Cap.25
— Senta — Gildete ordenou, apontando para o chão com a taça. — Senta e bebe.
Selene sentou-se, cruzando as pernas, e aceitou o copo que Katleia lhe ofereceu. Tomou um gole, sentindo o calor do álcool espalhar-se pelo peito.
— Então, qual é a queixa geral? — Selene perguntou, contorcendo a cara. — Um gole não deve fazer mal.
— A vida é injusta — Gildete resumiu.
— Ah... concordo, Selene comentou, analisando cada uma das meninas, até encarar Maju, percebendo-a embriagada na metade do copo. Você não pode beber, Maju.
— Foi só um... tiquinho assim... — ela fez um bico engraçado, apontando para o corpo e dando um joinha sem saber nem o que estava fazendo.
— O Axel não olha para mim, eu só queria ser amiga do meu salvador... — Maju completou, com a sinceridade instantânea de quem acabou de descobrir o efeito do vinho.
— E eu… — Katleia hesitou, olhando para o líquido rubi em sua taça. — Eu não sei o que eu sou, eu queria ser normal... viver normalmente sem medo, mas... parece que o destino quer me trancar em uma jaula para viver segura... eu só consigo viver romances escrevendo-os, eu quero sair! — ela se levantou e caiu sentada de novo por causa do pé. — quero ver homens bonitos dançando, isso vai me inspirar a escrever mais romances.
— Ah... que bom que temos você, Selene, mesmo depois de ter encontrado sua família... você não abandonou nenhuma de nós...
— Qual é, promessa é promessa, nos prometemos não nos separar jamais, certo? Não somos uma família? Até que todas se casem, não devemos abandonar uma as outras.
— Do que está falando? Quando Kat estiver bem, você tem que ir morar com seu marido, vocês já são casados!
Selene as observou, uma por uma, e algo se apertou em seu peito. Ela ergueu o copo.
— Vocês são as melhores coisas que aconteceram na minha vida. — A voz dela saiu mais embargada do que esperava. — Eu passei tanto tempo sozinha, sem saber quem eu era, sem saber que tinha vocês esperando por mim. E quando finalmente encontrei… — Ela engoliu o nó na garganta. — Vocês são minha família. Minha verdadeira família, mas Adon... ele é o amor da minha vida todinho! Também... por que não ter tudo bem pertinho? Ate mesmo a Mima, que está dormindo que nem uma pedra!
Gildete fungou.
— Selene, você é a melhor coisa na nossa vida também, sua boba.
— É verdade — Maju concordou, balançando a cabeça com tanta ênfase que quase tombou para o lado. — Você salvou a gente. Salvou todo mundo.
— Não fui nada sem vocês — Selene insistiu, os olhos marejados. — Eu não era nada. Só uma menina perdida procurando respostas. Vocês são o que me deu coragem.
— Para de ser melosa — Gildete resmungou, mas seus olhos também estavam úmidos.
Elas ficaram em silêncio por um momento, cada uma perdida em seus próprios pensamentos embaçados pelo vinho. A garrafa estava quase no fim. Maju já estava com as bochechas coradas e um sorriso permanente nos lábios. Gildete parecia ter esquecido por que estava triste.
Katleia sentia o mundo levemente inclinado, mas de um jeito estranhamente agradável.
Foi quando a porta se abriu com um ímpeto súbito.
Adon entrou na biblioteca como um pai que acabou de descobrir uma festa teen em seu porão.
Seu olhar percorreu a cena, a garrafa vazia, os copos espalhados, quatro mulheres cambaleantes sentadas no tapete. Sua expressão era de puro choque.
— Adon! — Selene soluçou com o susto, a taça quase escapando de sua mão. Ela tentou endireitar a postura, mas seu corpo parecia ter perdido a noção de verticalidade. — Eu… eu não bebo. Jamais.
Ela riu, um riso fofo e bêbado, completamente não-convincente.
Adon estreitou os olhos.
— Você está bebendo, se Guilhermina não avisasse para vir te buscar quantas garrafas iam beber até desmaiar?
— Estou não. — Ela escondeu o copo atrás das costas, como uma criança de cinco anos. — É suco. Suco de uva fermentado e tem mais duas garrafas de uva esperando.
— Selene.
Todos se viraram.
Maju estava de pé, equilibrando-se com uma dignidade precária, seu copo de vinho ainda firmemente seguro entre as mãos. Ela estendeu uma mão trêmula na direção de Axel, o olhar fixo no dele, uma mistura de timidez e uma coragem recém-descoberta (e parcialmente alcoólica).
— Eu… eu deixo você me levar — repetiu, mais baixo agora, como se a bravata anterior tivesse consumido todo seu estoque de ousadia.
O silêncio na biblioteca era absoluto.
Axel a encarou, imóvel, seu rosto uma máscara impenetrável. O relógio na parede tic-tacava. A chuva lá fora insistia.
Então, sem uma palavra, ele deu um passo à frente, passou um braço ao redor dos ombros de Maju, com um cuidado quase reverente, e começou a guiá-la para fora da biblioteca.
Ela não resistiu. Apenas seguiu, seus passos pequenos e incertos, o copo de vinho ainda na mão, como uma versão tragicômica e encantadora de uma gata borralheira às avessas.
A porta fechou-se atrás deles.
Adon observou a cena, depois olhou para as duas restantes no chão, depois para sua esposa bêbada nos braços, e soltou um suspiro tão profundo que parecia ter vindo das profundezas de sua alma.
— Essa casa vai acabar comigo.
Ele saiu, carregando Selene, que agora cantarolava baixinho uma música que ninguém reconheceu.
Na biblioteca silenciosa, Gildete e Katleia se entreolharam. A garrafa vazia ainda estava no colo de Katleia. Gildete ainda estava de joelhos.
— Que noite — Gildete murmurou.
— É — Katleia concordou, ainda abraçada à garrafa. — Que noite... vamos para mais uma garrafa?

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!