Cap.14
Terceira Pessoa
A frágil paz no quarto de hospital foi quebrada pela entrada animada de Selene. Seus olhos, ainda um pouco inchados da noite de angústia, brilhavam com um misto de alívio e determinação.
— Estão conversando segredos? — perguntou, tentando soar leve, enquanto se aproximava da cama.
Átila, ainda sentado ao lado de Katleia, ergueu o olhar. Uma decisão tomara forma dentro dele, e agora era hora de comunicá-la.
— Na verdade, estávamos combinando algo. Uma novidade — disse ele, a voz assumindo um tom mais formal, quase profissional. — Katleia aceitou. Eu vou ajudá-la. Vou tentar tratá-la.
Selene parou, os olhos arregalando-se de genuína surpresa. Ela olhou para Katleia, buscando confirmação.
— Kat? É verdade? Você… você quer isso?
Katleia, ainda pálida, mas com um brilho diferente nos olhos — um brilho de esperança cautelosa —, assentiu.
— Sim. O Átila… ele estudou muito. E eu… sinto que posso tentar aceitar a ajuda dele.
Nesse momento, a porta se abriu novamente, e Adon entrou sem fazer alarde, apenas apoiando-se no batente. Ele ouvira o final da conversa. Seus olhos, mantendo-se analíticos, passaram de Selene para Katleia e, por fim, pousaram em Átila, com uma sobrancelha sutilmente arqueada.
Katleia, sentindo o peso do olhar de Adon, voltou-se para Selene, buscando uma aprovação mais profunda, embora fosse claro que ele desaprovava.
— Como ele é seu irmão… eu deveria ter a sua opinião. O que você acha?
Selene não hesitou. Um sorriso largo e aliviado surgiu em seu rosto.
— Acho maravilhoso! Sem falar que é um grande passo. Eu ouvi dizer que o Átila era excelente na época em que estudou e até trabalhou como psiquiatra e psicólogo. Seria ótimo para você! — Ela se animou ainda mais, colocando as mãos nos quadris com um ar decidido.
Mas Adon não parecia nada animado. Em vez disso, sorriu de forma sombria para Átila, o que fez o outro engolir em seco.
— Olha… não é uma má ideia — disse Adon, com a voz calma, mas carregada de má intenção. — Além do mais, com isso, o Átila vai acabar sendo quase como um tio para você, Kat! Um tio que ajuda, entende? Da família! — completou, em um tom sério, com zombaria disfarçada.
A palavra “tio” ecoou no quarto com um peso cômico. William, que espreitava curioso, levou a mão à boca, claramente tentando conter um riso que ameaçava escapar. Seus ombros tremeram levemente.
Katleia, totalmente focada na ideia de ajuda e talvez um pouco desnorteada pela medicação, confirmou rapidamente, com um aceno sincero:
— Sim. Isso seria bom.
“Se ela se atrever a me chamar de tio… mas por que eu me importo?”, Átila pensou, com um olhar sombrio disfarçado por um sorriso.
— É uma coisa boa, até porque… se ele for cuidar dela, será da sua família também — completou Adon, em tom divertido.
— Família? Meu tio? — ela comprimiu os lábios, forçando um sorriso ao mesmo tempo que franziu a sobrancelha.
— Claro, afinal… o querido tem 28 anos e você, 19. É a idade perfeita de um tiozinho.
Átila ficou petrificado. Seus traços, normalmente compostos, congelaram-se em uma expressão de puro constrangimento e incredulidade. Tio? Engasgou com o próprio ar, sem conseguir emitir um som. Sentiu o olhar divertido e penetrante de Adon queimando suas costas.
Recuperando um mínimo de compostura, Átila levantou-se abruptamente.
— Bom, se está tudo combinado… — a voz saiu um pouco rouca. — Preciso falar com Adon sobre… a segurança do hospital.
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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!