Cap.22
22 Consulta Noturna
(Ponto de Vista: Átila)
A biblioteca. Era o lugar perfeito. Silenciosa, isolada, com aquele cheiro de conhecimento e madeira envelhecida que, de alguma forma, sempre me acalmou e parece que é um encontro de paz para ela também.
Eu não tinha um consultório, nem queria um.
Aquela sala de livros, com suas estantes altas e poltronas de couro, seria minha arena clínica. O palco onde eu finalmente decifraria a mente de Katleia e descobriria o que aconteceu em seu passado com detalhes.
Organizei o espaço com precisão. Afastei uma poltrona grande para mim, coloquei outra, mais macia, um pouco afastada, para ela, de frente para a lareira apagada.
Arrumei um pequeno gravador discreto, um bloco de notas, uma garrafa de água. Era tudo teatro. Eu sabia mais sobre seus traumas do que qualquer questionário poderia revelar – eu os atiçara, afinal de contas.
Mas este era o ritual necessário. A porta pela qual ela teria que passar para me dar acesso real, consentido.
Enviei uma mensagem direta, Sua primeira sessão é hoje, 21h, na biblioteca. Estarei esperando.”
A resposta veio rápido, um simples “Estarei lá.”
Antes disso, porém, o jantar trouxe um espetáculo à parte.
Eu estava descendo as escadas quando ouvi a agitação na entrada. William chegava, mas não sozinho.
Nos braços, ele carregava uma criança pequena, um menino de uns cinco ou seis anos, pálido e com cara de quem não estava bem. Atrás dele, com uma expressão que era um misto de pânico e resolução, vinha Gildete.
Adon apareceu ao meu lado, também observando.
— Que diabos? — ele murmurou.
William nos viu e caminhou até nós, o menino agarrado ao seu pescoço, dormindo ou sem forças.
— Adon, Átila — cumprimentou, sério. — Preciso falar com vocês. E com as meninas.
Reunimo-nos na sala de estar. Selene, Mima e Maju vieram correndo, curiosas. Gildete ficou um pouco atrás, seus olhos escaneando a todos, especialmente William.
— Quem é a criança, William? — perguntou Adon, direto ao ponto.
William respirou fundo. Eu Conhecia o passado de William quase tão bem quanto o meu. O homem era um ilha. Família distante, nenhum relacionamento sério que eu soubesse. A história que ele ia era algo que seria bastante interessante agora.
— Este é o Luca — disse William, sua voz firme, mas com um tom inesperadamente suave ao olhar para o menino. — É… meu filho.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Até eu, que esperava algo, fiquei surpreso com a ousadia da mentira.
Adon cruzou os braços, uma sobrancelha arqueada em claro ceticismo.
— Seu filho? Desde quando?
— De uma relação que tive, há alguns anos antes de ir embora... parece que os segredos estão começando a surgir, não é? — William explicou, o rosto uma máscara de constrição digna de um advogado no tribunal. — A mãe… não era uma pessoa de caráter. Decidiu que não queria a responsabilidade. Apareceu hoje, jogou ele no meu colo e desapareceu. Ele estava doente. Ela nem se importou se ele viveria ou morreria.
Olhei para Gildete. Seus punhos estavam cerrados ao lado do corpo, os nós dos dedos brancos.
Ela encarava William como se ele estivesse caminhando sobre uma corda bamba sobre um abismo, na minha cabeça resumidamente ela queria socar ele e espancar por alguma razão.
— E por que a Gildete chegou com você? — perguntei, inserindo-me na conversa.
William não pestanejou.
A cada passo hesitante, meu instinto de consertar, de otimizar, se agitava. Quando ela vacilou perto do topo da escada que levava à ala da biblioteca, agi sem pensar.
Coloquei meu braço ao redor de sua cintura, firmando-a contra o meu lado.
— Eu seguro você. É mais rápido e você não força o pé — expliquei, minha voz soando prática, mas eu sentia o contato como um choque elétrico, era obvio que eu estava me aproveitando... sem intenção. Juro.
Foi um toque inesperado para ela também. Ela ficou rígida como uma estátua, seus olhos se arregalando ao se virar para me encarar.
A curva da sua cintura era estreita, definida sob a camiseta de malha fina. Meus dedos se ajustaram, quase involuntariamente, apertando levemente, sentindo a temperatura da pele dela através do tecido, a textura dos seus ossos do quadril.
— O que você está fazendo? — a pergunta saiu em um sussurro ofegante, mais de surpresa do que de medo.
Soltei-a imediatamente, como se tivesse tocado em fogo. Um arrependimento instantâneo e agudo, não pelo toque, mas por tê-lo feito de forma tão brusca, por tê-la assustado.
— Desculpa — disse, afastando a mão. — Foi automático. Só queria ajudar a manter o equilíbrio.
Ela respirou fundo, os olhos ainda fixos em mim, mas a rigidez inicial se dissipou um pouco, substituída por uma confusão que espelhava a minha.
— Está… está bem. Vamos.
Continuamos, mas agora eu mantive uma distância cuidadosa, apenas oferecendo meu braço para ela se apoiar.
O caminho até a biblioteca pareceu uma eternidade. O fantasma do toque da sua cintura ainda queimava na palma da minha mão, um formigamento persistente e proibido que me lembrava, com uma clareza brutal, que eu não era apenas um terapeuta, nem apenas um perseguidor. Era um homem. E ela, aquela mulher frágil e corajosa que eu tanto estudava e atacava, era perigosamente atraente.
Ao abrir a porta da biblioteca iluminada por velas, dei um passo para o lado para ela entrar, tentando sepultar aquele momento de fraqueza física sob a capa da profissionalismo. A sessão estava para começar. Eu estava pronto para mergulhar nas sombras da mente dela. O problema era que, agora, minhas próprias sombras estavam se agitando, demandando atenção, e elas tinham a forma suave e exata da cintura de Katleia.
Foco! Apenas foco! E vamos mergulhar no oceano que é essa mente.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!