu cérebro, o traidor, sussurra: “Tecnicamente, você pode…”
E eu quase grito “CALA A BOCA!” em voz alta. Viro o rosto, fingindo um interesse súbito pelo padrão do tapete.
Minha mente recua algumas horas. A ligação para o Omar, a voz dele, oleosa e calculista.
“A mercadoria premium? Dois milhões. Transferência à vista e não se fala mais nisso.”
Eu desligo. Ligo para o Adon.
“Preciso de dois milhões.”
Nem um “pra quê?”, nem um “tem certeza?”. Apenas um “Conta?”.
O dinheiro caiu como se fosse para pagar um fornecedor de café.
E agora eu tenho um P*F no meu celular que me torna dono de uma adolescente. A lógica perversa do nosso mundo.
“Se é tão fácil assim”, o pensamento vem, ácido, “por que o Adon não simplesmente COMPROU a Selene de volta do Omar?”
Teria salvado tanto drama, tanta dor de cabeça, e essa perseguição maculada.
A festinha improvisada vai acabando. Me levanto, me despeço com abraços apertados — o de Selene quase quebra minhas costelas — e promessas de voltar amanhã. Saio da casa e lá estão eles, os imbecis: Átila e Willian, encostados na parede como dois mafiosos de quinta categoria.
Átila tem aquele sorriso de canto de boca, o olho brilhando de implicância.
— Espera… espera. Se eu me casar com ela… e me divorciar depois? Ela fica livre?
Átila dá de ombros, o sorriso ainda nos lábios.
— Teoricamente, sim. O casamento anula o contrato de compra. O divórcio depois é só um trâmite civil normal. Você descobriu a brecha. Parabéns.
Casar. Com a Maju.
A ideia é tão absurda que chega a ser cômica. E assustadora. E… a única saída.
A raiva passa, sobrando um cansaço profundo e um resquício de preocupação com a garota lá dentro, que nem sabe que a vida dela agora depende de um matrimônio de fachada com um estranho.
Então a pergunta que estava me corroendo volta.
— Por que o Adon não fez isso com a Selene logo no início? Só comprou ela do Omar e casou depois?
Átila perde o ar de diversão. O olhar fica sombrio.
— Ele tentou. Logo depois de encontrá-la. Ofereceu uma fortuna ao Omar. Mas o Omar, aquele velho desgraçado, recusou. Viu o interesse do Adon e quis algo mais que dinheiro. Não venderia. Por isso o Adon… fez o que fez. Casou com ela sem que ela soubesse direito o porquê. O casamento, perante as regras daquela espiral, tornou-a intocável. A esposa de Adon Felix está acima de qualquer contrato de escravidão do Omar. É a proteção definitiva. Caso contrário, não seria só o Omar atrás da Selene. Ela já estaria morta.
Ele me encara, vendo o choque no meu rosto.
— Eles não sabem, Axel. A Selene e a garota lá dentro não fazem ideia do jogo que estão jogando. E o Adon prefere que continue assim.
Fico em silêncio, absorvendo o peso das revelações. O mundo deles é uma camada de gelo fino sobre um abismo de regras perversas e contratos sinistros.
E eu, sem querer, pisei no gelo.
Agora, a única maneira de tirar a Maju do abismo é puxá-la para o meu mundo — mesmo que temporariamente — com uma aliança de mentira. Tudo isso porque eu não quero essa menina amarrada a mim nem nos meus piores pesadelos.
Olho para a porta do apartamento. Consigo ouvir risos abafados.
— Eureka… vou ter que me casar e me divorciar. E caso resolvido — murmuro, sem nenhum entusiasmo.
Átila b**e no meu ombro.
— Boa sorte, noivo. Agora vai lá dentro e conta pra noivinha as boas novas.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!