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Quarto errado, Mafioso certo! romance Capítulo 206

Cap.13

A calma que desceu sobre o quarto de hospital ainda era carregada de preocupação. As outras meninas haviam saído, a contragosto, para tomar um café ou tentar descansar um pouco, deixando Katleia sozinha com Selene, seus pensamentos e o zumbido baixo dos monitores.

— Não se preocupe, amanhã mesmo nós vamos até os Bertans e vamos resolver isso, ok?

— Selene… mas eles são seus avós, não têm nada a ver comigo. Como você pode querer pedir ajuda a eles para um desconhecido?

— Você não é desconhecida. Além disso… sua segurança é a minha segurança também. Porque, se eu encontrasse esse homem, eu o mataria sem pensar duas vezes. Por isso… eu quero muito que você confie em mim. Não estamos mais sozinhas. Foi por isso que comprei aquela casa… para que pudéssemos ficar juntas em segurança. Ninguém vai conseguir entrar naquela fortaleza, sem falar que meu próprio irmão está cuidando de tudo.

— Mas… se é seguro, como aquele homem entrou? Eu não entendo.

Selene comprimiu os lábios, sem conseguir responder. Apenas apertou a mão de Katleia com desconforto e tristeza.

— Eu vou trazer um pouco de café, ok?

— Não… é melhor você ir comer algo com as meninas. Volte depois, não se preocupe comigo.

Selene concordou e saiu, mesmo sem vontade, mas porque havia assuntos que ela não sabia como comentar com Katleia.

Foi então que Átila entrou. Ele fechou a porta com um clique suave, sua presença preenchendo o espaço de uma forma diferente da das mulheres — mais sólida, mais intencional — de modo que ela sentiu uma expectativa que nem ela mesma entendia.

Ele puxou uma cadeira para perto da cama e sentou-se, não como um visitante casual, mas como alguém com um propósito.

Katleia o observou, os olhos ainda um pouco opacos pela medicação, mas mais focados do que antes.

— Está tudo bem ficar sem elas aqui? — perguntou ele, sua voz mais suave do que o habitual.

— Por um tempo, sim… — ela sussurrou, a voz ainda áspera.

Ele assentiu, deixando um silêncio confortável pairar antes de mergulhar no que viera fazer.

— Katleia… preciso que você me conte exatamente o que viu. De quem você estava correndo naquela noite? A ponto de se jogar do segundo andar daquela forma… parecia até mesmo uma cena de terror.

Um tremor percorreu seu corpo, quase imperceptível. Ela fechou os olhos por um segundo, como se revivesse o pavor.

— Era… era ele. A silhueta dele. Na minha cabeceira, próximo aos meus pés. Eu tinha certeza. Tanto tempo sem vê-lo, e justamente no dia em que ele saiu da cadeia, ele foi me visitar. — Sua voz quebrou.

Átila inclinou-se para frente, os cotovelos nos joelhos, mantendo um contato visual constante e calmo.

— Eu verifiquei tudo. Imediatamente depois de te trazer para cá, voltei lá. Não tinha ninguém no seu quarto, Katleia. Ninguém. Além disso, as câmeras, os sensores… tudo mostrava que alguém tinha saído, mas ninguém tinha entrado. Eu te encontrei assim que o sensor apontou, antes mesmo de você pular da sacada.

Ela abriu os olhos, uma confusão nítida em seu olhar.

— Mas… o quarto estava trancado? Porque ele claramente saiu e desceu as escadas atrás de mim! Eu vi!

— Estava trancado — ele confirmou, sua voz era um fio de lógica tentando costurar uma realidade fraturada. — E a chave estava no bolso do seu pijama, encharcado de chuva. Você mesma trancou a porta, lembra? Eu instalei a fechadura para você. Foi você quem a trancou, quem registrou a senha. Ninguém mais conseguiria abrir ou fechar.

A memória, distorcida pelo pânico, começou a se reorganizar. Ela viu mentalmente suas próprias mãos trêmulas girando o cadeado digital, ouvindo o clique de segurança antes de se enfiar na cama, tentando se esconder do mundo. O pijama com bolso… sim.

— E… e o andar de baixo? — ela perguntou, numa última tentativa de ancorar o pesadelo na realidade.

— Nada — Átila balançou a cabeça. — Nenhum sinal de invasão. As câmeras que instalei não captaram movimento algum, exceto o seu, quando você saiu correndo e… — Ele não terminou a frase, poupando-a do detalhe do salto.

Átila hesitou por um segundo antes de apertar a mão dela com mais firmeza.

— E se fosse com alguém que já conhece o seu mundo? Alguém em quem você já confia, mesmo que só um pouco?

Ela franziu a testa, confusa.

— O que quer dizer?

— Eu estudei psicologia por muito tempo — ele revelou, a voz agora num sussurro confessional. — Antes de me perder por outros caminhos, eu me especializei em traumas. Lidei com o pior do ser humano: o lado de quem fere e o rastro de quem foi ferido. Eu vi o abismo de perto, Katleia. A teoria eu tenho, e a prática… bem, eu vi o suficiente para uma vida inteira.

Ele a encarou com uma intensidade que não era agressiva, mas protetora.

— Quero tentar te ajudar. Não como um estranho em um consultório, mas como alguém que sabe que o silêncio às vezes é a única defesa que resta. O que você acha?

O peso da proposta pairou entre eles. Katleia sentiu o conflito em seu peito: entregar as chaves de suas cicatrizes àquele homem sombrio, que parecia carregar seus próprios demônios, era um risco enorme. Mas, pela primeira vez, parecia um risco que valia a pena.

Percebendo a hesitação dela, Átila fez algo inesperado. Soltou sua mão lentamente, dando-lhe o espaço necessário, e então levou os dedos ao rosto dela. Com uma delicadeza que contrastava com sua figura imponente, o polegar deslizou pela maçã do rosto de Katleia, colhendo uma lágrima que insistia em cair.

Aquele toque mudou tudo. Não era clínico — era o gesto de alguém que ela sentia que podia ser mais que um aliado.

Katleia não precisou de palavras. Um sorriso frágil e verdadeiro surgiu em seus lábios enquanto ela inclinava levemente a cabeça contra a mão dele, aceitando o convite.

Era um salto no escuro, mas, dessa vez, ela sentia que ele estaria lá para segurá-la, como fizera na chuva, antes que seu destino estivesse apenas em suas próprias mãos.

— Eu quero sua ajuda, então… Átila Felix. Espero poder te ajudar algum dia em retribuição. — finalizou, com os olhos fixos nos dele.

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