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Quarto errado, Mafioso certo! romance Capítulo 220

Cap.27

O Peso de Um Segredo

William surgiu no corredor vindo da ala leste, seus passos silenciosos no carpete grosso. Encontrou Axel recostado na parede ao lado da porta da biblioteca, os braços cruzados, o olhar perdido em algum ponto distante. Havia algo diferente nele, uma tensão nos ombros, uma ruga na testa que não estava ali antes.

— E ai? Como anda suas investigações? Amanhã Adon quer relatório. — Axel avisou com a voz entendiada.

— Adon estava mesmo falando sério? — William perguntou, aproximando-se. Sua voz era baixa, profissional, mas um traço de humor cansado a tingia. — Sobre a operação "investigar todas elas? Ainda estou meio preocupado com o caminho que as coisas podem tomar investigando a vida de todas elas assim.

Axel soltou um suspiro, esfregando o rosto com as mãos.

— Você viu alguma alternativa? Depois do que aconteceu com a Katleia… — Ele não terminou a frase, mas o significado estava claro. — Ele quer proteger a Selene. Nós só estamos no caminho.

— E você vai levar a Katleia para o quarto?

A pergunta foi casual, mas Axel se retesou visivelmente.

— Não. — A palavra saiu rápida, cortante. — Não vou encostar nela.

William ergueu uma sobrancelha.

— Regras não escritas?

— Regras são regras — Axel disse, com uma finalidade que não admitia discussão. — Se um de nós parece interessado em alguma garota, é melhor não tocar. Não quero ser fatiado pelo Átila. — Ele fez uma pausa, e algo mais suave cruzou seu rosto. — Além disso… levando em consideração que a Katleia tem problemas com homens, eu é que não vou ser o idiota que vai desencadear uma crise nela, eu ainda quero viajar o mundo.

— Muito menos eu — William concordou, com um aceno seco.

Axel empurrou o corpo da parede, endireitando-se.

— Você pode levar a Gildete. Eu aviso o Átila que a Katleia está… — Ele olhou para dentro da biblioteca, onde Katleia estava estirada no sofá, os olhos vidrados no teto, abraçada à garrafa vazia como um ursinho de pelúcia. — Bêbada. Muito bêbada.

William suspirou.

— Ótimo.

Axel partiu, seus passos ecoando no corredor vazio. William permaneceu por um momento na entrada da biblioteca, observando a cena à sua frente.

Gildete estava sentada na ponta do sofá, o corpo curvado, a cabeça baixa. Ela balançava outra garrafa de vinho com um movimento rítmico e hipnótico, como quem embala um bebê. O som do vidro tilintando contra o fundo seco era a única música na sala silenciosa.

— Pode me dar outra garrafa? — ela murmurou, sem levantar os olhos. Sua voz estava rouca, pastosa. — As meninas nem me deixaram beber sozinha. Eu só queria… só queria um momento de silêncio.

William cruzou os braços, recostando-se no batente da porta.

— O que você está fazendo, Gildete?

Ela ergueu a cabeça abruptamente, os olhos vermelhos e brilhantes faiscando uma defensividade instantânea.

— O que é? Só porque você sabe algo da minha vida, já acha que pode se meter? — A voz dela subiu, trêmula de raiva e vergonha. — Não se mete, seu Zé! Não se mete comigo!

A última frase dissolveu-se num soluço. Ela encolheu os ombros, afundando-se ainda mais no sofá, escondendo o rosto atrás da cortina do próprio cabelo. Parecia uma criança tentando desaparecer.

William hesitou. Seu papel sempre fora o de observador, o advogado que analisa e age com frieza. Mas algo na postura dela, na fragilidade daquela raiva, o fez mover-se.

Ele se agachou diante dela, colocando-se no nível de seus olhos, mesmo que ela se recusasse a erguê-los.

— Eu sei o que você está sentindo — disse ele, sua voz surpreendentemente suave.

— O que você sabe? — Gildete cuspiu as palavras como se fossem veneno. — Vocês… todos vocês têm uma vida perfeita. Vocês têm dinheiro, casa, estabilidade. Nunca precisaram se preocupar se iam comer no dia seguinte. Nunca precisaram escolher entre pagar o aluguel ou comprar remédio. E eu… — Sua voz quebrou novamente, um som áspero e dilacerado. — Não importa o que eu faça… meu filho continua vivendo assim… eu sou uma pedra no sapato!

O silêncio que se seguiu foi absoluto.

