Cap.15
Na Corte dos Bertans
A mansão dos Bertans não parecia uma casa; era um forte.
Encravada em um terreno alto, suas linhas eram severas, de concreto e vidro à prova de balas, sem nenhum dos excessos ornamentais dos Felix.
O que impressionava, porém, não era a arquitetura, mas a paisagem humana. Homens em fardamento tático preto, rostos parcialmente ocultos por chapéus e óculos escuros, posicionavam-se em intervalos precisos pelo jardim impecável, formando um perímetro vivo e ameaçador.
O silêncio era total, quebrado apenas pelo vento e pelo ocasional estalido de um rádio de comunicação.
O carro parou diante do grande portão de ferro. Átila, ao volante, observou a cena através do para-brisa, um sorriso sarcástico tocando seus lábios.
— Olha isso… bando de exagerados — murmurou, mais para si mesmo.
Ao seu lado, Selene ajustou o casaco, tentando parecer mais confiante do que se sentia.
— Os Bertans treinam os melhores homens há gerações. Dizem que eles têm as melhores técnicas de luta do país.
Átila soltou um bufão de desdém, ajustando o retrovisor como se estivesse se arrumando para uma batalha.
— Não são melhores que eu.
No banco de trás, Adon deu uma leve risada, enquanto Katleia, ao lado dele, observava a movimentação silenciosa dos guardas com um misto de admiração e temor.
Selene abriu a porta.
— Vamos. Eles estão nos esperando.
Ela desceu, seguida por Katleia, que mancava com dificuldade.
Adon saiu logo atrás, endireitando o terno com uma postura desafiadora. Átila, no entanto, permaneceu sentado por um segundo a mais, os olhos escaneando cada homem, cada câmera, cada ponto cego potencial. Então, com um suspiro que era mais de resignação do que de medo, também saiu.
Ao se aproximarem da entrada principal, os olhos invisíveis por trás dos óculos escuros seguiram cada movimento deles.
Não havia hostilidade aberta, mas uma avaliação gelada, clínica. Selene sentiu a hesitação dos homens atrás dela e virou-se.
— Vamos entrar ou vão ficar aí plantados como estátuas? — perguntou, com um tom leve que não disfarçava completamente a irritação.
Adon encolheu os ombros, em um gesto de falsa despreocupação.
— Eu sou o futuro dono da máfia, querida. Não dá para sair enfrentando problemas desse tipo de graça. Lá dentro você está bem segura. Vai com Deus!
— Como é? É aqui que o casamento acaba? O marido atencioso?
— Confessa que até você está com medo — comentou Adon, mantendo distância.
Selene sorriu do jeito de sempre, dando de ombros, encarando a mansão. Engoliu em seco.
— Adon Felix, como meu marido, é bom você entrar! — asseverou, sem encará-lo e sem esperar uma resposta contrária.
Átila, caminhando lentamente ao lado de Katleia, como se fosse seu guarda-costas pessoal e relutante, resmungou:
— Que problema pode ser tão grave que o William não possa resolver? Ele é pago para isso.
— O William já está enfiado até o pescoço nos seus problemas, Átila — retrucou Adon, em voz baixa, enquanto atravessavam os grandes portões que se abriam silenciosamente. — E você ainda só dá mais trabalho. Vamos. De cabeça erguida. São só sogros superpoderosos.
— Seus sogros!
Atravessaram um hall vasto e austero. Katleia olhava ao redor, impressionada. Não havia quadros extravagantes, mas mapas táticos em telas digitais.
Não havia esculturas, mas displays com armas desmontadas, demonstrando um apreço quase artístico pela engenharia militar.
A segurança tecnológica era extravagante: câmeras de altíssima definição seguiam seus passos, e sensores discretos estavam embutidos nas molduras das portas.
Foram conduzidos a um salão principal que mais parecia uma sala de guerra moderna. Uma grande mesa de madeira escura ocupava o centro, rodeada por telas que exibiam feeds de notícias globais e mapas de calor de zonas de conflito.
E lá estavam os Bertans. O General Bertan, imponente em uma cadeira alta que lembrava um trono austero, e sua esposa, uma senhora de postura inflexível e olhar que parecia um raio-X. Mas não estavam sozinhos.
Flanqueando-os, sentados com a mesma solenidade, estavam três homens que fizeram até Adon arquear uma sobrancelha, surpreso.
Um deles, de robes negros e expressão severa, era o juiz Moreira, o magistrado mais influente e intransigente do estado.
Ao seu lado, com insígnias reluzentes no uniforme, estava o delegado-chefe Costa, chefe da polícia civil.
E, completando o trio, um sargento das Forças Especiais, de rosto fechado e olhar que intimidava mesmo quando tentava ser gentil.
Selene parou por um instante, surpresa com a assembleia. Logo, porém, recuperou a compostura, puxando Katleia suavemente para perto de si. Ela já havia contado aos avós, de forma antecipada, sobre o assunto que queria tratar, e eles haviam levado aquilo com uma seriedade imensa.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!