Cap.23
As Sombras da Memória
Pov Atila.
A biblioteca estava envolta em um silêncio sagrado, quebrado apenas pelo crepitar suave de algumas velas que eu acendera.
A lareira permanecia apagada, seu vazio negro servindo como contraponto à pequena esfera de luz quente que cercava o sofá de couro.
Katleia estava deitada ali, seus olhos fixos no teto alto e sombrio. A respiração dela era um pouco mais rápida que o normal.
Eu me sentei na poltrona ao lado da cabeceira do sofá, mantendo uma distância que era profissional, mas não fria.
— Você está nervosa — constatei, minha voz baixa e calibrada para penetrar sem assustar.
— Um pouco — ela admitiu, os dedos entrelaçados apertando-se sobre o estômago. — Nunca fiz isso. Hipnose.
— É apenas um relaxamento profundo. Um caminho para acessar lugares que a mente consciente trancou para se proteger, mas que te sobrecarregam. Você está no controle o tempo todo. — Inclinei-me para frente, mantendo o olhar fixo nos dela. — Mas preciso que você confie em mim, Katleia. Totalmente. Senão, a porta não abre.
Ela hesitou, uma sombra de seu medo antigo passando por seus olhos. Então, lentamente, ela estendeu a mão para o lado, sobre o braço do sofá. Eu envolvi sua mão com as minhas. Era pequena, fria, e tremia levemente.
— Confie — repeti.
Desta vez, minha voz não carregava o tom de uma instrução técnica. Era um pedido, quase uma suplicante, como acordo silencioso de que, não importa o que encontrássemos naquele abismo, eu estaria lá para puxá-la de volta.
Ela fechou os olhos, as pálpebras tremendo. Respirou fundo, o ar entrando de forma ruidosa em seus pulmões.
Comecei o processo. Minha voz baixou para um ritmo monótono, quase aveludado, envolvendo-a como um manto.
Guiei-a através da própria respiração, fazendo-a sentir o peso do corpo contra o sofá, a gravidade agindo sobre seus membros, enquanto a conduzia por uma escada imaginária que descia em direção ao silêncio. No início, a resistência era física; os tendões do seu pescoço saltavam e seus ombros permaneciam erguidos, na defensiva. Mas, aos poucos, a barreira cedeu.
O corpo dela afundou no veludo, a respiração tornou-se pesada e rítmica, e os dedos, antes rígidos, relaxaram suavemente dentro da minha mão.
Quando ela alcançou o estado de transe, o silêncio da biblioteca pareceu se expandir. Contra todas as minhas defesas profissionais, meu coração martelava. Eu sabia que estávamos prestes a mergulhar nas trevas.
— Katleia, preciso que você volte. Volte para a primeira vez que se sentiu verdadeiramente machucada, abandonada, traída. Onde você está?
Um tremor violento percorreu o corpo dela, como se uma corrente elétrica a atravessasse.
Sua mão se fechou com força na minha, as unhas cravando levemente na minha pele.
— Está… está escuro. E dói — a voz dela mudou. Não era mais a voz da mulher que escrevia romances; era o tom agudo, arranhado, de uma criança. — Minhas pernas… e minhas roupas estão sujas. Sujas de… vermelho. É quente. Está escorrendo.
Senti um soco no estômago. O instinto de proteção gritou para eu interromper, para poupá-la daquilo, mas eu sabia que a cura exigia descobrir o veneno.
— Onde você está? — instiguei com suavidade, mantendo minha voz como o único fio de realidade dela.
— Na rua. Correndo. Estou correndo. Gritando. — Uma lágrima escapou de sua pálpebra fechada, traçando um caminho brilhante e lento pela têmpora. — Socorro! Por favor, alguém me ajude! Ninguém para. Ninguém olha. Eles passam como se eu fosse fumaça. Até que… até que ele me segura.
— Quem, Katleia? Quem te segura?
— O tio. Ele agarra meu braço. Tão forte. Sinto o osso estalar. Dói — ela encolheu os ombros, um gesto instintivo de defesa que me quebrou por dentro. — As pessoas… agora elas olham. Elas param. Eu olho para elas, eu grito com toda a minha força: “Ele me machucou! Ele fez coisa ruim!”. Mas o tio… o tio ri. É um sorriso podre. Ele diz: “Ela caiu, coitada. Se machucou brincando. E agora está fazendo escândalo porque eu a repreendi, é uma criança problemática que merece ficar de castigo, porque roubou dinheiro na escola, essa vagabundinha”.
O relato saía entre soluços sufocados. Cada palavra era uma farpa encravada lentamente, Senti uma náusea súbita. A perversão da narrativa dele era perfeita; ele a transformava de vítima em culpada diante de uma plateia indiferente.
— E as pessoas… — a voz dela se quebrou em um suspiro de agonia pura — elas olham para mim de um jeito diferente. Com nojo. Com raiva. Elas acreditam nele. Elas viram o rosto. Ninguém… ninguém me ajuda.
Um nó de fúria gelada, algo que eu nunca havia sentido nem mesmo nos meus piores dias de campo, formou-se na minha garganta. Eu não precisava de detalhes clínicos; a desgraça se desenrolava na minha mente como um filme de terror. Ela não tinha nem onze anos. Era apenas uma menina sangrando e gritando por auxílio, enquanto o mundo escolhia a mentira de um monstro.
— Ele me carrega de volta. Me j**a no quartinho escuro — ela continuou, a voz agora reduzida a um fio de dor. — Eu choro. Ele me b**e. Muito. Diz que vou aprender a não mentir. Diz que sou suja. Ele limpa tudo, esconde tudo… Depois… depois a mamãe chega. Eu corro para ela, agarro-me às suas pernas, grito: “Mamãe, o tio me tocou! Ele fez coisas!”.
O choro tornou-se um soluço convulsivo que sacudia seu corpo inteiro sobre o sofá.
— E a mamãe… a mamãe me empurra. Ela me olha com aqueles olhos cansados, sem brilho, e diz: “Seu tio está aqui para te ajudar, menina ingrata. Pare de ser manhosa, inventando essas coisas feias”. Mas eu insisto, eu mostro onde dói, digo que ele me machucou… E então… ela me b**e. Ela b**e também e diz para eu parar de mentir. Ela diz que eu sou o problema.
O silêncio que se seguiu foi o mais pesado que já experimentei em toda a minha vida. Mais pesado que o aço das armas que já carreguei, mais denso que qualquer culpa que eu guardasse no peito. Era o silêncio do desamparo absoluto. O som de uma alma sendo esmagada não por um agressor, mas pela traição da única pessoa que deveria ser seu escudo.
— Ninguém vai me ajudar — o sussurro de Katleia era agora uma verdade aceita, uma sentença de morte proferida no fundo do poço. — Ninguém vai me salvar. Ninguém se importa. Estou sozinha. Eu não gosto de escuro… Não gosto de ficar sozinha. Por favor, não me deixe sozinha…

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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!