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Quarto errado, Mafioso certo! romance Capítulo 216

Cap.23

As Sombras da Memória

Pov Atila.

A biblioteca estava envolta em um silêncio sagrado, quebrado apenas pelo crepitar suave de algumas velas que eu acendera.

A lareira permanecia apagada, seu vazio negro servindo como contraponto à pequena esfera de luz quente que cercava o sofá de couro.

Katleia estava deitada ali, seus olhos fixos no teto alto e sombrio. A respiração dela era um pouco mais rápida que o normal.

Eu me sentei na poltrona ao lado da cabeceira do sofá, mantendo uma distância que era profissional, mas não fria.

— Você está nervosa — constatei, minha voz baixa e calibrada para penetrar sem assustar.

— Um pouco — ela admitiu, os dedos entrelaçados apertando-se sobre o estômago. — Nunca fiz isso. Hipnose.

— É apenas um relaxamento profundo. Um caminho para acessar lugares que a mente consciente trancou para se proteger, mas que te sobrecarregam. Você está no controle o tempo todo. — Inclinei-me para frente, mantendo o olhar fixo nos dela. — Mas preciso que você confie em mim, Katleia. Totalmente. Senão, a porta não abre.

Ela hesitou, uma sombra de seu medo antigo passando por seus olhos. Então, lentamente, ela estendeu a mão para o lado, sobre o braço do sofá. Eu envolvi sua mão com as minhas. Era pequena, fria, e tremia levemente.

— Confie — repeti.

Desta vez, minha voz não carregava o tom de uma instrução técnica. Era um pedido, quase uma suplicante, como acordo silencioso de que, não importa o que encontrássemos naquele abismo, eu estaria lá para puxá-la de volta.

Ela fechou os olhos, as pálpebras tremendo. Respirou fundo, o ar entrando de forma ruidosa em seus pulmões.

Comecei o processo. Minha voz baixou para um ritmo monótono, quase aveludado, envolvendo-a como um manto.

Guiei-a através da própria respiração, fazendo-a sentir o peso do corpo contra o sofá, a gravidade agindo sobre seus membros, enquanto a conduzia por uma escada imaginária que descia em direção ao silêncio. No início, a resistência era física; os tendões do seu pescoço saltavam e seus ombros permaneciam erguidos, na defensiva. Mas, aos poucos, a barreira cedeu.

O corpo dela afundou no veludo, a respiração tornou-se pesada e rítmica, e os dedos, antes rígidos, relaxaram suavemente dentro da minha mão.

Quando ela alcançou o estado de transe, o silêncio da biblioteca pareceu se expandir. Contra todas as minhas defesas profissionais, meu coração martelava. Eu sabia que estávamos prestes a mergulhar nas trevas.

— Katleia, preciso que você volte. Volte para a primeira vez que se sentiu verdadeiramente machucada, abandonada, traída. Onde você está?

Um tremor violento percorreu o corpo dela, como se uma corrente elétrica a atravessasse.

Sua mão se fechou com força na minha, as unhas cravando levemente na minha pele.

— Está… está escuro. E dói — a voz dela mudou. Não era mais a voz da mulher que escrevia romances; era o tom agudo, arranhado, de uma criança. — Minhas pernas… e minhas roupas estão sujas. Sujas de… vermelho. É quente. Está escorrendo.

Senti um soco no estômago. O instinto de proteção gritou para eu interromper, para poupá-la daquilo, mas eu sabia que a cura exigia descobrir o veneno.

— Onde você está? — instiguei com suavidade, mantendo minha voz como o único fio de realidade dela.

— Na rua. Correndo. Estou correndo. Gritando. — Uma lágrima escapou de sua pálpebra fechada, traçando um caminho brilhante e lento pela têmpora. — Socorro! Por favor, alguém me ajude! Ninguém para. Ninguém olha. Eles passam como se eu fosse fumaça. Até que… até que ele me segura.

— Quem, Katleia? Quem te segura?

— O tio. Ele agarra meu braço. Tão forte. Sinto o osso estalar. Dói — ela encolheu os ombros, um gesto instintivo de defesa que me quebrou por dentro. — As pessoas… agora elas olham. Elas param. Eu olho para elas, eu grito com toda a minha força: “Ele me machucou! Ele fez coisa ruim!”. Mas o tio… o tio ri. É um sorriso podre. Ele diz: “Ela caiu, coitada. Se machucou brincando. E agora está fazendo escândalo porque eu a repreendi, é uma criança problemática que merece ficar de castigo, porque roubou dinheiro na escola, essa vagabundinha”.

O relato saía entre soluços sufocados. Cada palavra era uma farpa encravada lentamente, Senti uma náusea súbita. A perversão da narrativa dele era perfeita; ele a transformava de vítima em culpada diante de uma plateia indiferente.

— E as pessoas… — a voz dela se quebrou em um suspiro de agonia pura — elas olham para mim de um jeito diferente. Com nojo. Com raiva. Elas acreditam nele. Elas viram o rosto. Ninguém… ninguém me ajuda.

