Cap.20
O Afilhado de William
Gildete ficou paralisada, os olhos arregalados fixos em William como se ele tivesse sugerido roubar um banco em plena luz do dia.
A ideia era tão absurda, tão fora da realidade cuidadosamente construída dela, que por um momento parecia que o cérebro dela se recusava a processar.
— Não… não tem como — ela finalmente conseguiu articular, balançando a cabeça lentamente. — Elas vão estranhar. Vão fazer perguntas.
William, no entanto, parecia já ter arquitetado toda a farsa em sua mente prática de advogado. Ele se inclinou para frente, os cotovelos nos joelhos, falando em um tom baixo e conspiratório.
— Elas não vão desconfiar. Pense comigo: eu vivi no exterior por muitos anos, estudando e trabalhando. Ninguém daqui, nem o Adon, nem o Átila, sabem os detalhes da minha vida pessoal na Europa. Não sabem se eu tive relacionamentos, muito menos se tenho filhos. É perfeitamente plausível que eu tenha tido um filho e decidi trazê-lo para perto depois de… digamos, a mãe não poder mais cuidar. A idade do Ryuk até b**e. Ele tem o que, cinco, seis anos? É uma época que coincide, eu posso ter ido embora deixando ele para trás e agora que voltei a mãe dele me encontrou e me entregou.
Ele fez uma pausa, estudando a expressão ainda cética de Gildete.
— É uma mentira limpa, Gildete. Sem fios soltos. Só precisamos combinar a história. Eu cuido das explicações. Você só precisa ficar calada e me ajudar a cuidar dele, como uma amiga que está ajudando um… colega em apuros.
Gildete mordeu o lábio inferior, sua mente girando. A lógica era impecável. William era uma figura séria, respeitável.
Ninguém ousaria questioná-lo profundamente sobre um assunto tão pessoal e potencialmente doloroso.
E Ryuk… o pequeno precisava de um lugar seguro, limpo, quente. Precisava de remédios e comida decente.
Tudo o que ela, com seus três empregos e um irmão mais velho parasita, não podia oferecer de forma estável, e seu medo era real de que Ryuk não viveria muito para se recuperar se tiver nas mãos do irmão.
O conflito em seus olhos era intenso. O orgulho, a vergonha, lutando contra o amor desesperado pela criança doente.
— Por que? — a pergunta saiu em um sussurro áspero. — Por que você faria isso? Se arriscar com uma mentira assim?
William encolheu os ombros, um gesto quase desconcertantemente casual para a magnitude do que estava propondo.
— Porque eu trouxe vocês para cá. E porque vejo que você está tentando carregar um mundo nas costas sozinha. Não preciso saber todos os detalhes para reconhecer isso. E porque — ele acrescentou, seu tom ficando um pouco mais sério —, se esse seu irmão mais velho é tão problemático quanto parece, manter o Ryuk longe dele, mesmo que temporariamente, é o melhor para a criança.
Gildete sentiu um nó se apertar em sua garganta. Ele estava certo. Leo era uma ameaça tão grande quanto uma doença. Ela respirou fundo, o cheiro antisséptico do hospital enchendo seus pulmões como um voto de rendição.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!