Cap. 19
Verdades e segredos no hospital.
— Não se preocupe. Pode ser arriscado esperar em um público vendo que ele está em uma situação muito delicada.
— Mas...
— Você quer salvar seu irmão, ou não? — ele perguntou e ela se encolheu sem conseguir discutir. — Não se preocupe com dinheiro.
O silêncio do corredor do hospital particular era quase sepulcral, contrastando com a tempestade que ainda rugia do lado de fora. Gildete e William estavam sentados em cadeiras de plástico duro, lado a lado, separados por um vazio carregado de revelações.
O pequeno Ryuk estava sendo atendido, e a tensão do desespero inicial havia se transformado em uma ansiedade pesada e silenciosa.
Gildete limpou o rosto com as palmas das mãos, ainda molhadas da chuva. Ela não olhava para William. Quando falou, sua voz estava áspera, mas sem o desespero de antes.
— Como você me encontrou, William?
William, impecável mesmo com o terno levemente amassado e úmido, ficou visivelmente desconfortável. Ele ajustou os óculos, um gesto nervoso.
— Eu… estava só passando pela região. Coincidência.
Um sorriso breve, carregado de ironia amarga, tocou os lábios de Gildete. Ela finalmente virou a cabeça para encará-lo.
— Levando em conta que a Selene agora é uma pessoa de família importante, com avós que parecem comandar um exército particular… com certeza você deve estar nos vigiando. Não sou boba, William.
Ele suspirou, derrotado pela lógica dela. Um sorriso sem jeito, quase constrangido, apareceu em seu rosto.
— Depois do que aconteceu com a Katleia… o Adon está com medo de que vocês corram algum perigo. É só isso. Uma medida de precaução.
Gildete balançou a cabeça, não em negação, mas em aceitação resignada daquela verdade.
— Então você viu. Tudo. — Não era uma pergunta.
— Vi o suficiente — ele admitiu, sua voz suavizando.
Ela engoliu seco, seus dedos se entrelaçando com força no colo.
— Peço que guarde segredo. Sobre o que você viu. Por favor.
William a observou, a profissionalidade dando lugar a uma curiosidade genuína.
— Quem são aquelas pessoas, Gildete? O rapaz… as crianças.
— São meus irmãos — ela sussurrou, como se a confissão doesse. — Leo, o mais velho. Cauã, de doze anos. Larissa, de dez. E o Ryuk, o caçula.
— E por isso você trabalha tanto? — A pergunta saiu com um tom de compreensão que parecia surpreender até ele. — Você…
— Vamos apenas esquecer isso — ela o interrompeu, firme, erguendo a cabeça com uma dignidade ferida. — Não quero falar sobre isso.
— Mas… você tem uma família. Estou tentando entender como você pode agir como se não tivesse, escondendo isso das meninas.
O médico entregou a receita. Gildete estendeu a mão para pegá-la, mas William, mais rápido, interceptou o papel.
Ele viu, no exato momento em que seus dedos tocaram a receita, o pânico mudo que cruzou o rosto dela.
O cálculo rápido dos preços na farmácia, o desespero silencioso de quem sabe que não pode pagar agora.
— Os medicamentos são importantes e precisam ser comprados hoje ainda — o médico reforçou, antes de se retirar.
Gildete baixou os olhos para as mãos vazias, sua respiração um pouco mais acelerada. William dobrou a receita com cuidado e a guardou no bolso do paletó.
— Vamos levar o Ryuk para a Casa da Ponte — ele sugeriu, sua voz deixando claro que não era apenas uma sugestão. — Ele precisa de repouso, e você não pode voltar para aquele lugar com ele. Não agora, de acordo?
Ela ergueu a cabeça, alarmada.
— Não! As meninas… elas vão perguntar. Vão querer saber quem ele é. Não posso…
William pensou por um segundo, um plano se formando em sua mente prática de advogado e solucionador de problemas.
— Então — disse ele, com um tom quase casual que contrastava com a absurdidade da proposta —, quer que eu finja que ele é meu filho? Posso dizer que é um… afilhado. Algo do tipo. E pedir ajuda delas para cuidar dele. Temporariamente, e aí você pode ficar mais tranquila.
Gildete ficou paralisada, olhando para ele como se ele tivesse falado em aramaico antigo. A ideia era louca. Impensável. William, o advogado sério e distante, com um "filho" de repente? Mas também era a única tábua de salvação que se apresentava. Uma forma de dar abrigo e cuidados a Ryuk sem expor seu segredo mais profundo, afinal, ela não poderia ficar na casa dos irmãos. Com a distância, ela não conseguiria ir trabalhar e seria ainda pior para todos eles.
Ela abriu a boca para responder, mas nenhum som saiu. A cena congelou ali, no corredor do hospital.

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