Um nó de fúria gelada, algo que eu nunca havia sentido nem mesmo nos meus piores dias de campo, formou-se na minha garganta. Eu não precisava de detalhes clínicos; a desgraça se desenrolava na minha mente como um filme de terror. Ela não tinha nem onze anos. Era apenas uma menina sangrando e gritando por auxílio, enquanto o mundo escolhia a mentira de um monstro.

— Ele me carrega de volta. Me j**a no quartinho escuro — ela continuou, a voz agora reduzida a um fio de dor. — Eu choro. Ele me b**e. Muito. Diz que vou aprender a não mentir. Diz que sou suja. Ele limpa tudo, esconde tudo… Depois… depois a mamãe chega. Eu corro para ela, agarro-me às suas pernas, grito: “Mamãe, o tio me tocou! Ele fez coisas!”.

O choro tornou-se um soluço convulsivo que sacudia seu corpo inteiro sobre o sofá.

— E a mamãe… a mamãe me empurra. Ela me olha com aqueles olhos cansados, sem brilho, e diz: “Seu tio está aqui para te ajudar, menina ingrata. Pare de ser manhosa, inventando essas coisas feias”. Mas eu insisto, eu mostro onde dói, digo que ele me machucou… E então… ela me b**e. Ela b**e também e diz para eu parar de mentir. Ela diz que eu sou o problema.

O silêncio que se seguiu foi o mais pesado que já experimentei em toda a minha vida. Mais pesado que o aço das armas que já carreguei, mais denso que qualquer culpa que eu guardasse no peito. Era o silêncio do desamparo absoluto. O som de uma alma sendo esmagada não por um agressor, mas pela traição da única pessoa que deveria ser seu escudo.

— Ninguém vai me ajudar — o sussurro de Katleia era agora uma verdade aceita, uma sentença de morte proferida no fundo do poço. — Ninguém vai me salvar. Ninguém se importa. Estou sozinha. Eu não gosto de escuro… Não gosto de ficar sozinha. Por favor, não me deixe sozinha…

— E então? — perguntou, sua voz rouca de sono enquanto eu fingia que a ajustava ela no sofá.

Eu engoli seco, apagando todos os traços da minha própria quebra.

— Não sei... sinto-me um pouco leve, como se algo tivesse saído.

— Obrigado — disse, e a palavra tinha um significado duplo que só eu entendia. Obrigado por confiar, por me mostrar a sua dor, por me fazer sentir isso. — Por confiar em mim.

— Eu que agradeço — ela respondeu, sentando-se devagar. — Por me ajudar a passar por isso… sem tanto medo.

Ela parecia mais leve. Tentou se levantar, empurrando-se do sofá com as mãos, e em sua distração pós-transe, esqueceu completamente do pé machucado.

Ao colocar peso nele, um espasmo de dor cruzou o seu rosto e ela desequilibrou, caindo para frenteEu estava ao seu lado em um instante. Meus braços a envolveram antes que ela pudesse tocar o chão.

Desta vez, não foi um toque lateral, hesitante, Passei um braço em volta de suas costas e o outro sob seus joelhos, levantando-a novamente, desta vez com os pés dela suspensos a alguns centímetros do chão.

Minhas mãos se fecharam firmemente em sua cintura e sob suas coxas, segurando-a contra mim.

Ela deu um suspiro de surpresa, os olhos arregalados novamente, mas sem o pânico de antes. Havia uma tensão elétrica no ar, um reconhecimento mútuo daquele momento íntimo e protetor que tivemos minutos antes, mesmo que ela não se lembrasse.

— Cuidado — disse eu, minha voz um pouco mais rouca do que pretendia. — A sessão pode ter aliviado a mente, mas o pé ainda precisa de cuidados.

Ela não respondeu. Apenas olhou para mim, seus braços encontrando instintivamente meu pescoço para se equilibrar.

Seu rosto estava a centímetros do meu. Na penumbra da biblioteca, com o cheiro de velas e livros antigos, o mundo exterior e seus horrores pareciam muito, muito distantes. Havia apenas o calor dela em meus braços, o ritmo de nossa respiração quase sincronizado, e uma promessa não dita, mas profundamente sentida, pairando no ar silencioso entre nós.

Mas não alimentei muito, mesmo que eu quisesse, apenas a levei para seu quarto e a ajudei a se deitar.

Me despedi em silencio e fechei a porta.

Mas... o que aconteceu hoje, me fez pensar se ainda quero mesmo cavar seu passado, ainda tinha muita coisa, mas... como eu vou explorar isso sem me quebrar e sair precisando de tratamento também?

Eu já lidei com coisas ruins, com vitimas realmente destruídas, mas agora... eu me importava demais a ponto de não aguentar saber o que ela passou, mas para ela melhorar preciso continuar não importa o custo.

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