Cap.28
A Descoberta de Uma Noite
Pov Atila.
A biblioteca estava silenciosa quando entrei, exceto pelo som de vidro tilintando e passos abafados no tapete. William recolhia os vestígios da noite, copos, uma garrafa vazia, almofadas caídas no chão. Parecia exausto, mas eficiente, como sempre.
— Já vou dormir — ele disse, sem me olhar. — O resto é com você.
Ele saiu antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, levando consigo uma das garrafas e o ar de mistério que sempre o acompanhava ultimamente.
Meu olhar varreu a sala até encontrá-la.
Katleia estava deitada no sofá, os braços abertos como uma estrela-do-mar, os olhos vidrados no teto.
Um sorriso bobo e desfocado brincava em seus lábios. Ela parecia ver estrelinhas onde só havia madeira escura e sombras tava completamente fora de orbita.
Aproximei-me lentamente, observando-a. Seus cabelos curtos estavam desalinhados, uma mecha loira caída sobre os olhos. O pé enfaixado estava apoiado numa almofada, mas o resto do corpo parecia ter declarado independência da gravidade.
— Quanto você bebeu? — perguntei, sentando-me na borda do sofá.
Ela virou a cabeça na minha direção com um esforço visível, os olhos demorando um segundo a mais para focar em mim.
— Duas taças — respondeu, com um orgulho desproporcional à quantidade.
Soltei uma risada curta, incrédula.
— Duas taças? Você ficou bêbada com duas taças?
— Foi vinho — ela explicou, como se isso justificasse tudo. — Vinho de verdade. Dos fortes.
— Katleia. — Minha voz adquiriu um tom mais sério. — Você está tomando medicação. Ansiolíticos. Não pode misturar com álcool. Por que fez isso?
Ela franziu o nariz, uma expressão infantil e ao mesmo tempo desafiadora.
— Porque eu não ia dar conta dele.
— Dar conta de quem?
— Do dia. Das coisas. Da… — Ela fez um gesto vago com a mão, que podia significar tudo ou nada. — Da vida.
Respirei fundo, controlando a irritação que era, na verdade, preocupação disfarçada.
— Levanta. Vamos para o seu quarto.
— Não.
A resposta foi imediata, teimosa.
— Katleia.
— Eu sou criança por acaso? — Ela sentou-se de repente, com uma rapidez que a fez cambalear. — Você tá me dando ordens como se eu fosse…
No movimento de se levantar, ela bateu o pé machucado na borda da mesinha de centro.
— AI!
O grito foi seguido por um gemido de dor aguda, e ela caiu de volta no sofá, segurando o tornozelo enfaixado com as duas mãos, os olhos arregalados e marejados.
Minha expressão mudou instantaneamente. A irritação deu lugar a uma preocupação absoluta.
Ajoelhei-me diante dela, afastando suas mãos com cuidado para examinar o pé.
— Deixa eu ver. Bateu forte? O que você sente? A dor é no osso ou no músculo?
— Dói… — ela gemeu, a voz pequena.
Sentei-me no sofá ao lado dela e, com uma delicadeza que surpreenderia qualquer um que me conhecesse, coloquei o pé dela sobre meu joelho. Comecei a massagear suavemente a região ao redor da enfaixadura, meus dedos pressionando com cuidado para avaliar a extensão do dano.
— Foi aqui? — perguntei, tocando um ponto específico.
Ela gemeu baixinho.
— Aí… sim... bom...
— Muitos homens bonitos? — repeti, a voz saindo mais grave do que o normal.
— Muitos — ela confirmou, provocadora.
— Isso não vai acontecer.
— Por que não?
— Porque… — Eu me inclinei, invadindo seu espaço, mas parando a centímetros de seu rosto. — Porque você não vai ver homem bonito nenhum.
Ela prendeu a respiração. Seus olhos caíram para meus lábios por uma fração de segundo.
— E você?
A pergunta pairou no ar como um desafio.
— O que tem eu?
— Você é bonito. — Ela disse isso com uma simplicidade desarmante, como quem comenta o tempo. — E eu gosto quando você se aproxima. Não sinto medo.
Minha garganta se fechou.
— Katleia…
— É verdade. — Ela apertou minha mão. — Com você, eu não travo. Não fujo. Não… não sinto aquela coisa ruim.
Ela soltou minha mão de repente e, num movimento que me pegou completamente desprevenido, apoiou as mãos em meus ombros. Ficou na ponta dos pés, equilibrando-se precariamente, seu rosto a centímetros do meu.
— Testa — sussurrou.
— O quê?
— Faz um teste. Vê se eu consigo.
Eu deveria ter parado. Deveria ter me afastado, lembrado de todas as razões pelas quais aquilo era uma péssima ideia. Mas minha mão, traidora, encontrou suas costas, apenas para estabilizá-la, eu disse a mim mesmo. Apenas para garantir que ela não caísse.
Ela ficou ali, tão perto que eu podia contar seus cílios. Esperando.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!