Entrar Via

Quarto errado, Mafioso certo! romance Capítulo 207

Cap.14

Terceira Pessoa

A frágil paz no quarto de hospital foi quebrada pela entrada animada de Selene. Seus olhos, ainda um pouco inchados da noite de angústia, brilhavam com um misto de alívio e determinação.

— Estão conversando segredos? — perguntou, tentando soar leve, enquanto se aproximava da cama.

Átila, ainda sentado ao lado de Katleia, ergueu o olhar. Uma decisão tomara forma dentro dele, e agora era hora de comunicá-la.

— Na verdade, estávamos combinando algo. Uma novidade — disse ele, a voz assumindo um tom mais formal, quase profissional. — Katleia aceitou. Eu vou ajudá-la. Vou tentar tratá-la.

Selene parou, os olhos arregalando-se de genuína surpresa. Ela olhou para Katleia, buscando confirmação.

— Kat? É verdade? Você… você quer isso?

Katleia, ainda pálida, mas com um brilho diferente nos olhos — um brilho de esperança cautelosa —, assentiu.

— Sim. O Átila… ele estudou muito. E eu… sinto que posso tentar aceitar a ajuda dele.

Nesse momento, a porta se abriu novamente, e Adon entrou sem fazer alarde, apenas apoiando-se no batente. Ele ouvira o final da conversa. Seus olhos, mantendo-se analíticos, passaram de Selene para Katleia e, por fim, pousaram em Átila, com uma sobrancelha sutilmente arqueada.

Katleia, sentindo o peso do olhar de Adon, voltou-se para Selene, buscando uma aprovação mais profunda, embora fosse claro que ele desaprovava.

— Como ele é seu irmão… eu deveria ter a sua opinião. O que você acha?

Selene não hesitou. Um sorriso largo e aliviado surgiu em seu rosto.

— Acho maravilhoso! Sem falar que é um grande passo. Eu ouvi dizer que o Átila era excelente na época em que estudou e até trabalhou como psiquiatra e psicólogo. Seria ótimo para você! — Ela se animou ainda mais, colocando as mãos nos quadris com um ar decidido.

Mas Adon não parecia nada animado. Em vez disso, sorriu de forma sombria para Átila, o que fez o outro engolir em seco.

— Olha… não é uma má ideia — disse Adon, com a voz calma, mas carregada de má intenção. — Além do mais, com isso, o Átila vai acabar sendo quase como um tio para você, Kat! Um tio que ajuda, entende? Da família! — completou, em um tom sério, com zombaria disfarçada.

A palavra “tio” ecoou no quarto com um peso cômico. William, que espreitava curioso, levou a mão à boca, claramente tentando conter um riso que ameaçava escapar. Seus ombros tremeram levemente.

Katleia, totalmente focada na ideia de ajuda e talvez um pouco desnorteada pela medicação, confirmou rapidamente, com um aceno sincero:

— Sim. Isso seria bom.

“Se ela se atrever a me chamar de tio… mas por que eu me importo?”, Átila pensou, com um olhar sombrio disfarçado por um sorriso.

— É uma coisa boa, até porque… se ele for cuidar dela, será da sua família também — completou Adon, em tom divertido.

— Família? Meu tio? — ela comprimiu os lábios, forçando um sorriso ao mesmo tempo que franziu a sobrancelha.

— Claro, afinal… o querido tem 28 anos e você, 19. É a idade perfeita de um tiozinho.

Átila ficou petrificado. Seus traços, normalmente compostos, congelaram-se em uma expressão de puro constrangimento e incredulidade. Tio? Engasgou com o próprio ar, sem conseguir emitir um som. Sentiu o olhar divertido e penetrante de Adon queimando suas costas.

Recuperando um mínimo de compostura, Átila levantou-se abruptamente.

— Bom, se está tudo combinado… — a voz saiu um pouco rouca. — Preciso falar com Adon sobre… a segurança do hospital.

— Para a mansão dos Bertans.

Um silêncio pesado caiu sobre o corredor. Adon e Átila se entreolharam novamente, mas, desta vez, não havia humor. Havia um constrangimento profundo, quase um pavor cerimonial. Um sorriso sem jeito, tenso, surgiu no rosto de Adon. Átila simplesmente balançou a cabeça, em um movimento lento e definitivo de negação.

— Não. Não vou aos Bertans — disse Átila, com a voz final.

— Por que não? Parece até que estão devendo algo — Selene franziu a testa, sem compreender a reação.

— No meu caso, eu devo — explicou Átila, a palavra saindo carregada de um significado obscuro. — E devo muito. Quem de nós, Felix, não deve? Só o Adon aqui, que eles querem adotar. Nós, os Felix, somos os inimigos naturais dos Bertans. Não é uma visita de família, Selene. É uma invasão em território hostil.

— Mas agora somos família! — argumentou Selene, teimosa. — Você é meu irmão. Isso muda tudo.

— Para você, talvez. Para o general Bertan, eu sou só o filho do homem que ele tolera por causa de você. Nada mais — a voz de Átila era seca, realista. — O que vocês querem fazer lá, afinal?

Selene olhou para Katleia, que permanecia em silêncio, apoiada na muleta, ouvindo atentamente.

— Eu preciso da ajuda deles — declarou Selene, protegendo o mistério. — Para ajudar a Katleia. Para encontrar aquele homem e garantir que ele nunca mais chegue perto dela. Eles têm recursos que nós não temos. Acesso a informações… a certos tipos de justiça.

Katleia baixou os olhos para o chão, o peso daquela pronúncia a incomodando. Só se referir àquele homem já era um incômodo gigante. Ela não queria mais fugir. Queria que a ameaça fosse eliminada. E, se os Bertans podiam fazer isso, ela não hesitaria em aceitar a ajuda de Selene.

A cena era, ao mesmo tempo, tensa e absurdamente engraçada. Dois homens temidos nas ruas de Monselha, encolhidos diante da perspectiva de uma visita social a sogros poderosos. E uma jovem de 19 anos, com o pé machucado e o coração frágil, no centro de tudo, sendo a razão pela qual aquela incursão diplomática potencialmente desastrosa precisaria acontecer.

Átila observou a determinação no rosto de Selene e o silêncio resignado de Katleia. Ele não sabia, é claro, que a “autora” que perseguia com tanto ódio e fascínio online era a mesma mulher frágil que agora confiava nele para ser seu “tio” terapeuta. A ironia era tão grotesca que, se soubesse, talvez risse até chorar — ou se desesperasse.

Tudo o que restava era o mistério entre os dois irmãos: o que Selene realmente planejava pedir aos Bertans?

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!