William paralisou.

— O quê?

Gildete ergueu os olhos para ele, e pela primeira vez, a armadura caiu completamente. Não havia ali a mulher sarcástica, a trabalhadora incansável, a amiga leal.

Havia apenas uma garota de vinte e dois anos, exausta e desesperada, segurando os cacos de uma vida que nunca lhe dera trégua.

— É — ela sussurrou, a voz um fio de cinzas. — Ele é meu filho. Meu pequeno... tesouro a coisa que eu mais lutei para manter vivo.

As lágrimas começaram a escorrer, silenciosas e implacáveis.

— Eu tive que deixar ele ainda bebê. Ele tinha meses. Eu tinha quinze anos, na época, tinha ficado gravida pouco depois dos quinze anos. — Ela riu, um som amargo e sem humor. — Patético, não é?

William não respondeu. Não conseguia.

— Minha mãe já tinha ferrado tudo — ela continuou, as palavras saindo agora num fluxo incontrolável, como uma represa que enfim cedera. — Ela sumiu, deixou a gente com o Leo, que era quase criança também, já tinha dois anos que estávamos vivendo na miseria. E eu… eu ainda engravidei. Não consegui cuidar dele. Tive que deixar um bebê para trás, morando num orfanato, porque era de graça e perto de muitos lugares que dava para fazer alguns serviços de limpeza e servi mesas, sei la... Pra poder mandar dinheiro. Pra poder garantir que ele pelo menos comesse.

Seus ombros sacudiram com os soluços.

Ela não respondeu. Apenas acenou levemente com a cabeça e desapareceu pelo corredor, em direção ao seu quarto.

William ficou sozinho na biblioteca silenciosa. A garrafa vazia de vinho ainda estava no sofá, testemunha muda de todas as confissões daquela noite.

Ele respirou fundo e, em vez de seguir para seu próprio aposento, seus passos o levaram em outra direção.

O quarto de Ryuk ficava no fim do corredor, ao lado do cômodo que William ocupava temporariamente. A porta estava entreaberta, uma luz noturna projetando sombras suaves no teto.

William entrou silenciosamente.

O menino estava deitado de lado, os cabelos escuros espalhados no travesseiro, a respiração lenta e profunda. Seu rosto pequeno ainda tinha vestígios da febre, as bochechas levemente rosadas, as olheiras suaves, mas dormia em paz, aconchegado sob o edredom macio.

William sentou-se na beirada da cama. Com um cuidado que surpreenderia qualquer um que o conhecesse, estendeu a mão e testou a temperatura da testa de Ryuk com as costas dos dedos.

Fria. Normal. O alívio foi imediato.

Ele observou o menino dormir. Os cílios longos, os dedos minúsculos agarrados à borda do travesseiro, o ritmo calmo do peito subindo e descendo, seus traços eram os de gildete, seus cabelos negros como a noite e lisos.

— Sua mãe se esforçou muito para te criar — murmurou William, sua voz tão baixa que era quase um pensamento em voz alta. — Mais do que você jamais vai saber. Mais do que qualquer um jamais vai saber.

Ele fez uma pausa, os olhos fixos naquele rosto pequeno e sereno.

— Por isso… melhore logo, tá bem? Para que ela fique feliz. — Um sorriso gentil, quase imperceptível, surgiu em seus lábios. — Ela merece. E você também.

Ryuk moveu-se levemente no sono, virando o rosto para o lado oposto. William levantou-se com cuidado, ajustando o edredom sobre os ombros do menino.

Ficou ali por mais um momento, parado na penumbra do quarto, observando a criança dormir.

O peso do segredo que agora carregava era imenso, mas também era, de alguma forma, um privilégio.

Gildete havia lhe confiado a verdade mais dolorosa de sua vida. E ele, por sua vez, havia prometido guardar.

Quando finalmente saiu, fechando a porta com um clique suave, o corredor estava vazio e silencioso. A Casa da Ponte dormia.

Mas William sabia que não conseguiria pregar os olhos naquela noite. Havia muito o que processar, e uma promessa silenciosa a manter.

No quarto ao lado, Ryuk sonhava com cavalos e nuvens. No corredor, William caminhava de volta à biblioteca para recolher a garrafa vazia.

E em algum lugar entre a culpa e a redenção, uma nova conexão silenciosa se formava, não de amor, nem de amizade, mas de um reconhecimento mútuo de que, às vezes, as maiores fortalezas são construídas sobre os alicerces mais frágeis.

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